Sexta-feira, Maio 30, 2003




PIPA


Correndo, sem tempo, apressada.
Tenho a sensação pouco agradável
de brincar, de nunca ter tempo.
De deixar para tudo fazer no último momento!
E ele, que não é amigo ou camarada,
passa, voa, leva, arrasta
nossas vidas, nossos sonhos, nossos dias.
Sem nenhuma piedade.
Orgulhoso, devasta contumaz.
Mas as lembranças não nos rouba,
disto não é capaz!

O tempo anda mudado.
Resolvi para ele olhar
e o que vi me fez mudar.
Dele tornei-me amiga,
não era mais sua vítima.
Linda, jovial, colorida,
no céu pairava uma pipa!
Voltei logo ao passado,
lembrei das pipas que fiz,
de todas que empinei.
Dava-lhe corda, e mais corda,
e a pobre não entendia
que a minha mercê ficaria,
aceitando a corda que vinha.

Fiquei amiga do tempo,
agora podia passar.
Tinha a pipa para observar.
Doces lembranças, memórias.
Estórias para contar!
E mais este lindo momento,
generoso o tempo me dava,
a bailarina de papel no céu a dançar!

Fiquei amiga do tempo,
podia agora passar...
Tinha era inveja da pipa,
leve, fugaz e volúvel,
bailava por todos os cantos,
plena de caprichos e encantos!
Quem me dera ser a pipa...
Ela podia voar!


Quarta-feira, Maio 28, 2003




PEDRO


Pedro foi um menino que aos nove anos lia Drummond, depois passou para Guimarães Rosa e seguiu a vida amando a poesia.

Quem lê Drummond aos noves anos de idade ou vai ser no futuro um intelectual de primeira linha, ou uma bicha muito bem informada e sensível!
Qualquer premissa é válida, eu adoraria qualquer que fosse.
Só que Pedro não se tornou gay, muito pelo contrário, e nem tampouco um "intelectualóide" metido a besta!

Gosto de muita gente, amo algumas pessoas e admiro poucas.
Admiro Pedro!

Sempre admirei Paulo Francis!
Um louco? Pode ser! Mas um doido adorável que por sinal também gostava muito de Pedro.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que prestei atenção em Pedro.
Foi em uma entrevista. Ele entrevistava em Londres algum inglês que, por mais que tente, não consigo lembrar quem era.
O que me chamou atenção foi que o entrevistador falava inglês melhor que o entrevistado.
Brasileiro, era correspondente em Londres, e suas palavras eram perfeitamente colocadas, nas horas precisas, entre a formalidade e a simplicidade.
Conduziu a entrevista com perfeição.
O entrevistador foi a grande estrela!

Muitos podem dizer: "Mas o cara morou em Londres oito anos!" E daí !? Conheço gente que mora vinte e não perde o sotaque, o ranço.
Pedro tem um inglês acadêmico, perfeito e sabe disto.
Obviamente tira partido deste presente. Sim, porque presente de Deus a gente não renega, aperfeiçoa quando se é inteligente!
Com Pedro acompanhei os eventos ou tragédias mais importantes do século XX.

A queda do muro de Berlin, a guerra do Golfo, Sarajevo, Romênia, Angola, o fim da URSS.
Sempre foi impecável! Talvez o admire por isto!
Na verdade não sei... ele não é previsível e, no entanto, pareço saber sempre o que vai dizer, o que pensa, por me identificar com ele.
Eu diria o que ele diz; tropeçaria e consertaria, não sei se com o mesmo jogo de cintura ou a mesma elegância!
Em Espaço Aberto transita por estantes lotadas de bons livros.

Para completar é lindo!!!

Esta é minha opinião e de toda a torcida do Corínthians, Flamengo, Grêmio, Palmeiras, Vasco...
Mas ser bonito não é absolutamente seu maior atrativo.
Se o observarmos estéticamente, nem é tão lindo assim!
Tem aquele gingado carioca, é o malandro chique, aquele que sabe virar-se para admirar uma mulher, sem ser deselegante.
Aliado a isto, tem um sorriso delicioso e a sobrancelha direita arguta, que se recusa a ficar parada quando tem algo interessante a dizer.
Tem mesmo, é charme!
Levanta a sobrancelha e diz aquilo que pensa, sem medo de se expor, mesmo que o preço seja alto.
Críticas não faltam, inveja ou despeito eu diria.
Mas não se pode negar que o cara é corajoso!
Também nunca gostei de unanimidades, então mantenho uma certa coerência.

Está na décima primeira edição de seu livro, "Crônicas de Repórter".
Um crítico ou repórter disse que o livro não consegue se equilibrar na fronteira entre a ficção e o jornalismo, mas para os curiosos é uma boa leitura.
Criticando, o crítico fez um enorme elogio. Pedro é assim mesmo, versátil, volúvel, volátil.
Declamava poemas no Baixo Leblon, ou Gávea, maravilhosamente bem.
Mas alcançou notoriedade e sucesso, não na apresentação do Fantástico, cobertura das guerras, ou como repórter internacional em Londres, mas sim no Reality Show, Big Brother.

Acho que Paulo Francis, se estivesse vivo, teria uma síncope nervosa!
Odiaria, arrasaria Pedro.
Eu adoro e penso que as mulheres de todo o país assistem, principalmente para vê-lo!
Eu assisto porque gosto! Adoro psicologia comportamental.
Não sendo bisbilhoteira ou fofoqueira, gosto de analisar o ser humano, o comportamento humano, sou "Voyeur ou voyeuse"...

Ainda menina, adorava ir ao apartamento de uma amiga na Avenida Nove de julho, quase no centro de São Paulo e ficar um bom tempo observando a atitude das pessoas, do prédio em frente.
Coisas simples, pessoas sozinhas... então divagava sobre solidão.
Pessoas neuróticas brigando... então divagava sobre violência ou injustiça social.

Fã de Hitchcock, adoraria ser Jimmy Stuart em Rear Window (Janela Indiscreta), e ficar com uma câmera observando a senhora alcoólatra, falando sozinha, o casal apaixonado que só pensava ou fazia "aquilo", o casal discreto que tinha adoração pelo cãozinho, a sedutora bailarina.
O ápice seria assistir a um assassinato e desvendá-lo!
Por isso o gosto por reality show. Sou analítica.
Pessoas que se mostram de uma forma, pensam que são de outra, agem de outra maneira, esquecem que estão sendo vistas, expõem-se, denunciam-se, perdem-se, acham-se...

Ninguém, ninguém melhor que Pedro Bial para dar o "timing" certo, na hora certa, sem nunca perder a piada.
Escorrega? Por que não? Todos escorregamos!

Tem sido infinitamente cobrado: afinal é um jornalista de peso, intelectual ou um adorável Abelardo (Chacrinha) Barbosa, por que não os dois?

O povo entende, o povo é sábio, os intelectuais têm mais dificuldade, são tacanhos.
Comer um pastel de feira com guaraná não é tão gostoso como um "Beluga" com champanhe?

E quem não gosta me perdoe: ele é bonito, inteligente, sagaz e charmoso!
Há controvérsias...
Se porventura um dia escrever um livro, minhas primeiras palavras serão: "O segredo do fracasso é tentar agradar todo mundo!
Tarefa humanamente impossível".
E ele sabe disso.
Então como diz meu querido Pedro Bial, frase que lhe foi dita por um senhor simples do interior, gente do povo, porque o povo sabe o que diz:
"Saúde e paz, o resto a gente corre atrás!"



Domingo, Maio 25, 2003




THE LANDSCAPER


Quando voltei a morar em São Paulo, decidi morar em casa, de preferência em algum lugar que fosse perto de onde minhas filhas pudessem montar a cavalo. Paixão das duas na época.

Compramos então uma casa caindo aos pedaços e a reformamos inteira.
Trabalho de cão, devo dizer. Jurei que seria minha última mudança! Mal sabia que em dois anos mudaria e reformaria outra, no mesmo bairro, só que bem mais trabalhosa.

E a casa ficou pronta! Só faltava o jardim. Em comemoração, meu marido fez um churrasco para os pedreiros, com sorteio de televisão e tudo. Eles estavam radiantes.

A melhor cena que vi foi quando cheguei e dei com a "pedreirada" toda tomando Coca-Cola light!
No afã de não engordar "suas mulheres" e a si próprio, meu marido compra tudo diet ou light.

Ao encontrar o Mil e Um (imaginem a dentição do pobrezinho), o Pé Podre e mais uns quinze, tomando refrigerante dietético, perguntei: "Ô Mil e Um, por que está tomando coca light?"
"Ah, nois toma até vinagre, quarqué coisa tá bão!"
"Não prefere a normal?" indaguei.
"Não tem não senhora, nois já caçô!"
"Então larga mão disso e toma uma cerveja".
E assim a festa começou!

Já o Pé Podre ganhou a alcunha na obra, de tanto machucar o pé esquerdo.
No dia do churrasco, no entanto, pisou em alguma pedra ou vidro e o corte foi bem fundo.

Minha simpática vizinha, hoje coleguinha de classe e amiga, Marina, veio socorrer. Paramentada e com uma caixa de primeiros socorros de dar inveja a qualquer enfermeira chefe, do melhor hospital de São Paulo, ela desinfetou, deu ponto falso, colocou ataduras, com "expertise" de cirurgião e detalhe: sem encostar as mãos nos pés de Pé Podre!
E tudo em menos de três minutos.

Marina opera e cura cães, gatos, gambás, macacos e pessoas.
Tenho o palpite que ela vem me enganando há muito tempo!
É médica ou veterinária e ataca de dona de casa, esportista, avó precoce e "gostosona".
Ela ficou encantada ao deparar-se com os trabalhadores tomando coca light: "Que propaganda de Coca-Cola, daria esta cena!" disse rindo.

Devo voltar ao jardim, faltavam as plantas!
Sou decoradora e já fiz um curso de jardinagem, mas não a ponto de planejar um jardim inteiro sozinha.
Aflita, fiz algumas indagações e alguém me indicou Sidnéia.... "Belo nome", pensei.

Sidnéia veio...Gorducha, saia de lycra preta, curtíssima, cinturão maior que a saia, blusa justa estampadona, cabelos loiros oxigenados, equilibrando-se num salto 12.
Os olhos azuis eram arregalados como os de Gene Wilder. Assustadores!
E para arrematar, ela tinha todo o jeito de quem se entupia do velho "Lexo" (apelido carinhoso que uma amiga deu ao Lexotan).

Pensei que uma pessoa portando aquele traje, com aqueles cabelos e atendendo pelo nome de Sidnéia, deveria ser no mínimo divertida.
CB (como se diz hoje em alguns lugares no Rio: Sangue bom... COM "C"???).

Daríamos boas risadas!
Afinal uma pessoa que não está nem um pouco preocupada em mostrar as celulites e a silhueta, deveria ser de bem com a vida e, muito provavelmente, habilidosa com plantas.
Ledo engano!
Trouxe alguns livros, falou alguns nomes científicos de plantas, mostrei o que gostava e estava resolvido.

Sem ter o cuidado de ver algum trabalho da paisagista, fechei negócio com ela com uma condição: eu iria junto ao Ceasa.

Tive absoluta certeza de que ela não apreciou minha imposição, mas eu queria escolher as plantas pessoalmente.
A combinação foi a seguinte: eu pagaria as plantas, as diárias do jardineiro e os honorários dela.
Marcamos um encontro às seis horas da manhã.

Eu já nem dormi de medo de me atrasar.
Cheguei na hora marcada e a paisagista não estava no Box 105, conforme combinamos.

Não foi difícil achá-la!
E agora, caros leitores, não posso privá-los de descrição da roupa da elegante "entendida" em jardinagem.
Estava com um conjunto "laycrado" rosa calcinha, calças curtas e grudadas, marcando até os pelos pubianos.
Blusa de alças, fazendo conjunto, marcava sutiã, banhas e tudo mais.
Sandálias altíssimas, chapéu de palha e um sacolão nos braços.

Nada disso me incomodou. O que me deixou doente foi a forma dela tratar os simpáticos vendedores.
Sidnéia (nada como uma ida ao Ceasa para conhecer um ser humano) era arrogante, pretensiosa e mal humorada.
A gota d'água foi na hora das compras. Eu escolhia e ela indagava: "Esta planta é anual? Gosta de sombra? Vai bem no sol? Gosta de muita água?"

