Domingo, Junho 29, 2003




VOYEUR SEM QUERER


Algumas profissões sempre me intrigaram.
Não é a de lixeiro, gari, estivador, não!


São outras...


Por exemplo: os que extraem o sal, nas salinas, sinto compaixão.
Acho que me emociono com Canção do Sal cantada tanto por Milton quanto por Elis, não somente pela beleza da música, mas também pela insalubridade da profissão.
Essas profissões sub-humanas fazem pena, mas não intrigam.


Não consigo entender aquele senhor sempre alinhado que vira páginas de partituras em concertos sinfônicos.
A criatura tem que conhecer música profundamente, ter boa aparência, atenção absoluta, ou o concertista pode se perder e nem aplausos recebe.
O espectador não lhe olha na cara, são sempre sisudos, talvez concentrados, quem sabe?
Será que ganham bem?
Como será o nome dessa profissão, "virador de partituras"?


É mesmo intrigante, lembrou-me uma crônica do Otto Lara Resende, que li.
Precisou o porteiro do edifício morrer, para que o executivo reconhecesse que nunca lhe dirigira um único olhar, em vinte anos...
Para ser notado o homem teve que morrer...


Médico legista, coveiro, são profissões bizarras,mas consigo entender. O virador de partituras, não consigo!


Outra profissão intrigante é a de cobrador de pedágios.
Um senhor francês, que foi cobrador de pedágios, por mais de vinte anos, conta histórias do "arco da velha"!
Conta pra quem quiser ouvir, que foi um voyeur, por vinte anos, sem querer.
Sim, porque por vinte segundos ele penetrava na intimidade dos veículos, sem que as pessoas tivessem consciência.


Ser um "receveur du péage", na França, deve ser pior que no Brasil.
Eles são nervosos, alterados e gritam, como gritam.
- Onde está o ticket pré-pago do pedágio? Perdeu, sua anta, imbecil!
-Vou embora, vá se f...!
Madame saía do carro, batendo a porta com toda a delicadeza, bem como os saltinhos, no meio da estrada.


Casais se estapeando, crianças gritando, lambuzando o carro de chocolate, cachorros urinando na viatura.
E a mãe prometendo o seguinte castigo se o garoto não calasse a boca:
- Fique quieto, ou vou te colocar dentro daquele cubículo, junto com o monsieur.
Como se monsieur fosse o bicho papão.
"Espero que o senhor não seja casado, assim não conhece o inferno", ouviu algumas vezes.
Um motorista em dez dizia bom dia e obrigado e a grande maioria, estressadíssima com o trânsito na volta de um feriado e com ódio do preço do imposto rodoviário, descontava no pobre caixa do pedágio.


Cansou de ouvir impropérios, palavrões, insultos.
Mas a pior coisa que lhe aconteceu, foi um alucinado que pagou, abaixou-se e atirou-lhe na cara um balde de água do mar, dizendo: - Sinta-se na praia, seu f.d.p.


Assistiu muita coisa: cenas tórridas de sexo, segundo ele, eram comuns.
Penso que presenciou senhoras com a "mão na massa", bem como sexo oral... digamos, moçoilas com a "boca na botija"!


Mulheres nessa profissão sofriam, devem sofrer até hoje, porque existem os exibicionistas que "teretetê", colocam a documentação completa pra fora e fazem cara do cantor Daniel em propaganda de cuecas.
Lançam olhares lânguidos, deixam cartão, e elas invariavelmente têm de chamar os seguranças.
Monsieur diz que aprendeu muito sobre a natureza humana, o comportamento coletivo.
Disse que os piores motoristas, os mais grosseiros, eram os que tinham os carros mais caros!
Em contrapartida os melhores condutores eram pessoas de férias, que perguntavam onde ficava tal cidade, tal estrada, indagavam o tempo, mas raramente lhe olhavam no rosto.


Como o virador de partituras, as pessoas olham e não vêem.


A melhor parte da narrativa do monsieur, foi quando disse:
- As pessoas de férias são as melhores, mas não são capazes de deixar uma gorjeta!
Não entendi... mas deve ser algo como o virador de partituras, que não recebe aplausos!


"Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por isso que se instala no coração o monstro da indiferença". Otto Lara Resende.


UPDATE:Antes de postar essas palavras, resolvi me informar com uma pessoa que entende um pouco de música.
Ela me explicou que os "viradores" de partitura são geralmente estudantes em conservatórios musicais.
Têm, então, alguma perspectiva: serão futuros músicos!
Fico aliviada... o ofício deixou de intrigar-me.
São como residentes em um hospital...
Agora só me intriga a história da gorjeta!



Sexta-feira, Junho 27, 2003




SENHORITA JÚLIA


Senhorita Júlia é uma peça de teatro escrita por August Strindberg, no final do século XIX, e é considerado um dos maiores textos da dramaturgia mundial.

Era sueco, nascido em Estocolmo, e sem dúvida nenhuma foi um revolucionário, viveu muito adiante do seu tempo.
Era jornalista, crítico social, interessado e entendido em física, química, ciências políticas, além de ser dramaturgo, pintor, homem de letras e escritos.
Suas pinturas estão expostas no Museu de Estocolmo e suas peças teatrais continuam a fazer sucesso no mundo inteiro.
Senhorita Júlia é uma peça que trata da luta dos sexos, somada à luta de classes.
É um drama denso, violento e frenético, como foram os anos da revolução industrial, que parecia querer devorar o homem.

Assisti à peça, há alguns anos, com a versatilíssima Andréa Beltrão.

Calma, calma!

Não vou biografar August Strindberg, nem tampouco Andréa Beltrão, embora ambos merecessem.

Vou falar de uma das pessoas mais divertidas que conheci na vida: Senhorita Júlia.

Um par de olhos azuis, língua afiada, não tinha a menor pretensão de ser engraçada, mas era.
Falava pelos cotovelos, sem ser maçante, conversava com todo mundo, era o sucesso da feira.
Parava em todas as barracas, perguntava da bursite do feirante, da mãe do outro, dos filhos, todos lhe davam descontos.

De um carisma incrível, totalmente desligada, tinha milhões de amigos!
Perdemos o contato, infelizmente.
Encontrei-a, há pouco tempo, numa exposição e Senhorita Júlia continua igual.
Tornou-se benemérita, trabalha na Apae, Lar Escola São Francisco e afins, continua muito divertida.

Júlia foi comprar um apartamento, isso lá pelos idos de 85.
Enquanto conversava com o corretor, arrancou-lhe o cigarro da mão e fumou-o todo.
O homem olhou pra ela como se tivesse comido cocô e estivesse esperando fazer a digestão.
Senhorita Júlia percebeu? Claro que não! Nunca foi ligada em detalhes superficiais. Fumou o cigarro do homem e pronto!

Em uma loja, virou-se para a vendedora e disse que o rosto da criatura estava sujo.
Generosa, abriu imediatamente a bolsa, tirou um lencinho, molhou na boca com um pouco de cuspe (cuspe de Júlia é chique e limpinho), tudo com muita rapidez, Senhorita Júlia não perde tempo.
E não deixava a moça falar...
Finalmente, com todo o jeito de quem viu um lobisomem, só pra não repetir o cocô, a pobre mocinha conseguiu explicar que tinha vitiligo ou lupus.
-Bobagem, meu bem! Isso sara logo, você vai ver!
Arrematou Júlia, que vai jurar até morrer que esse tipo de coisa não é fora, é o cotidiano de uma pessoa ocupada, que não tem tempo a perder com bobagens.

Dá conselhos, receitas, pensa que é médica, dentista; sem a menor cerimônia manda a pessoa, que está sofrendo de dor de dentes, abrir a boca e examina.
É a rainha dos chás, ungüentos e linimentos.
-Você está grávida?
-Não!
-Então engordou, isso não pode ficar assim, vou te ensinar um regime fantástico!

Essas são perguntas típicas dela e, se puder, Júlia leva a pessoa para um SPA, ao médico, dentista e faz esses comentários com tanta simpatia e tão distraidamente, que ninguém se sente ofendido.