Merda! Caí no conto do vigário! A criatura não entendia nada. Para ter um jardim feito desta forma eu faria sozinha, fácil!

Foi um espetáculo o jeito que ela calculou a grama: "dois e dois quatro, vai um, noves fora ao quadrado".
Na minha opinião ela comprou uma quantidade de grama que dava para forrar o Parque do Ibirapuera.
Fiquei quieta, afinal a "landscaper chiquérrima" era ela, e sou da opinião que "cada macaco no seu galho".
Mas que ali tinha muita grama, ah... isso tinha!

Tratei um caminhão para levar três árvores e aquele absurdo de grama, o resto iria no meu carro.

A "simpatia" já me colocara a par de que havia chegado ao Ceasa às 4.30 da manhã e seu carro estava lotado até o teto, nem um vasinho caberia.

Os vendedores ficaram "íntimos", ganhei descontos, cheques pré-datados para quando eu quisesse, e aquilo já a estava irritando.

Até de gatinha fui chamada!

Chamei dois carregadores e as compras estavam feitas.

A "lindeza" aproveitou para comprar algumas plantas, enfiar no meu carrinho e chegamos ao final da tragicomédia.

Cada estacionamento no Ceasa tem um Banco diferente.
Avisei bem que estava no Itaú e ela me disse que estava no Bradesco (até pra escolher estacionamento Sidnéia tinha mau gosto).

Um carregador me seguiu e o outro foi com ela.
Entendi que a criatura colocaria suas plantas "no teto" do carro e viria me encontrar.

Debaixo de um sol causticante, o simpático carregador encheu o carro sem esquecer que outro carrinho cheio ainda viria: "Vai caber, Dona, eu remonto tudo", dizia ele.
Esperei aproximadamente 40 minutos...Nada...

Eu suava, o carregador suava.
Com pena dispensei o rapaz, gratifiquei e fui procurar o arremedo de paisagista.
Irritada comigo mesma, agora já pensava que tudo fora minha culpa.
Não pedi para ver o trabalho dela, suas vestimentas me irritavam profundamente, só uma tonta trataria uma paisagista com aquelas roupas e aquele nome.

Fui ao estacionamento do Bradesco, voltei ao Ceasa, andei aquilo tudo umas dez vezes e nada!

Calculei que ela fora embora, indicando ao carregador onde eu estava e o fulano se perdera, ou pior: roubara um carrinho lotado e caro.

Zigzagueei mil vezes.

Chamei a polícia, fiz boletim de ocorrência, e a autoridade perguntou se eu não havia anotado o número que fica no bolso dos carregadores. Respondi que não e quase disse que estava acompanhada da "absoluta" Sidnéia, portanto não pensara neste detalhe.
"Então, Dona, o carregador deve ser autônomo, e a esta hora deve estar na Marginal Pinheiros, vendendo suas plantas".

Voltei para dentro do Ceasa: as plantas já tinham sido recolhidas e as verduras estavam sendo colocadas.

Este Ceasa é a coisa mais linda que existe, vale a pena conhecer, e a visão da organização e habilidade dos vendedores, melhorou um pouco meu humor.
Estava exausta, suando, triste e puta da vida com a jardineira!

Às duas da tarde desisti, voltei pra casa com um nó na garganta e dei com a paisagista dando ordens para o jardineiro e todas as minhas plantas com ela.
Fiquei louca, perguntei o que tinha acontecido, afinal ela me informara que em seu carro nada caberia!
Brava, relatei o episódio do policial, do BO, etc.
Ela pouco se "lixou" e continuou seu trabalho.
Tudo que eu queria naquela altura era me livrar dela.
Mandei que arrumasse mais um jardineiro. Ela acatou a idéia, não sem antes avisar que sempre deixava as ordens recomendadas e que eu não tinha necessidade de falar com os jardineiros.
Estranhei, nunca havia trocado duas palavras com eles a não ser para oferecer café e sanduíches.
Sem contar que o jardineiro gostava de mim e "plantaria bananeiras" se eu assim desejasse.

Ela sim resolveu dar ordens à minha empregada: "Olha minha filha, o rapaz tem hora pra sair e você lava o jardim".
Peguei-a no pulo e disse que o jardineiro lavaria a sujeira, todos os dias, era ofício dele.
Eu já conjeturava que Sidnéia era louca, sofria de prisão de ventre, depressão e outras coisas.

O jardim ficou finalmente pronto e lindo, graças a mim!
Desculpem a imodéstia.

Passaram-se quinze dias, "a coisa" veio ver "seu" trabalho e buscar seu último cheque.

Pois não é que a graciosa mocinha me cobrava o carreto das plantas que ela ousara trazer sem me avisar!
Não discuti, achei ridículo e já estava pronta para pagar e nunca mais deitar olhos nela, quando resolvi perguntar: "Aquela planta de flor rosa que está no solário, está muito tristonha, será que ela está gostando de lá?"
"Você está me acusando do que?" ela respondeu, ficando de pé com as mãos na cintura.

Ah, meu Pai, ela não sabia com quem estava mexendo.
Quando fico nervosa falo baixo, sou cáustica e vou direto na ferida

Disse tudo que pensava, perguntei se eu devia engolir a grama do Ibirapuera e comentei a falta de classe com a qual ela quis me proibir de falar com os jardineiros na minha casa.
Muito provavelmente ela estava pagando a metade da diária que me cobrava.
Descontei a grama, paguei o carreto que agora ela não queria aceitar. Mandei dar de gorjeia para os jardineiros e dispensei-a com um:
"Passe bem!"

Dois anos depois me mudei de casa.
Agora o jardim seria trabalhoso, pensei.
Chamei uma autêntica "Landscaper"!
Olhei seu trabalho, gostei!!! E além de tudo esta é bióloga!
O jardim ficou lindo, desta vez, graças à doce Karen.

Outro dia ouvi alguém perguntar o nome do jardineiro de Brasília.
Ri e pensei que se Burle Marx era jardineiro, Niemayer fora rebaixado a mestre de obras!

E onde entraria Sidnéia nesta escala de valores???



Sexta-feira, Maio 23, 2003




DECORADORA, EU?


Fui decoradora.
Esta sempre foi minha profissão e procurei executar com o maior carinho.
Sofri, ri muito, ganhei bastante dinheiro e hoje me considero aposentada.
Sei que é cedo, mas para quem começou a trabalhar aos dezessete anos e antes de ter um colapso nervoso resolvi parar.
O afastamento também culminou com minha mudança de Estado.
Eu é que não ia me meter a decorar em outras paragens, onde tudo que era bom tinha que vir do estrangeiro.

Conheci todo tipo de gente.
Pessoas muito educadas, não tão educadas assim, mas invariavelmente endinheiradas e quase sempre mimadas.

O decorador antes de tudo tem que ser um ótimo psicólogo, conhecer a alma da cliente e de preferência da família.
Sim, porque as senhoras perguntam a opinião das vizinhas, amigas, maridos, filhos, terapeutas e até das empregadas.

Era um vai e vem infindável entre lojas de tecidos, tapeceiros, cortineiros... coisa de dar inveja a qualquer caixeiro viajante.
Mas quando tudo terminava era gratificante. A dona da casa e a família sempre ficavam felizes!

Claro que nunca souberam que o tapeceiro fizera um dos sofás com o tecido pelo avesso, ou trocara o tecido estampado por um liso, de outra cliente.
Mesmo depois de várias visitas, nas quais tinha o cuidado de fazer cartelas com absolutamente todos os detalhes marcados.
Sempre assumi os erros.

Quando me mudei para o Rio, continuei vindo decorar em São Paulo e virei uma autêntica "habituée" da Ponte Aérea.
Aviões de quatro passageiros, cansei de tomar para ir decorar fazendas em Minas, Mato Grosso e muitos outros lugares.
Resistia bravamente...

Casas de praia para mim eram mais difíceis: as pessoas sempre queriam mostrar não só o barco, para futura decoração ou palpites, bem como a linda paisagem marítima.

Odeio barcos!!!
Não gosto do cheiro, da "malemolência". O vai e vem me dá náuseas e todos, todos os fãs de barcos, adoram parar em lindas ilhas paradisíacas.
Era a hora do alívio... Só que os referidos proprietários, sofrem de uma ansiedade marítima, pois param por cinco minutos, tempo de começar um relaxamento, e imediatamente resolvem partir para outra ilha.
Essas pessoas amam seus barcos e não lhes passa pela cabeça que alguém possa odiá-los.
A pior hora era quando começavam a servir cocktails e camarões fritos. Que enjôo!!!

Hoje as coisas mudaram!
Os arquitetos gostam de "decorar", mas estão longe de ser "decoradores", e o pior, as donas de casa são decoradoras "natas"!!!
Fazem sempre algo errado, não estudaram, com raras exceções; a proporção é inadequada e um detalhe pequeno pode matar um ambiente.
"Decorei sozinha, não gosto de decoradores, quero minha casa com a minha cara", dizem com orgulho, referindo-se ao horror que fizeram.

Como se deixar a casa com o espírito da pessoa, não fosse o ofício de um bom decorador.

Como não exerço mais a profissão, pouco ligo e quase nem observo, a não ser que seja algo dantesco!
O que quero mesmo é contar o que já ouvi, nesta profissão!

Senhoras querendo comprar tapetes combinando com quadros, um par de catiçais (castiçais), duas volúpcias (volutas) de época.
Houve um tempo em que se usou muita peça de igreja (capitéis), a pessoa me pediu carretéis!

Outra, na hora de pregar os quadros, me avisou que aquela parede estava com "humildade".
Elas, claro que não todas, tinham que ser interpretadas...
Escutavam ou liam as palavras decapé, pátina ou rádica e pronto, queriam a casa TODA "patinada", "decapada" ou "radicada".

Livros a metro, para ornamentar as prateleiras e para dar um ar intelectual, também eram comuns, e eles teriam que combinar com os tapetes e quadros!

Certa vez uma senhora marcou comigo às oito horas da manhã.
Sempre pontual cheguei na hora combinada, mas ela estava esgotada, havia ido a uma cerimônia judaica e o "rabinho" atrasou tanto que a tal celebração demorou demais.
"Já basta um enterro que tive que agüentar a semana passada", disse ela.
O "rabinho", o cantador e o cortejo "funéreo" paravam o tempo todo..."Nunca vi enterro com samba de breque!"

Outra não pôde ver tecido algum no dia marcado, tinha que fazer o chequinho às tantas horas.
"Você me paga depois", disse eu.
"Não, meu bem, vou fazer o chequinho no aeroporto". A figura ia viajar e estava atrasada para o check-in.

Com uma outra fiquei animada: pediu-me para ver algumas "mostras". Devia estar querendo informar-se.
Levei-a ao MASP e às tantas, ela comentou: "Este tal de Sr. Acêrvo, com esta quantidade de quadros deve ser bilionário!!!"

Encantada com o anel de uma cliente, elogiei! Ela me respondeu: "Benhê, sou uma mulher cravejada!!! Venha cá ver minha bolsa de ouro". E a bolsa era de ouro com o fecho lotado de brilhantes.

Chamaram-me dizendo que queriam uma pia da "La Basque". Eu já estava acostumada a lidar com donos e proprietários de empresas, achei que a sorveteria "La Basque" queria fazer uma pia.

Quando me encontrei com a pessoa foi que entendi. Ela queria uma pia de Alabastro, só que insistia em dizer "la basque".

Não quero ser injusta, ouvi muita coisa boa, aprendi muito sobre história da arte, o mobiliário brasileiro, conheci colecionadores, pessoas elegantes e cultas.
Aprendi mais com elas, do que no curso de História da Arte que fiz na Faap.
Mas me diverti mesmo com as outras, que apesar da falta de conhecimento eram generosas e cordiais.

E assim encerrei minha carreira. Se porventura alguém me chamar para alguma decoração, respondo: Decoradora, eu??!!
Acho que estou virando escritora...

"O convívio das letras não gera amigos, mas cúmplices". (Drummond)



Quinta-feira, Maio 22, 2003



PAULA


Em um dia lindo e ensolarado, quinze de janeiro, ganhei meu primeiro presente!
Presente caro, luxuoso...Tratei com carinho e esmero, era uma caixa de jóias!
Feliz, olhava sempre para ela como o meu bem mais precioso.
Mas comecei a pensar, depois de algum tempo, que minha caixinha tão linda,
estava solitária, merecia dentro dela uma jóia para guardar!
Uma jóia para mim, uma jóia para na caixa ser conservada.
Tratei de fazer a encomenda! Sou pessoa apressada!
Mas o ourives, o maior de todos, me avisou, "demora!",
afinal a senhora quer artigo suntuoso!
Coisa de gente abastada!
E eu queria mesmo, não importava o preço, nem a espera.
Tinha que ser exclusivo e só este artesão, o mais famoso do mundo, faria jóia tão rara!

Foi em oito de abril que a jóia me foi mostrada!
O preço e a demora... Nada mais importava.
Foi o segundo presente. Mereceria eu tanta graça alcançada?
Nunca vira nada igual, fiquei sem palavras.
Só um artista como ele faria uma obra de arte tão qualificada!
Agora minha caixinha tinha algo dentro.
Tinha companhia e aprenderia a resguardá-la.
Tinha também a mim, para amá-la e admirá-la!
E o melhor joalheiro do mundo havia feito
a minha perfeita Paula, a filha tão adorada!




Terça-feira, Maio 20, 2003




BLUNDER


Êta palavra boa! Diz tudo.
Blunder em inglês, significa fora, dar um fora. Começar com o título "fora" sugere que alguém está de fora, ou que alguém outrora fôra algo, e não existe coisa mais efêmera ou fugaz que um título.
Ele pode motivar ou desinteressar as pessoas no ato. Sou uma delas, dependendo do título, viro a página.

Poderia ter escolhido gafe, ou "faux pas", uma escorregadela. Mas são palavras francesas, e continua na mesma.
Já que é pra colocar em outra "língua" e eu não sou tão "purista" assim... que seja blunder, palavra gorda, combina com o significado.
Sim, porque foras são sempre grandes, senão não seriam foras.

Adoro foras. Adoro os meus próprios e os dos outros!
Quem nunca cometeu nenhum, pode jogar a tal primeira pedra.

Fora é característica de pessoas deliciosamente desligadas e falantes.
Há também os calados e tímidos que quando abrem a boca o fora é estrondoso!

Quando era bem pequena, lembro que na revista "Manchete", Pedro Bloch escrevia "Criança diz cada uma!"
Eu adorava aquilo, lotado de foras infantis.

Sou do tipo que tenta consertar os foras e a emenda é sempre pior que o soneto.
Levo um chute embaixo da mesa e ainda pergunto: "Ai, doeu, por que isto?"

Minha filha mais velha, a Flávia, foi mestra, especialista, catedrática em dar foras.
Hoje penso que talvez fosse só para me embaraçar, e obtinha o maior êxito!
Perguntar para uma amiga minha, que morria de complexo por causa da barriga, se ela estava grávida, este nem tem graça, quase todo mundo já deu. A senhora em questão, claro, ficou roxa.

Meu marido outro dia perguntou a um amigo nosso: "Então, vai ser vovô outra vez?"
Não, a mocinha só estava gordinha e o amigo arrematou: "Vera, venha cá! Não estou lhe dizendo que você está gorda? Luiz perguntou se eu vou ser avô!"
Lindo, foi Luiz tentando arrumar: "Que nada, perguntei porque já está na hora, você continua magra e bonita!"

Tive, uma ocasião, um vizinho que usava uma peruca Acaju, cor de mercúrio-cromo pra ser mais exata, com um topete sensacional!
No elevador, minha filha perguntou: "Por que o senhor usa esta peruca?"
E ela nunca ficava contente, o homem vermelho da cor dos cabelos e ela insistia: "Por que desta cor?"

A mais nova não ficava atrás.
Uma vez eu estava fazendo shiatsu com um massagista japonês, ela entrou na sala e disse brava: "Quer fazer o favor de tirar a mão da bunda da minha mãe!!!"

Um anjo de pediatra cuidou de minha filha recém nascida com o maior carinho.
Resolvi dar-lhe um presente.
Como não achei o Doutor "muito fanático", escolhi um cachecol de cores alegres.
E foi nesta hora que o médico se traiu (bichas se traem na hora da emoção ou do nervosismo: "Ah! Que passarinho lindo!"): "Ah! Que cachecol maravilhoso!!!"
Minha filhinha comentou na hora: "Este cachecol é do meu pai!"
Ao invés de dizer não e pronto, comecei uma interminável explicação e pedindo a ajuda da babá: "Acabei de comprar, não é Ana?"

Por falar em gays, adoro a todos, sempre me dei bem!
Acho que toda mulher que se preze tem que ter um amigo gay. Eles são divertidos, alegres, inteligentes, informados, sempre sabem o que está "acontecendo".
Colocam a gente pra cima, dizendo que estamos lindas e maravilhosas.
Tudo bem que ao nos retirarmos do recinto comentem: "Deu uma envelhecida, engordou..."
Mas não tem nenhum problema, gosto dessas maldadezinhas, fazem parte da alma feminina.

Tenho uma amiga, que tem um corpo lindo até hoje, mas numa ocasião ao voltar do toalete, sentiu-se o máximo, absolutamente o restaurante inteiro virou-se para admirá-la!
Pudera, ao levantar a calcinha, prendeu a saia junto e perambulou pelo restaurante todo mostrando a bunda, de calcinhas é claro! "Ainda bem que não estavam furadas", comentei na ocasião.

Em outro restaurante, uma senhora chique passou pela mesa onde estávamos, uma amiga e eu.
Sem perceber a elegância da tal senhora, minha amiga comandou: "Traga dois sundays de chocolate, por favor!"
A madame quase desmaiou!

Sempre me dei bem com as mães de minhas amigas.
Dava-lhes atenção, gostava de conversar com elas.
Até hoje não sei se foi falta de assunto ou o que.
Estava na casa de uma amiga e observei um quadro pendurado na parede, retratando uma casa de fazenda e, no meu entender, uma alma penada saindo de trás da casa.
Devo dizer que as mulheres da família não primavam pela "formosura".
"Interessante este quadro, dona Antônia, é a fazenda do Mato Grosso?"
"E sim!" respondeu ela, toda orgulhosa!
"Interessante também a idéia do pintor de colocar um fantasma saindo da casa! É para dar um ar de casa antiga, talvez inglesa?"
"Não, essa é minha filha Toni, retratada por fulano (importantíssimo, de tal)", respondeu a senhora indignada!
Era a minha amiga, que levava não somente o nome, como a formosura da mãe!!!

Era julho, fazia um frio de rachar.
Meu marido e eu tínhamos uma festa na casa de um amigo no Morumbi.
Aproveitei para vestir um lindo casaco de cashemere com gola de vison (herança de minha tia), e lá fomos nós.
Ao entrarmos achei a casa diferente, um pessoal mais velho, estranho.

Um mordomo imediatamente veio me ajudar com o casaco (sorte que fui com ele), e um garçom me ofereceu champanhe, coisa que aceitei imediatamente.
De um teclado, ao fundo, ouvia-se Debussy.
Em outra ala, podia-se avistar um casal "performático" dançando tango. A coisa era para agradar a todos os gostos e faixas etárias (menos a nossa).
Tudo estava ficando cada vez mais estranho...
Imagine se eu gostava de Debussy ou mordomos, aos 24 anos de idade. Tango, muito menos.
A dona da casa, muito atenciosa, veio nos cumprimentar, e foi aí que meu marido apertou meu braço, dizendo: "Estamos na festa errada!"
Que fora! Nos desculpamos e eu fiquei feliz por estar com uma indumentária chiquezinha, pelo menos não envergonhei a dona da festa!



Domingo, Maio 18, 2003




FLÁVIAS

Flávia significa dourada.
Loura, da cor do ouro.
Cabelos fulvos.
Feliz combinação!
Não existe nada mais iluminado que Flávia,
Filha tão esperada,
Amiga, amada.
Sempre em busca de novas sensações...
"Aprenda por amor, nunca pela dor!
Cuide-se bem! Para nunca perder este riso largo
E esta simpatia estampada no rosto!"
Criativa e inteligente, cativa a todos com sua conversa agradável!
Profunda, por vezes séria, densa...

Boa ouvinte, costuma escutar e captar os lamentos alheios, os ais.
Elegante em todos os sentidos,
no falar, vestir, discordar!
Sua menininha linda tatuada nas costas, feita nas entranhas,
de braços abertos para o mundo, retrata Flávia.
Parece dizer todo o tempo: "Estou aqui para todos e por todos.
Vivo intensamente!"

"Nunca sofra, nunca chore... você não merece!
Filha adorada."

Mãe extremada,
Um dia, impudente, roubei-lhe o nome,
E dei à minha Flávia.
Flávias são raras!
Flávias são únicas!
Flávias são amadas!





ESPERA


Esperar...
Todos vivem esperando. Filas de banco, cinema, teatro, supermercado, padaria e muitos etcéteras. Nas pequenas cidades, também esperam com paciência, a calma dos que lhes atendem.

Homens costumam desistir, mulheres não.
Acontece que espera é um privilégio do sexo feminino.
Não são as mulheres que esperam os filhos pequenos nas portas das escolas, não são elas que ficam na fila do supermercado ou do banco?
Esta é a única hora em que desejam ter 60 anos, ou estar grávida, talvez manquitolar um pouco.
Mas não, até para se ter 60 anos tem que se esperar. Concordo, ninguém tem pressa nenhuma, mas nessas horas, a idade resolve, ajuda, para isso ela serve.
Pelo menos em época de eleição, as sexagenárias são chamadas; vão, votam e resolvem o problema.

Homens são apressados, ansiosos, tendem a pegar outro ônibus se o que esperam demora. Nem que para isso tenham que tomar dois.
No cinema desistem facilmente do filme e postergam, ou assistem a outro qualquer. No restaurante perguntam se tem espera, se tiver trocam, com a maior facilidade.

Mulheres são mais obstinadas...
Esperam os maridos quando se atrasam.
Esperam sem dormir, aflitas, os filhos que demoram a chegar em casa, e rezam impotentes. Nada podem fazer, a não ser esperar.
Mulheres esperam maridos e filhos que foram para a guerra, sangrenta e inútil, com medo, pavor e resignação.
Esperam os que vão a algum bar tomar um chopinho, que se transformam em dez e nunca voltam!
Também, tanto faz voltar às duas como às quatro, a bronca é a mesma! A espera não.

E as mulheres que esperam seus maridos voltarem do mar, lindo e traiçoeiro mar...
Esperam por eles, pelos peixes e se porventura voltarem sem nada, improvisam qualquer coisa para que a família se alimente e ainda se sentem felizes... seu homem voltou, valeu esperar.

Algumas coisas surgem no mundo por causa da espera.
A famosa "La Bouillabaisse", prato típico "du midi", região central da França, apareceu devido à espera das mulheres dos pescadores.
Elas deixavam o molho "sofrer na panela" à espera dos maridos e das sobras, ou seja, aquilo que não fosse vendido, cabeça, rabo e outros "retalhos" do peixe, iriam pra aquele molho maravilhoso, que permaneceu horas na panela, na espera. Por isso os molhos franceses são deliciosos!

O sexto sentido é característica das mulheres, e não é coisa tola.
Algo que já foi visto e registrado na mente? Não! Ele existe como característica feminina e é fruto da espera.

Ironicamente, quem melhor retratou a feminina espera foi um homem.
Chico Buarque de Holanda.

Em uma reportagem na revista Carta Capital, um famoso jornalista disse que a grande estrela da família foi Sérgio Buarque.
Sérgio, Aurélio, Francisco, todos são estrelas, e há que se redundar: "Nunca foi visto uma estrela atropelar outra no céu!"

Chico ensinou que as Mulheres de Atenas esperavam e se despiam quando seus guerreiros voltavam.
Que com açúcar e afeto ela fez seu doce predileto, mas ele não ficou em casa, saiu e ela esperou.
Que um dia ele chegou diferente do jeito de sempre chegar, convidou-a pra dançar e ela o estava esperando.
E Januária na janela, que encantava a todos, o que fazia? Esperava.

Hoje as mulheres, muito mais independentes, livres, auto-suficientes, esperam menos, vão à luta, resolvem.
Mas ainda assim esperam por um telefonema, um e-mail, um convite, um olhar.

É, o esperar foi e sempre será uma característica feminina.
Pois são as maravilhosas mulheres que esperam noves meses para trazer ao mundo seus filhos, esperam nove meses para ver suas carinhas, amamentá-los, criá-los.
Esta é a espera maior, a mais linda espera: o milagre da maternidade!



Sexta-feira, Maio 16, 2003




E QUANDO OS PERSONAGENS "INTERAGEM"


Como o destino é por vezes brincalhão, prega peças, assusta, proporciona momentos alegres, tristes e muitas coincidências...
Segundo alguns, nada é por acaso, então lá se vão as tais coincidências.

Quem diria que Dr. Iran e Pezinhos de Anjo, um dia se encontrariam casualmente?
Pezinhos não mora em São Paulo, o Doutor, sim.
O encontro seria bastante improvável, mas não impossível. Afinal, gosto dos dois, somos grandes amigos.

Era Páscoa. Iran, meu marido e eu fomos para o sítio.

Nossa intenção era ficarmos os três, de papo pro ar. Eles na cozinha e eu lendo, escrevendo, estudando, caminhando...
Sinal dos tempos: quem tem coragem, hoje em dia, de dizer: "Vá pra cozinha dona Maria", no transito, por exemplo? A citação torno-se arcaica, obsoleta.
Até porque, no caso, os dois sabem que vão comer muito melhor se eles cozinharem. Tenho outros predicados, cozinha definitivamente não é o meu forte.

E não é que recebi um telefonema de minha irmã, a tal que paga as promessas com juros e correção monetária, dizendo que chegaria com nada mais nada menos que Pezinhos de Anjo e sua filhinha?
Ótima idéia! Ao invés de três, seríamos seis; conseqüentemente teríamos uma Páscoa muito mais animada!

Pezinhos, outrora "casual", hoje é praticamente uma perua. Minhas lições surtiram algum efeito.
Toda de negro, chiquérrima, portava um lindo par de sapatos de salto dez.
Aquilo me congelou a alma, me preocupou de cara.

O tempo, gaiato que é, começou a passar...
E entre enfiar os saltinhos ora no deck da piscina, ora no pasto, Pezinhos apreciava a natureza e respirava o ar puro do campo.

"Já, já ela torce, luxa, quebra e sei lá mais o que pode acontecer com tão lindos pés", pensei com meus botões.
Peguei-a pela mão e obriguei-a a colocar um par de tênis.
Respirei aliviada!
"Agora pára de se equilibrar e o perigo iminente de um sério acidente torna-se mais remoto!"

Doutor Iran e Luiz preparavam o almoço, com a maior categoria. Entradas, pratos principais e uma sobremesa de dar água na boca de qualquer mortal.
Nesse assunto meu marido é realmente campeão!
E assim o tempo passava...
A noite estava agradabilíssima, conversamos, rimos muito, jogamos cartas, dançamos.

Doutor, muito preocupado com o tempo (afinal uma chuva forte estragaria nosso papo na varanda), esticava os braços para verificar se chuviscava.
Não choveu!
O tempo, aquele que passa e nos prega peças, estava colaborando.
Lua cheia, céu estrelado, boa companhia...
O doutor fazia uma seleção musical de primeira, com aptidão do mais primoroso DJ... de Tom Jobim a Funk Como le Gusta.

Estaria meu amigo tentando impressionar Pezinhos???

Doutor Iran já é conhecido na cidade.
Fazendo sua caminhada matinal, meu amigo descobriu que na paróquia local haveria uma festa.
Ofereceu imediatamente seus préstimos. Disse ao pároco que levaria uma sopa, digamos para 60 pessoas, para ser servida depois da missa Pascal.
Doutor Iran, sempre bondoso! "Afinal quem leva sopa pra bandido, levar para os pobres é um grande prazer"...

Tal oferta me custou tempo e energia, pois tive que providenciar um caldeirão enorme, do tipo "poção de bruxa", para tal empreitada.

E o tempo foi passando...
Entre uma dança e outra, a medição meteorológica e a troca de CDs, Doutor ia verificar o andamento da sopa na cozinha.
Não posso deixar de mencionar que a sopa era de madioquinha salsa, afamada especialidade de Iran.
Desconfio que ele estava tentando matar dois coelhos com uma só cajadada: alimentar os pobres e impressionar Pés!!!

Como meu marido sempre adorou cozinhar, a arquitetura da cozinha é interessante: um janelão enorme dá para a varanda de um lado, e o "living" do outro. Então quem cozinha pode conversar com quem está no terraço ou na sala, ouvir música, checar o tempo.

O cheiro da sopa exalava-se, tomava conta da casa, a panela fumegava, um "bouquet garni",
dentro da imensa panela, enriquecia o aroma.
Para dividir o sopão em várias porções, Iran colocou o caldeirão do Huck (ou da bruxa) em uma mesinha baixa de apoio.
Queria que esfriasse um pouco, pois seria impossível levar tamanho objeto até a igreja, e impossível dividir algo fumegante.

Pezinhos, moça fina e educada, foi até a cozinha saber se o Doutor precisava de ajuda.
Com desespero notei que a troca dos lindos sapatos pelo par de tênis fora infrutífera!!! Pezinhos tropeçou, cambaleou. Iran sempre solícito tentou ampará-la... em vão!

Minha querida amiga caiu de bunda dentro da enorme panela fervendo, ficou entalada. Doutor, na tentativa desesperada de socorrê-la, caiu por cima dela.
A pulso conseguiu retirá-la.

A pobrezinha estava com a bunda em brasas e os pobres dos pobres ficaram sem a afamada sopa.
Nós também, que estávamos ansiosamente esperando.

Lágrimas escorriam dos olhos verdes de Pezinhos, todos ficamos muito aflitos!
Mas foi quando Doutor Iran se ofereceu para passar um ungüento "antroposófico" nas queimaduras de Pés...pensei: "Será que o Iran esta querendo impressioná-la.....
Ou será..."

AH, AÍ TEM COISA!!!!!!



Quinta-feira, Maio 15, 2003



AGRADO CALENTÓN


"Me parece", "me foi dito", ser um personagem de Almodóvar em "Todo sobre Mi Madre", não sei.
Gosto do diretor, assisto sempre seus filmes, mas Agrado não me vem à memória.

Almodóvar consegue como ninguém retratar o complexo universo que existe na vida cotidiana das pessoas.
E vem, com perfeição, mudando a cara da Espanha machista.
Neste filme as mulheres são fortes, imperativas, dominadoras.

Acontece que não me lembro de Agrado Calentón. Nem no filme, ou na vida real.
Mas ele se lembra de mim. E como lembra!
Esta pessoa apareceu do nada, me persegue, me escreve, me segue, sabe da minha vida, me manda e-mails, escreve nos "comments" do meu blog.
Não sei como me descobriu...navegando, naturalmente.
Acho que gosta de mim!

Eu, meio desligada, não sei direito ainda o perfil deste personagem.
Mandei-lhe um e-mail pedindo que assinasse com algum outro nome, pseudônimo ou alcunha.
Queria de fato, saber o sexo da criatura.
Na minha santa ingenuidade ou falta de perspicácia, ainda não descobri.
Ora me conta que toca castanholas, dança a "sevilhana" maravilhosamente, ora diz que é professor, tradutor ou escritor. Até toureiro já foi um dia. Será verdade?

Quem é você, Agrado, que me tem tirado o sono?
Afinal, não me considero curiosa, mas assim já é demais!
Comentários masculinos como alguém que me deseja, comentários sensíveis como os de uma mulher, amiga e confidente.
Quem é você? Quantos anos tem, onde mora? Diga-me, dê uma idéia, uma pista.
Tenho o palpite de que você está atraído ou atraída pelo suspense, o enigma, minha curiosidade, o sabor do desconhecido que desperta em mim.

Outro dia, disse que por mim cortaria os braços! Se porventura você vier a cometer tamanha loucura, corte somente um, te imploro!

Agrado é dramático e, com toda certeza, é espanhol.
No entanto, seu português é perfeito, digno de uma excelente jornalista.
Agora falo no feminino, pois seus comentários, volto a dizer, são sensíveis com nuanças de mulher.
Inteligente e sagaz, consegue desviar o assunto, enveredar por caminhos tortuosos. Sempre enigmático, como um corcel indomável!

Agrado é mulher e vem brincando comigo! Acho que estou montando o quebra-cabeça...

No filme "Tudo sobre Minha Mãe", o início é propositadamente previsível e uma rede de referências é criada com outros filmes, principalmente, "All about Eve" (A Malvada) e "A street car named desire" de Tennesee Williams (peça que assisti na Broadway com Alec Baldwin e Jessica Lange que faz o papel de Blanche Dubois. A modulação da voz de Jessica Lange é inesquecível).

Agrado, vou te pegar logo, logo. Estou, como direi? Refrescando a memória que sempre tenta, como você, me pregar peças.

Manuela, a protagonista do filme, engravida e foge, como Blanche (do Bonde), que fica grávida do cunhado e também foge.
Não conta ao marido dominador que vai ter um filho e omite do filho quem é o pai.
Sai de Madri, estabiliza-se, é forte, cria a criança em outra cidade.
No dia do aniversário do menino, agora com 17 anos, vão assistir "O Bonde Chamado Desejo". Ao atravessar a rua, alucinado ao avistar sua atriz favorita e pedir-lhe um autógrafo, é atropelado e morre.
Manuela, arrependida de nunca ter contado nem ao filho, nem ao pai a existência de ambos, sai à procura do ex-marido.

Só que a esta altura o marido é Lola, virou transexual e engravida outra mulher, que também morre.

Onde entrará Agrado na estória?
Restam vivos, Manuela e o filho de Lola.
Ao chegar em Madri, para dar a notícia do falecimento do filho ao pai (a Lola), Manuela encontra uma amiga, cujo nome não me lembro.
A maternidade por via transversa, tema Almodovariano, rocambolesco e genial, culmina com a fala que é de uma autênticidade incrível, da amiga de Manuela, ohhhhhhhh, a travesti Agrado Calentón!

Te peguei, meu bem, você que me assedia, me admira, me escreve...
Estou com a "Carne trêmula" e "À beira de um ataque de nervos"!
Já pensava até no nosso primeiro encontro, onde lhe diria: "Ata-me"! Mas... esqueça!

Vamos combinar: Seremos boas amigas, confidentes até, mas você é TRAVESTI. Eu já pensava até em romance, paixão, casamento!
Você me enganou o tempo todo! Travestis sempre me adoram eu já devia ter previsto!

E a fala culminante de Agrado à amiga Manuela é a seguinte: "Uma pessoa é tanto mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que ela sempre sonhou para si mesma!"
Pura verdade.
Perdôo-te, você é um lindo ser humano, sempre vou te querer bem!



Terça-feira, Maio 13, 2003




BEATRIZ


"Olha será que ela é moça,
Será que ela é triste...
Será que é o contrário,
Será que é pintura
O rosto da atriz..."

Difícil começar a falar de Beatriz... Bonita, sagaz, respostas rápidas e certeiras. Desde pequena, era e sempre será divertida e rápida no gatilho.

Cabelos loiros, elegante e dona de lindos pés, os quais não posso deixar de mencionar, até porque hoje se fala tanto no assunto, são tantos os aficionados por pés perfeitos! E Beatriz sem dúvida os tem, são de uma delicadeza oriental!! Mas isso é mero detalhe.

Fã de carteirinha de uma vidente, cartomante, quiromante, estas já lhe levaram de algum dinheiro até um lindo relógio de ouro, prometendo-lhe um futuro cheio de glamour! Alguém nos deu, uma ocasião a indicação de uma cartomante.
O lugar chamava-se Xale Suíço. Achamos que a cigana não devia se separar do tal xale, afinal é um adereço apreciado por elas.
Difícil foi achar o local, pois na verdade era Chalé Suíço!

Bia perguntou quanto custaria a consulta: "Ando meio apertada", disse.
A "adivinha" esperta replicou: "Isto se vê depois, esperança boa pela porta da rua!"
E com essa conversinha mole, na hora da conta, levou de Bia seu lindo reloginho de ouro!
"Relódio cêrve, não problema". E o lindo relógio se foi!

Apreciadora de um bom "dry Martini, very dry" e por que não dizer do sexo oposto, sabe reconhecer um homem charmoso e interessante; no que faz muito bem.

Tinha ela um cargo importante em uma empresa.
Sua chefe, estando acamada, praticamente exigiu que Beatriz a representasse em um evento fundamental para eles.

A festa seria em um hotel muito chique em Campos de Jordão.
Um frio de lascar, cinco graus, Bia começou a se preocupar: "O que vou vestir?"
A "patroa", num arroubo de generosidade, resolveu rapidamente a questão: "Você pode usar meu vison" e com grandiloqüência ofereceu-lhe também um magnífico par de brincos cravejados de diamantes.

Beatriz aceitou, se fosse pelo bom nome da companhia, iria pelo menos bem arrumada!
O dia da festa chegou, Bia foi até Campos e quando entrou no hotel... Aconteceu!
Loiríssima, casaco bege de vison, e aquele par de brincos, estava elegantíssima!
Vários senhores se viravam para admirá-la.
Um em especial lhe chamou atenção, visto que não tirava os olhos dela e para completar tinha aproximadamente uns 23 anos. Um gataço! E como olhava!

Ela, que não é boba nem nada, não perdeu tempo: lançava também lânguidos olhares de volta.
Em poucos minutos estavam dançando ao som de Frank Sinatra e Tony Bennet, num "cheek to cheek" bem ousado.
O fulano começou a dizer horrores nos seus ouvidos... horrores que ela estava amando. Coisas do tipo você é muito interessante, gostosa.
Percebendo a reciprocidade o rapaz foi crescendo. Já estava dizendo que ela era um tesão e ela adorando.
Na verdade respondia: "Repete, repete", e o garanhão repetia!

No fulgor dos seus 37 anos, sendo assediada por um garoto de 23, não era coisa pra qualquer uma!
Sentaram para um dry martini e os beijos no pescoço de Beatriz já a estavam deixando doida!

Resolveu ir ao toalete retocar a maquiagem e pentear os lindos cabelos...
Quando pasma e alucinada percebeu que um dos brincos estava faltando!
"Pelo amor de Deus! Devo ter perdido dançando", pensou a bobinha.

Não sei onde fora parar sua imaginação, pois voltou correndo para procurar.
A vaidade feminina não tem mesmo limite.
Não encontrou nem o brinco, nem o lindo espécime que a acompanhava em tão lasciva noitada.

O gatuno, habilidosíssimo, enquanto beijava sua delicada orelhinha, com a ponta da língua, retirava o rico adorno, que era o que realmente lhe interessava.
Naquela altura o cidadão já deveria estar no Sul de Minas, com o brinco de brilhantes na goela.
Logo Beatriz, uma raposa de tão esperta, caíra no canto da sereia, ou melhor, do peixão!
E a santa ingenuidade não parou por aí.
A bonitona contou o caso com riqueza de detalhes para um amigo jornalista.
Nem preciso dizer que na manhã seguinte, seu amiguinho publicou uma matéria enorme sobre senhoras de meia idade que se deixam enganar por rapazes de caráter ultraduvidoso, na mais alta sociedade, em festas no Guarujá e em Campos!
Que queimação!
A perda do brinco foi difícil, mas reza a boca pequena que o que ela não se conforma até hoje foi o "SENHORA MADURA".

"Olha, será que é uma estrela, será que é mentira
Será que é comédia, a vida da atriz?
Me ensina a não andar com os pés no chão...
Para sempre é sempre por um triz.
Para sempre Beatriz!"

UPDATE

Frio nas orelhas

Um alerta às mulheres maduras que procuram aventuras nos braços de moços bonitos.

No fim semana, numa boate em Campos do Jordão, uma senhora divorciada estava experimentando beijos mais do que tórridos quando foi surpreendida pelo rapaz, que arrancou seus brincos de brilhante e saiu correndo do local.


Notícia veiculada na coluna "Persona" de César Giobbi no dia 13/06/1997



Segunda-feira, Maio 12, 2003




SABEDORIA


Com a idade viria,
Com a maturidade apareceria,
Afinal, envelhecer traria consigo além do reumatismo,
A paz de espírito, a alegria...
A cobiçada sabedoria!

Por que então, velhos são tristes, amargos, ranzinzas?
Só alguns trazem em si a sabedoria...
Porque ela já estava dentro deles,
Apenas calada dormia!

Ser sábio não é ser culto, literato ou lógico,
Ela não se compra, não se troca, não se ensina,
É atávico, é pungente, é mágico!
Se doa a quem se estima...

Gabriel...você é sábio!
Senão, arcanjo não seria,
Paciência, aceitação, luta, dignidade.
Qualidades de anjo,
Dá, distribui, divide a infinidade...
Que tem para si sobrando,
A tão sonhada sabedoria!



Domingo, Maio 11, 2003




VIAGEM AO CENTRO DA TERRA


São Paulo é uma cidade de uma imensidão realmente assustadora.
Aliada a tamanha grandeza, minha ignorância... Tirando o quadrilátero onde nasci, o bairro onde vivo hoje, os lugares onde estudei e que fui forçada a aprender a chegar, me perco. Não conheço bem e fico aflita andando por caminhos nunca "dantes navegados", ou já esquecidos.

Por falar em navegados, aprendi a "navegar" há menos de um ano e minha irmã internauta me achava, digamos... bobinha. Enquanto eu... a achava louca, não saía de um computador!

Depois que escrevi "Minha adorável irmã", que é uma crônica pequena, achei que ela merecia algo de mais "peso", por merecimento e para combinar com ela.
Acontece que nos últimos tempos Benê (Benê de benemérita) tem sido uma fonte inesgotável de inspiração. E muitas outras têm sido dedicadas à ela.

Ela é mesmo divertida e se alguém tiver curiosidade de ir até os comentários em "Carta para meu irmão", "Saudades de Bahia", poderá constatar que vem recebendo recadinhos ao invés da escritora que vos fala.

Há pouco tempo não sabia também o que vinha a ser um blog, ela me mandou alguns endereços.
Gostei de alguns, de outros não.
Gosto de um poeta com quem me correspondo, não gosto muito de diários e confesso que ao olhar milhões de letrinhas, me dá um pouco de preguiça e falta total de curiosidade.

Minha intenção sempre foi livros e blog não seria nunca "minha praia", se Rô, a Benê (já vou parar com o Benê senão corro o risco dela se encher), a gordinha, não tivesse, por conta própria ilustrado todas as crônicas, para me fazer um mimo.

Suas ilustrações são ótimas.
Achei graça, me entusiasmei e fiquei agradecida.

Dei-lhe de presente um quadro da Frida Kahlo.
Sei que ela é fã e adorou, não antes de pedir:- "Venha pregar, você é decoradora, traga pregos e martelo, não uso essas coisas".
Eu que adoro ferramentas, não entendo como alguém pode desprezar um martelo! Quando pudesse iria, ficou assim combinado.

Depois do blog pronto, começou um segundo problema.
Eu, geminiana, telefonava diversas vezes pedindo, para não dizer implorando, que ela trocasse falas, corrigisse erros desapercebidos, levianos e algumas animações que ficariam melhores assim ou assado.

Fazer isto deve ser muito trabalhoso!!! Sim, porque ela ficava possessa, possuída, irada.
"Não vou trocar nada, blog é assim. Quem já leu, leu".
Depois de muita insistência acabou mudando, mas reclamou feito uma velha neurótica.

Telefonemas! Desligava quase que na minha cara e temo que hoje ela esteja amargamente arrependida de ter inventado a ilustração do blog, ou melhor, o blog propriamente dito.

Esta semana aconteceu algo curioso: ligou-me mansinha, alegrinha, perguntando o que eu pretendia fazer no dia seguinte. "Lá vem bomba", pensei.
Não era nada assim tão importante, ela queria que eu fosse buscá-la, pegasse a marginal em uma sexta-feira para ir até Santana (não sei ir, socorro, pensei), depois até o Bradesco (medo).

Sua, nossa amiga Eliane, acabara de voltar de Belém do Pará, trazendo alguns presentes enviados por uma amiga em comum.
Pensei que ela andava me "agüentando" muito, só o quadro achei pouco, e disse sim.

Os presentes eram muito interessantes: águas de cheiro deliciosas, saches e algumas guloseimas. Coisinha frugal, como pato no tucupi, tacacá, frutas exóticas, açaí, uma farinha que parece goma, enfim, coisa de gente...GULOSA!!!

E agora, Júlio Verne que se segure, pois fizemos uma "Viagem ao centro da Terra".

Sexta-feira, marginal Pinheiros, Santana e Bradesco, eu devia estar fora do meu juízo perfeito.

Antes de sairmos para a aventura, mandou-me um e-mail, pedindo pra imprimir...
Arrepiei-me feito gato, era a direção do lugar.

Nossa amiguinha Li, que escreve muito bem por sinal, mandou a direção pelo computador.
"Passe a ponte tal, veja que a rua bifurca, não entre... Sabe aquela rua que eu não sei o nome? Tem uma árvore grande, faça um S e continue, você vai ver uma imobiliária (???). Na próxima esquina desça a esquerda, tem uma padaria, não entre, vá reto"...
Concluindo: fomos parar num lugar chamado Vila Manchester.

Pronto! Estávamos na Inglaterra. Tinha até um "fog", estávamos na periferia de Londres, e ainda tinha o Bradesco!

Ruas estranhas, escuras, dava um certo medo.

E como diria Júlio Verne "and the journey continues"...
E a jornada continuou. Parei para abastecer, tinha uma loja de conveniências, eu queria um refrigerante, perguntei se queria algo, e ela responde:- "Se for alguma coisa... a nível de... sal"... claro que brincando. Brincando com a Língua Portuguesa, porque com o estômago ela não brinca.
Comeu um rissole de queijo e seguimos tentando voltar, encontrar primeiro Santana, depois a casa... e ainda tinha o Bradesco.

Passamos então por Vila Carrão, Aricanduva, Bairro Botussuru (Cep. 03805-080, isto é pra quem achar que estou mentindo), Vila Formosa, Vila Sta. Isabel e adjacências...

Foi curioso descobrir que todos estes bairros têm boas casas, Centros Culturais, Estádios de Esporte e em Vila Manchester está acontecendo a 4ª Bienal de Arquitetura.

Acontece que nervosas e perdidas, tudo estava turvo, obscuro e ainda tinha o Bradesco.

Encontramos Santana e no bairro, não foi difícil encontrar a casa da Li.
Casa linda, aconchegante, cheia de árvores, quintal, bem ao estilo das casas descritas por Zélia Gattai em seu livro "Anarquistas graças a Deus".

Na sala uma parede de fundo azulão (agora Júlio, a coisa virou "Viagem ao fundo do Mar"), repleta dos mais diferentes e inúmeros tipos de peixes, super interessante!
Eliane estava aturdida, apavorada... será que devido ao nosso atraso?
Não, ela tinha acabado de se dar conta que a comida do cachorro andava sumindo, antes do cão se aproximar. Coisa estranha!

Descobriu que um ENORME rato, vinha comendo o Frolic do cão há muito tempo.
Ao fazer uma faxina na lavanderia, atrás da máquina de lavar, uma coleção de ração para cães estava muito bem estocada.
Por isso, Li estava histérica!
Seus filhos resolveram caçar o rato, paramentados com roupa de borracha, galocha e capacete. Num cabo de vassoura, um dos garotos amarrou um garfo, o outro filho uma faca, o caseiro estava "puro" mesmo.

Chegamos no meio da operação "Ratbusters".

Um praticamente jogava o rato para o outro, muito mais por medo do que outra coisa. Ninguém tinha coragem de enfrentar o bicho, que olhava com dentes arreganhados e ameaçadores.

Era a primeira vez que tinha ido visitar Li e sem a menor cerimônia, subi na mesa. Branca, apavorada, aterrorizada, em pânico!!!
Acho que todos já tiveram alguma experiência com ratos, não sei bem o que as pessoas sentem. No meu caso é pavor, prefiro cobra, barata, aranha, qualquer coisa a RATO.

Nossa gordinha estava branca também, por medo do rato e pavor... vai que o bicho gostasse dos quitutes paraenses, e tivesse devorado tudo! Acho que ela mataria o rato "a porrada".

O rato correu para fora e Li veio com os já mencionados presentes, águas de cheiro, os tais saches perfumados e... pato no tucupi, tacacá, bolinho de piracuí, tucunaré de forno, unha de caranguejo (quitute feito das patinhas), arroz de jambú, tapioquinha, torta de
castanha do Pará, mousse de bacuri (doce), sem mencionar as frutas: graviola, açaí, cupuaçu e várias outras.
Tudo colocado em uma cesta ricamente guarnecida de tecidos e flores.

Que amor de amigas! Uma de preparar tudo, outra de trazer no avião a enorme cesta e outra, a "pata" de levá-la para buscar, se perder e enfrentar um rato.
E ainda tinha o Bradesco!

E se o rato tivesse comido? Viagem ao centro da terra em vão? Não, a gordinha é sortuda o rato só gostava de Frolic.

Com a confusão o rato entrou por trás na máquina de lavar.
Prática que sou, disse:- "Ligue a máquina, deixe bater com água quente, ele morre cozido".
Porém ele poderia não estar dentro e sim atrás: "Coloque Racumin e pronto!"
Não podia, o cão morreria envenenado.
Soube depois que puseram uma ratoeira com queijo e o rato recusou. Um dos "ratbusters", muito esperto, colocou Frolic na ratoeira e o maldito caiu na cilada.

Eliane foi um amor, o café estava uma delícia, mas... ainda tinha a volta da "Viagem" de Júlio Verne e... o Bradesco.

Na volta todo o santo ajuda, e Rô conta com a ajuda poderosa de Santo Expedito e Longuinho ao mesmo tempo, só que de vez em quando eles dormem, cochilam ou batem papo. Esqueceram de olhar por nós, por uns momentos.

Um assaltante veio do lado de Ró que, fumando, estava com o vidro entreaberto. "Vá passando a bolsa, relógio, anel e esta droga de cesta aí atrás". Com uma faca das grandes na mão.

Quando o dito usou a palavra cesta, a gordinha ficou doida!!!
Abriu a porta do carro com tanta força que jogou o ladrão no chão a metros de distância.
Dois senhores desceram de seus carros (coisa raríssima de se ver em São Paulo) e renderam o ladrão.
Pensamos: esse aí quando chegar em casa vai contar pra todo mundo que se deu mal com uma senhora "forte".

Bondade tem limite.
Alguém acha que a benemérita, escapando de ter a cesta perdida para um rato, iria deixar o ladrão levá-la?

Nem rato e nem ladrão iriam se regalar com suas iguarias paraenses. Mas não iam mesmo!
E onde entra o Bradesco nessa estória?
Mas o que é um Bradesco (fila, agitação, multa) perto de tantas delícias!
A conta que ficasse para segunda-feira. "Vou mesmo é provar uma dessas coisinhas".

A jornada aventureira, para minha sorte, lhe abriu o apetite!



Quinta-feira, Maio 08, 2003



POR QUE AS ESTRELAS BRILHAM?


(Abra em uma janela independente para escutar "Vincent - Josh Groban")


Nem todos os americanos são como George W. Bush, nem todos os macacos são George W. Bush.
Nem todos os iraquianos são Sadam Hussein.
Todos os árabes de Jeddah não são Osama Bin Laden, e todos os alemães não foram nazistas ou apoiaram Hittler incondicionalmente.

Tento cada vez mais me livrar de preconceitos, pré-conceitos, conceitos pré concebidos. Não é tarefa fácil. Quando menos esperamos, lá estamos nós fazendo um comentário preconceituoso!

É muito bom ver a justiça se apresentar, esta que às vezes tarda, mas quero crer que falhe cada vez menos.

É interessante saber quando e por que um alemão deixou de receber o Prêmio Nobel de Física.
Em 1938, o físico Hans Bethe fez uma descoberta importante, por que não dizer poética?
Ele sabia que a física Cecília Payne, 15 anos antes, descobrira que as estrelas são principalmente compostas de hidrogênio, elemento mais comum do universo.
A partir disto, Hans se concentrou em pesquisas sobre a reação do hidrogênio com outros elementos.
Então, ele pôde prever o que aconteceria se o núcleo dos átomos entrasse em fusão, após a colisão de uma estrela com a outra, em velocidade altíssima.
Descobriu, assim, que a fusão nuclear resultante desta reação em cadeia, libera quantidades enormes de energia e assim as estrelas brilham.
No mesmo ano, o alemão Carl Von Weizacker solucionou a mesma questão, a partir de inúmeros cálculos, chegando exatamente à mesma conclusão!
Os dois físicos ganhariam o prêmio Nobel.
Contudo, Carl trabalhava na construção da bomba atômica, no coração da Alemanha Nazista.
O prêmio foi para Hans e o brilhante assassino nazista, Carl, ficou de fora.
Ele não merecia tal honraria.

Isto se chama justiça, não preconceito.
Eu, pessoa simples, do povo, gosto de pensar que as estrelas brilham porque o ar não está poluído.
As estrelas brilham para que possamos fazer-lhes um pedido.
Elas brilham para que nossos pedidos sejam atendidos.
Elas brilham para que fiquemos mais românticos, para que os apaixonados se beijem e se emocionem.
Elas brilham porque são poderosas, "Ele" as criou!
Brilham porque são parceiras da Lua.
Brilham para inspirar os poetas, os artistas, os "Van Goghs"...
Brilham para enfeitar o céu.
Brilham para enfeitar nossas vidas!




Quarta-feira, Maio 07, 2003



JOÃO


Alguém já viu baiano mais paulista que João? Eu não.
Retraído, nada simpático, mau humorado, calado, tímido.
Genial, mestre maior, impecável, perfeccionista, uma divindade excêntrica.
Jeito de paulista...
Só a poluição sonora de São Paulo não combina com João.
"Não se pode machucar o silêncio, que é sagrado", diz ele.
Amo desde criança, ouço desde criança, dele tenho tudo. Faltava vê-lo pessoalmente. Por um motivo ou outro nunca fui a um único concerto, concerto é a palavra certa, sendo ele um "virtuose".

Quando o novo teatro Tom Brasil foi inaugurado recentemente, achei que já era hora de ouvi-lo.
Caetano deveria estar presente para testemunhar a elegância discreta ou não, das pessoas.
Mulheres arrumadas, ousadas, clássicas, tatuadas. Homens de terno, esportivos, audaciosos, ninguém deselegante. Não só na forma de vestir, as pessoas eram elegantes na forma de agir.
O silêncio hospitalar, o respeito, a admiração, propiciaram a João uma performance de perfeitos acordes imperfeitos, em seqüências mais que perfeitas.

Sua linha musical é uma aventura e um risco. Quando levemente atravessou um acorde, coisa que qualquer artista menos humilde tentaria levar desapercebidamente, João parou e disse: "Isto é mesmo difícil" e continuou em busca da perfeição.
Isto deve mante-lo vivo!

Para uma geração que cresceu sob a batuta de Tom, Chico, Gil, Caetano, Milton, Beto Guedes, Lô, João Bosco, Edu Lobo e muitos outros gênios é difícil encarar esta nova classe, tão empobrecida de talentos. Com poucas e raras exceções!
Foi com enorme prazer que vi tantos jovens, adolescentes mesmo, encantados, hipnotizados, mudos, assistindo João.
Será que vem aí uma nova leva de talentos, como aqueles que me acompanharam pela vida? Quem sabe...

Contei a uma amiga que estava indo ver João e ela respondeu: "Quem maravilha! Tomara que ele cante!"
E ele cantou, cantou durante duas horas e meia, atendeu absolutamente a todos os pedidos, e o público tinha a impressão de que ele , como nós, não queria ir embora!
Um fã gritou "Hino". Na hora pensei no "Pato", que por incrível que pareça ele ainda não tinha cantado.
E ele então, presenteou o público com o Hino Nacional. Foi pura emoção.
Foi pessoalmente aprovar o som do teatro anteriormente, e reclamou algumas cinco vezes do microfone. "Alguém mexeu aqui".
Se não reclamasse, não seria o geminiano, perfeccionista João!

Contou até piada, sem muita graça devo admitir, só que não era piada, era Tolstoi!
João é simples até no falar, e a forma de tocar e cantar lhe custaram anos de aperfeiçoamento e muita obstinação.
Quando o público o acompanhou baixinho em "Chega de Saudade", bem a seu estilo, João balançou a cabeça e disse: "Isto está lindo!"

Uma vez perguntaram a Nureyev como ele conseguia saltar, dar a impressão de permanecer no ar e graciosamente voltar ao palco. Ele respondeu: "Eu salto, paro no ar e volto!"
Assim é João, são longas frases sem respiração, o efeito é mágico, perfeito!
Ao ouvir "Sampa", por ele, é só ficar atento. Ele vai até a Avenida São João sem respirar e olha que o caminho é longo!
Se alguém perguntar como ele dá essa impressão de não estar respirando enquanto canta, como Nureyev deve responder: "Não respiro".
"Dizem que canto sempre as mesmas músicas velhas, mas as notas são mais velhas que as músicas, e são sempre as mesmas".

São Paulo foi a primeira cidade a compreender e difundir a bossa-nova...
"Se não fosse isso eu estaria morto", disse João certa vez.

Este é João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Um grande amor!



Terça-feira, Maio 06, 2003



MÃE


Mãe, Maria, Mulher,
Mulher Muito Mulher
Muito Melhor.
Maravilhosas Mães!
Marinas, Marianas, Márcias
Marcelas, Maísas,
Mônicas?
Morenas, Mescladas...
Mulatas, Matreiras.
Malditas, Menstruadas!
Mutante... Mutáveis,
Miseráveis!
Mestras, Motiva Melodia...
Maiores, Majestosas,
Memoráveis!
Meio dia, Meia lua,
Magia!
Minha Mente Metódica Mira,
Minha Mãe!
Magníficas mães!




VELHO BILL


Meu sogro, amigo e confidente. Bill é por minha conta, pois na verdade deveria ser Bio, já que seu nome era Fábio.

Era muito, muito rico. Quando perdeu dinheiro, ficou meio tristonho, amargo, gostava de falar do passado, relembrar o tempo das viagens, cassinos, cruzeiros. Mas assim mesmo era alegre e era meu confidente!

Muitas vezes tentei faze-lo ver que dinheiro não era tudo, o que valia eram os bons e verdadeiros amigos, um cineminha, um pôr do sol, pizza com chope.
Ele gostava mesmo era de champanhe, "champanhota" como dizia. Só a marca do whisky (mesmo rico) sempre foi prosaica, "Old Eight". Ele falava meio pra dentro, meio enrolado e saia "Oldy Eigui", e não estava nem aí, falava assim e pronto.
Itaquaquecetuba, não saia nem por um cacete, dizia Itaqrtcfhwrtuba.

Excelente caráter, a generosidade em pessoa, pagava todas contas de restaurantes e suas próprias antes do vencimento, foi fiador de "amigos" que não honraram as dívidas, roubado por sócios e assim a fortuna se foi.
Sem contar um pokerzinho, que era fã!
Contava-me quanto perdia numa noite (não era pouca porcaria não!) e no canhoto do cheque escrevia p.q.p., caso minha sogra bisbilhotasse.

Era elegante, lembrava James Bond. Imagino hoje ele se apresentando Fábio ou Billy, the old (o velho Bill.) Assim fica muito John Wayne, tinha mais jeito de Sean Connery.

Das muitas estórias que me confidenciou uma foi marcante.
Lá pelos idos de 1950, estava ele dentro de um ônibus e uma freira de hábito com o chapéu de três pontas para cima, como o da "Reverend Mother" em a "Noviça Rebelde".
A tal freirinha começou a encara-lo. Ele, como bom Alves, não deixou por menos, olhou pra ela também, era linda, estava viva, e um verdadeiro desperdício ser freira!
Esqueceu o assunto, foi um resvalo "à la Nelson Rodrigues", desceu do ônibus perto de casa. E não é que a "santinha" desceu também e foi atrás dele! Aí já era demais, a carne era fraca e ele traçou a freirinha embaixo de uma frondosa árvore nas Perdizes. Contou-me que ela levantou o hábito sem cerimônia e a coisa foi ali mesmo!

Em um jantar, antes de me casar, num clube chique em São Paulo, enquanto minha sogra foi ao toalete "empoar o nariz" ele me cutucou: "Olhe para trás", disse.
Olhei e dei com quatro "senhoras", para meu gosto muito repuxadas, muito maquiadas e laquê ali não faltava. Perguntei o que foi e ele respondeu: "Nada, transei com todas!"

Não pensem que ele era vulgar, grosseiro ou cafajeste.
Contava tais coisas só para mim, sei que me queria bem e eu a ele. Afinal, ele era Alves, só isso!

Alves é uma raça que tem de ser interpretada. Todos gostam daquilo, homens e mulheres, todos falam daquilo, todos praticam aquilo!
Uma de suas irmãs mais velhas era conhecida, quando chegava às vias de fato gritava: BARBARIDADE!!!!!!!
E não era do Sul, era de satisfação mesmo!

Quando me casei, ganhei dele uma aliança de brilhantes. Meu marido achou uma coisa "caretíssima" e então ele, galante, colocou-a em meu dedo; usei durante anos.

Não sei se deveria expor aqui suas confidências, mas tenho um palpite de que ele deve estar gostando.

Velho Bill costumava dizer que iria morrer assassinado, aos 90 anos, por um marido ciumento. Não foi bem assim, ficou muito doente e morreu.
Uma parte de nós se foi com ele.

O velório foi no interior, e as pessoas chegariam na manhã seguinte bem cedo.

Ficamos ao lado do caixão Fabinho (meu finado cunhado), Luiz, eu, meu irmão e minha irmã, minhas cunhadas e alguns outros parentes.
Às tantas Luiz disse: "Já conversei com o encarregado aqui, vamos coloca-lo na geladeira e bem cedo voltamos".

O que?? Fiquei pasma, imagine colocar o defunto na geladeira até a manhã seguinte.
"Se fosse meu pai eu nunca faria isto", respondi.
"Mas ele gostaria disto!", disse meu marido.
E assim foi, jantamos, tomamos vinho, "bebemos o morto", como se diz no nordeste...
Ninguém estava feliz, mas senti como se fosse uma homenagem e tive a certeza de que ele gostou do jeito que a coisa foi feita.

Às cinco horas da manhã estávamos todos no cemitério. Nunca vi na vida caixão mais florido! Flores frescas, defunto fresco e os seis homens lindíssimos, nada "frescos" carregando o caixão.
Aquilo era uma festa para os olhos de qualquer pessoa, mulheres de preferência. Dois irmãos muito mais novos que o falecido, dois filhos, um sobrinho e um neto, todos de tirar o fôlego.
Terno escuro, engravatados, muito bonitos e viris. Tão machos que quando o coveiro veio com um carrinho para levar o caixão, meu marido disse com voz de comando: "Velho Bill a gente carrega no braço", nada de carrinho!
Muito machos!!! Mal sabiam os seis, que o jazigo era a uns 5 Km de onde estávamos. detalhe "superficial", o cemitério era cheio de subidas!!!

O calor era sufocante, tive que tirar o casaco e ficar de alcinhas. Ouço então um comentário baixinho, que só meus ouvidos de "cachorro" são capazes de escutar: "Que bunda!" e a resposta de outro: "Cala boca idiota, é a mulher do Luizinho!". Coisa dos Alves, algum parente por mim desconhecido.

Os "Latin Lovers" que seguravam o caixão já estavam mortos depois de 3 Km. andando nas pirambeiras.
Ouvi um perguntar se não teria um boteco por perto para comprar uma água, refrigerante, cerveja...
Alguns secavam o rosto com lenço e abaixaram o caixão para uma merecida pausa.
"Senhor", pensei, "e se o fundo render, o defunto cair e rolar cemitério abaixo!"
A coisa já estava ficando com a cara do velho Bill, os elegantíssimos carregadores estavam pingando, um zum zum zum era ouvido e algumas senhoras chorando. (Será que ele comeu-as todas, pensei, ou será que já era desespero e cansaço?)
Foi então que se deram conta de que estavam perdidos...estávamos andando em círculos.

Que cemitério estranho, também só umas bestas quadradas não trazem a direção certa do jazigo, comentou minha adorável irmã, aquela que adora caminhar.

Passamos por vários enterros e fomos a atração do dia. Todos olhavam!
E a jornada prosseguia...
Nisso, uma senhora até bonitona, um tanto robusta, começa a ter um chilique: "Ai meu Pai! Quero ser enterrada com ele, Fábio, Fábio, Fábioooooo", a criatura gritava aos prantos.
Pendurou-se no caixão e aí não tinha machão que agüentasse o peso!
Por um triz todos não caíram com caixão e tudo.
Uma amiga caridosa veio consola-la, tirando-a dali.
"Quem é essa?" perguntei. Ninguém sabia... Com aquela ele transou, não restava dúvidas, e como ela deve ter gostado!

Senti-me dentro de Mar Morto, Capitães de Areia ou Gabriela. Enterro com cara de Jorge Amado, ou melhor, com jeito de Fabião.

Pingando de suor, achamos por fim o jazigo!

A cara do coveiro era como diria minha avó, impagável.
Puto de tanto esperar e esperou mais.
No momento de enterra-lo, Luiz pediu a Ana Maria, irmã bem mais nova de Bill, porém a mais velha dos que ficaram, que dissesse algumas palavras de despedida. Ana, professora, fala e escreve muito bem! Disse algo lindo e breve e imediatamente passou a palavra para Fabinho, filho mais velho.
Fabinho não esperava tal honra e meio aturdido disse: "E para meu pai, velho Bill, pessoa adorada por todos, que aqui jaz, peço uma salva de palmas!"
E no meio de aplausos ensurdecedores Billy, the old devia estar lá em cima sorrindo!
Paquerando uma Santa e tomando um "Oldy Eigui" com Velho Pedro. Opa, digo... São Pedro!


Segunda-feira, Maio 05, 2003




CASA DE CAMPO

Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz...
Apesar de hoje amar, nunca imaginei ter um sítio ou casa de campo.
A antiga máxima, repetida por meu pai durante uma vida, "casa de praia e campo, são duas alegrias", todos conhecem.
Pensava que ficaria presa a ela e caseiros adoram dar as "boas novas", assim que chegamos para um fim de semana relaxante: "A bomba quebrou, estamos sem energia, precisamos disto e daquilo"...

Seguindo os conselhos de papai, ficávamos em hotéis.
Filhas pequenas, hotéis-fazenda eram apropriados.
Porém, quando minha filha de 4 anos viu uma vaca e pediu para "liga-la", perguntou onde colocava a "moedinha" e passeando de charrete, me implorou para desligar o cavalo, pois estava cansada, foi a gota d'água!
"Estas crianças precisam de bichos e natureza", disse meu marido.
Compramos então um sítio, "a porteira fechada", como bem diz o caipira. Isto incluía móveis, objetos e... os caseiros.

Levei algum tempo para deixar a casa e o jardim com a minha cara e levei, ou melhor, nunca me acostumei com "o" caseiro.
Ela, a esposa, era simpática, cozinhava divinamente e agradava meus convidados. Ele, vou levar algum tempo para descrever, era "louco de atirar na parede!"

A começar pelo nome, a criatura era pomposa! George Franklin.
Será que a senhora mãe dele era fã de George Washington e Franklin D. Roosevelt, ou ele próprio já crescidinho, dirigiu-se ao cartório local e trocou um mero José por George Franklin? Mistério...

Quando foi nos mostrar a propriedade pela primeira vez notei um linguajar impecável, mais empolado que as composições do (meu querido) Johnny Alf.
Fã de Lobsang Rampa, Carlos Castaneda e até de Drummond, o cara falava bonito!
Uma vez conversando com meu marido citei Nietzsche, ele estava por perto e nunca perdia nada, corrigiu: "Isto é Tolstoi!" Boquiaberta, só fiz olhar. Não sei até hoje quem estava certo.

Já sei muito bem que todos vão pensar ou já estão pensando, que estou mentindo, não estou não.

Mr. George usava robe de chambre com écharpe de seda, fumava cachimbo (fumo Halph and Halph, outro não servia) e tomava conhaque. Não saberia dizer se Fundador ou Hennesy (a segunda opção já seria demais, mas dele nada duvidava.) Bem mais chique que o patrão, diga-se de passagem.

Era julho, fazia muito frio e pedi lenha.

O personagem subiu com a lenha, vestindo robe e écharpe de seda, fumando cachimbo.
De queixo caído, fiquei observando a forma que ele acendia a lareira. Um autêntico escocês!
A TV estava ligada, eu aturdida com tal indumentária, olhei para minha irmã com medo que ela tivesse um ataque de risos (coisa própria dela), então comentei rapidamente, como minha sobrinha Gabi, filha de Ró, estava bonita.
Fiz o comentário sem citar nomes, o intrometido respondeu: "Não só bonita como sensual, eu diria apetecível! "(gostaram do apetecível?)
Pensei que fosse cair do sofá, mas percebi que ele estava se referindo a atriz da novela.
O dito estaria lendo Camões ou Fernando Pessoa? Vai saber, termo tão lusitano!

Quando, de vez em quando, resolvia trabalhar fazia um cenário de dar inveja a qualquer cenógrafo "global".
Cortava a grama até onde a vista alcançava, dava um jeito na piscina, etc.
Isto quando fazia, pois soube mais tarde, que o cidadão contratava um pessoal para fazer o serviço por ele. Coisa compreensível, afinal tinha que colocar a leitura em dia.
Plantava mudas com o saco plástico preto e convencia qualquer pessoa mais desavisada, que o plástico misturado ao adubo, se transformava rapidamente em matéria orgânica. Uma reação química, ainda desconhecida por muitos!

Bom de papo, um político! Era respondão, metido, autoritário, preguiçoso, mas era habilidoso, consertava qualquer coisa (quando queria) e suas tiradas eram divertidas.

Uma ocasião fizemos uma viagem para Jamaica, via Miami.
Em Miami ficamos num hotel bastante caro, porque a cidade estava lotada.
Dois casais amigos foram conosco e logo que voltamos fomos todos para o sítio. Claro, o comentário foi a viagem, principalmente o hotel de Miami que possuía um "chef" considerado um dos 3 melhores do mundo.

Madame, a cozinheira, servia ouvindo discreta e atentamente. Obviamente, quando desceu, deu o "report" completo para o marido. No dia seguinte, fui plantar uns canteiros com ele.
O falastrão saiu com esta: "Se eu tivesse dinheiro, não faria o que esses ricos fazem. Ah, não faria não! Hotéis caríssimos, um desperdício. Alugaria uma "caravan", a senhora sabe um "trailler"(ele sabia os dois termos, British/American)"... Olhei com cara de prossiga, e ele: "Faria todos os Estados Americanos, atravessaria as Rocky Mauntains (para que dizer Montanha Rochosas?), pararia naqueles campings ultra sofisticados! Sim, porque lá existem tais campings, não são como as porcarias que temos aqui no terceiro mundo!"

O "coisa" falava inglês! Nunca chequei, mas acho que tinha uma boa noção da língua.
Durante meus fins de semana, minha boca já permanecia aberta, assim poupava tempo de deixar o "queixo cair" quando ele se aproximava.

Lá, a televisão era coletiva, todos os aparelhos pegavam o canal do aparelho principal, incluindo a casa do caseiro.
Meio desligada que sou, um dia me dei conta e perguntei: "Todos os aparelhos pegam o mesmo canal?"
"Sim senhora, se a senhora quiser assistir o acasalamento das baleias, a vida das cobras na África Central, Animal Planet, Discovery Channel o dia todo, nós somos obrigados a ver também. Não que eu não aprecie, a patroa coitada, sendo mais ignorante, gosta de novelas".
Sugestão direta para que eu deixasse na novela, pelo menos na das 8. Mas nisto concordo com ele, acho-as meio maçantes!

Fomos fazer umas compras na cidade vizinha.
Ele dirigindo como louco, no meu carro, me fez pensar em como ele deveria fazer quando estava sozinho!
"Faça a gentileza de ir mais devagar!" falei brava.
Ele brecou o carro, olhou nos meus olhos e respondeu: "A senhora quer ir guiando?"
"NÃO! Quero que o senhor vá mais devagar!"

Chegando em casa George foi despedido por meu marido.
Quinze minutos se passaram, ele veio até nós com cara de cachorro que fez bobagem, dizendo que pessoas tão inteligentes, haveriam de compreender seu gênio peculiar, seus altos e baixos. "Falo e me arrependo!" Acabou sendo perdoado e foi ficando.

Eu bem sabia de seus altos e baixos. Bastava olhar a piscina, ora translúcida, ora marrom! "São as chuvas, a água que vem do rio, está escura!" Com isso vinha uma explicação interminável e cientifica. Cloro, clarificante, barrilha, algicida, tudo era omitido. "São as chuvas", dizia.

Um belo dia, dei com uma galinha preta ciscando no jardim. Achei bonitinha!
Combinava com a paisagem.
Perguntei de quem era e ele me disse que a patroa havia ganhado, "coisa de gente simples, a senhora sabe".
Nem um pouco convencida, pensei que ele dera pra estudar teologia, ou havia se tornado macumbeiro.

Não me incomodei até as quatro horas da manhã, quando ela começou a fazer um "cocoricor" debaixo de minha janela. Esperei acordada um tempo necessário, desci...
Sem dormir, de mau humor, perguntei: "Conhece coq au vin? Canja? Dê, mate, quero esta galinha fora daqui, em meia hora!"
A franga desapareceu, sofisticado George deve ter jantado "fricassé de frango".

Como já disse, adoram dar as "boas novas", e foi assim que ele me avisou que a cadela havia desaparecido.
Que merda! Eu tinha avisado mil vezes para manter a cadela presa, afinal era seu primeiro cio e eu não queria a coitadinha cruzando com qualquer vira-lata.
Ele seguiu minhas instruções provavelmente por dez minutos, a "cã" deve ter latido, uivado e ele a soltou. Coisa compreensível, afinal ela deveria estar atrapalhando os "momentos culturais" de George.

Logicamente, voltou grávida!
Logo a Vicky, uma labrador linda, tratada por mim a pão de ló. Vacinada, frequentadora de pet-shops.
Apesar de não morrer de amores por cachorros, as crianças insistiram, eu deixei... e quando faço, faço direito!
Uma veterinária vinha mensalmente vê-la.
A bichinha me adorava, fazia festa, lambia (eu suportava aquelas demonstrações de afeto), gostava dela.
Só não lhe permitia entrar dentro de casa, afinal se o caseiro podia ser louco eu também podia.

Nervosa, pensava em como seriam os filhotes! Eles nasceram, olhei surpresa e comentei:-
"Parecem Rottweillers!"
"Se estes filhotes são Rottweillers, eu sou germânico!" Foi a resposta do caseiro.

Ele não era germânico, era um misto de mordomo inglês, com um personagem de chanchada.
O tempo passou e nos mudamos para Salvador- Bahia.
Alugamos o sítio para nossos amigos Márcia e David.
Minha maior preocupação era George x David.
Como seria?
David é elegante, finíssimo, educadíssimo, caprichoso e sem a menor paciência para uma piscina meio escura ou pior, para um robe de chambre com écharpe de seda e cachimbo.
Pensei: "Ele não agüenta este caseiro um mês!"
E foi assim que David despediu sumariamente George.
Poupou-me o trabalho!

E assim perdi George, péssimo caseiro, mas com ele, se foram incríveis estórias!


Sexta-feira, Maio 02, 2003



PAISAGEM


A paisagem é linda, limpa, calma

O azul do céu e o verde se amalgamam.

A diversidade enche a vista

Esquenta o coração.

A neblina forte e densa se apresenta

A paisagem se torna misteriosa.

Onde está?

Verde que te quero Verde...

Vou-me embora pra Pasárgada...

Não por ser amiga do Rei,

Já tenho um Rei que amo...

E... minhas falas escolherei!!




Quinta-feira, Maio 01, 2003



BILINGUAL OU MULTILINGUAL


Sempre gostei de línguas... principalmente do beijo!

Com 15 anos falava Francês e Inglês.
Recebi os devidos diplomas e certificados.
Feliz, achava que estava tudo resolvido, já era "multilingual". E era mesmo! Tinha gente na França, que perguntava de que região eu vinha.

Resolvi aprender alemão! Êta língua difícil! Porém, lógica!
Alguns dizem que alemão não fala, arrota. Não concordo. Depende da região.

O tempo é mesmo senhor da razão, ou o destruidor dos neurônios, quem sabe? A gente vai esquecendo e um belo dia se dá conta que está apanhando para falar.

Há pouco mais de dois anos, no Rio de Janeiro, fui apresentada a uma francesa.
Resolvi contar a ela que ali mesmo, naquela praia, quase havia me afogado e só sobrevivi porque um "bodî garrdî" (falei com biquinho e tudo), me salvou!
A cretina da francesa não entendeu. Francês não gosta de falar inglês e salva-vidas definitivamente não é "body guard", é "sauveteur".
Então ela teve o desplante de dizer "Je parle espagnol". Ah, fiquei puta!
Como foi que a criatura ousou me fazer tal ofensa?
Quase mandei à merda e disse que o biquíni dela era horroroso (daqueles que cobrem a bunda toda, igual aos das americanas)!
Educadíssima, me contive.

Voltei para São Paulo e fui direto para Aliança Francesa, onde até hoje tenho aulas com a encantadora e criativa Danielle.
Inglês também recomecei, há muitos anos, quando me dei conta de que tudo que não é usado enferruja, estraga. É preciso prática, hábito, constância.
Lutando contra o tempo, estudo para manter a forma.

Minha adorada Salete, trata de me ajudar, sabe tudo, é charmosa, inteligente...poderia incluir inúmeros adjetivos para descreve-la, mas demoraria muito.

Na Itália, em uma semana, falo italiano.
Arranho um espanhol bem arranhadinho.
Sei que "ratito" não é um rato pequeno, "embarasada" não é ficar sem graça e sim estar grávida, e assim por diante.
Qualquer hora me animo e vou realmente falar italiano, que resolvi gostar de uns tempos pra cá.

O problema é que a família toda se acha poliglota!
Meu marido que fala e entende inglês muito bem, adora dizer para os ingleses que aqui no Brasil eles vão ver várias mulheres nas praias de "dental floss" (começaram a usar hoje em dia para descrever biquíni fio dental, mas o pioneiro nesta estória foi Luiz Alves, pai do Júnior).
Gosta de dizer "shit in the fan" (merda no ventilador), "for someone who likes shit, this is a full plate" (para quem gosta de merda, isto é um prato cheio).
Obviamente americanos e ingleses se matam de rir! Ele tem charme para dizer estas coisas.
Sem contar que "entrar pelo cano" (gíria fora de moda, mas que já fez sucesso), em francês se torna "entrer par la tubulacion".

Minha filha mais nova em um restaurante lindo em Firenze, ao receber das mãos do garçom o prato principal, disse: "Gracia plena". O garçom simpático sorriu, disse "Prego!", e se retirou. Vai que a garota resolve dizer a Ave Maria inteira em latim, Ave Maria, Gracia plena, dominus tecum... deve ter pensado o rapaz!

No dia seguinte, outro restaurante super simpático, tinha um defeito. Ao contrário de toda a Europa que gosta de "slow food" e é totalmente contra o americano "fast food", este servia tudo muito rápido, antipasto, primeiro, segundo prato.
Eu, que sou apreciadora de um bom papo e um bom vinho, já estava irritada, sabia que a sobremesa viria em segundos.
Meu marido não teve a menor dúvida. Virou-se para o garçom e disse com a voz firme: "aspetta la desserta" (quase intraduzível; aspeta de esperar e desserta seria dessert, sobremesa em inglês).
O garçom sorriu e obedeceu, "aspetto il dolci"... entendeu o espírito do cliente.

Paris, Cidade Luz! Três horas da manhã.
Saímos de um desses shows, tipo Moulin Rouge ou Lido.
Luiz olha pra mim e diz: "Pergunta pra este taxista onde podemos comer um doce".
"Eu não vou perguntar isto para um francês, ele vai me bater e achar que somos loucos, não existem "pâtisseries" abertas às 3 horas da manhã na Europa, isto só em São Paulo".
"Perguntaaaaaaaaaa", disse o teimoso.
Respirei fundo e perguntei.
O taxista era muito simpático e bem humorado, disse que havia algumas lojas de conveniência, onde poderíamos comprar chocolates ou coisa assim.
Traduzi e o fofo disse que queria mesmo um doce.
Respirei mais duas vezes e perguntei ao homem sobre doces de fato, doceira.
"Mais madame, qu' est-ce que c'est? C'est une femme enceinte?
(Mas madame, o que acontece? Ele é uma mulher grávida?). Me acabei de rir.

Minha outra filha resolveu nos Estados Unidos, em um jantar formal, perguntar o que significava "éssol". Disse que ouvia em todos os filmes e a tradução era tão variada, como babaca ou idiota.
Deu um vácuo, ninguém disse palavra. Só um senhor se prontificou a responder aos poucos: "Você sabe o que é hole?". "Sei, é buraco". "Você sabe o que é ass?". "Acho que sim", ela respondeu vermelha e foi assim que descobriu que "asshole" pode ser cusão, bunda mole, seu bosta e ao pé da letra "buraco do cu".

Já minha irmã, a gorda (a esta altura os leitores estão íntimos, dão sugestões, escrevem coisas lindas nos "comments")... Então, chega de gordinha, benemérita, é gorda mesmo e pronto... fala bem espanhol. Reminiscências de um namoro com um argentino.
Resolvemos ver a exposição do Botero.
Animadas, chegamos ao MASP e uma balança na entrada tinha os seguintes dizeres afixados: Se você pesa mais que (sei lá quantos quilos) a entrada é franca.
Todos sabem que sou econômica. Empurrei-a para perto da balança e disse: "Vá pesar, tenho cerrrrrrrteza que você entra de graça". "Ni muerta, pendeja!" (Nem morta, pentelha).
"Ah vai... pesa vai... vamos economizar 10,00 reais". "Não peso nem por um cacete", foi a resposta.
Pensando que tínhamos jogado dinheiro no lixo, entramos e começamos a apreciar as lindas gordinhas do fantástico Botero.
Dois senhores portenhos, um deles com cara de Carlos Gardel, começam a nos olhar e a fazer comentários intelectuais sobre a obra do pintor.
Não pensei duas vezes, quando um deles olhou de novo, perguntei: "Gostou? Na verdade eu nem precisaria ter vindo ver a exposição", disse eu. "Trouxe comigo esta obra-prima de Botero e posso olhar para ela quantas vezes quiser (tampoco necesitó pagar)", morreram de rir.

Esta não foi a única que aprontei com nossa gordinha (resolvi voltar para o gordinha, é mais carinhoso).
Por qualquer motivo tivemos uma ocasião, que ir ao Bradesco.
Quem freqüenta deve ter idéia da multidão... era dia 1°.
Quando vi a fila (nêgo tomando lanche, ouvindo walk man, senhoras conversando, crianças chorando) tive uma crise nervosa.
Sem hesitar, disse: "Rô, vá para fila das grávidas"!
"Vai se ferrar!" (na verdade disse coisa pior).

Ano passado fui buscar minha filha que morou na Nova Zelândia. Marcamos uma visita com a família que a hospedou, meio de última hora devo confessar, o que me deixou um tanto desconfortável, contudo a família nos recebeu muito bem, foram ultra-simpáticos.

A primeira coisa que avisto foram dois chihuahuas (quem me conhece sabe a estima que tenho por cães).
Chihuahuas então... são lindos, meigos e simpáticos.
Eles estavam até que se comportando direitinho, coisa que Gillian, a senhora que hospedou minha filha, estranhou.
Eles costumam ser mais nervosos...
Apavorada com os dois ET's, tentei puxar assunto, falar do tempo, entreguei presentes, fui a própria embaixadora do Brasil.
O papo foi se animando e eu comentei: "Como a Nova Zelândia é linda".
Ela me respondeu:- "Oh, we take it for granted", que significa, estamos acostumados, não damos muita bola, expressão que não contém nenhum traço de esnobismo.
Flávia, a outra filha, resolveu mostrar seu inglês e achando que "granted" seria grande, sinônimo de "big", coloca:- "Oh no, New Zealand is not that granted, Brasil is bigger".
Ms. Gillian arregalou os olhos e deve ter pensado:- "Será que esta criatura come cocô?".
Neste exato momento Joey, o chihuahua macho, resolve literalmente transar com as pernas da referida senhora.
Ela num misto de satisfação e embaraço repetia: "Stop Joey, stop it".
Uma mulher que gosta de chihuahua, já acho completamente louca, deixa-lo transar com a própria perna... é insanidade mental!
E ninguém, ninguém mesmo, vai me convencer de que a senhora kiwi (apelido dos neozelandeses), não estava ADORANDO!



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