Júlia andava infernizando a vida do marido, para consertar a pia da cozinha que estava com um vazamento.
- Afinal você é engenheiro, tem que saber fazer essas coisas.
Júlia morava no Rio, nessa época.
Deu o comando e foi pra praia, lugar onde conversava com todos e convidava artistas e músicos para ensaiar em seu apartamento, para loucura do marido.

Nesse dia tomou sol, mate, conversou com meio mundo, deu alguns foras e voltou.

Encontrou o marido de calção, debaixo da pia, fazendo o conserto.

Júlia não teve dúvidas, abaixou-se, pegou lá mesmo no instrumento do marido, deu um apertãozinho e disse:
- Oi gostosão!!! Você vai ver o que a Julinha vai fazer com você tão logo você conserte essa coisa! Vou te pegar...

Desta vez acho, porque não posso garantir, que Júlia ficou um nadinha sem jeito, pois saiu de baixo da pia o zelador "roxo" e disse:

- Bom dia Senhorita Júlia!



Quarta-feira, Junho 25, 2003




CLUBE DA ESQUINA


Depois de merecidos elogios aos cariocas e baianos, já é mais que tardia uma escrita sobre os mineiros.
Êta povo bom! Criativos, poéticos e engraçadíssimos.
Que mineiro come quieto é sabido, mas nunca encontrei tanta sabedoria num povo!
Uma ocasião disse a um amigo mineiro que adorava o sotaque deles.
- Pra que? Pra rir! Respondeu ele.
- Não, pra saborear! Disse eu. E é verdade, não tem coisa mais deliciosa que papo de mineiro!

Quem melhor representa esse povo, indiscutivelmente é o Clube da Esquina.
Garotos mineiros que nos anos setenta revolucionaram a Música Popular Brasileira.

A meu ver, esse movimento é mais importante que o Tropicalismo, com o devido respeito a Caetano, Gil e aos outros integrantes.
O Clube da Esquina teve menos projeção!

Milton Nascimento, recém chegado de Três Pontas, foi morar no Edifício Levy, em Belo Horizonte, onde viviam os irmãos Borges e, no sétimo andar, Wagner Tiso.

Os Borges eram doze ao todo, e o primeiro a fazer amizade com Milton foi o irmão mais velho, Marílton Borges.
Ensaiavam o dia todo num quarto abarrotado.
Milton, o Bituca, era e ainda é a pessoa mais tímida do mundo, falava pouco e, quando o fazia, gaguejava.

Uma vez, ensaiando no tal quarto, o pai de Marílton, Seu Salomão, entrou com um jeitão de poucos amigos e perguntou o que estavam fazendo. Conta-se que Milton ficou branco (será possível?)!
Seu Salomão fechou a porta, para voltar com pratos de "mexido mineiro".
Milton só fez dizer que foi o melhor "mexidinho" que comeu na vida.

Amigo de Marílton, fazer amizade com os dois irmãos mais novos, Lô e Márcio Borges, foi um passo.
Márcio tornou-se letrista das primeiras composições de Milton, enquanto Lô estudava harmonia com o guitarrista Toninho Horta.

Havia mais um menino, recém chegado de Montes Claros, Beto Guedes, e todos "furavam", de tanto ouvir, os discos dos Beatles.

Quando alguém perguntava a Dona Maricota onde estavam "os meninos" (Lô e Márcio), ela dizia:
- Ali na esquina, cantando e tocando violão.

Assim surgiu o embrião do Clube da Esquina, seguindo pelas noites, nas sessões do Cineclube SEC em BH.

A ditadura fervilhava, Milton compunha durante o dia e era crooner à noite.
Todos politizados e cultos, mesclavam suas canções entre a poesia e temas sociais.
Sempre aglutinados pelo tímido e ultra-sensível Milton.
"Miltons e seus tons geniais".

Há pouco tempo ouvi uma menina perguntar o que foi o Clube da Esquina.
Um BOÇAL de mais ou menos trinta e poucos anos respondeu que era um bando de "cachaceiros" mineiros, que ficavam jogando conversa fora, num bar de esquina em Belo Horizonte.

O bando de cachaceiros bobinhos, era: Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges, Flávio Venturini, Nelson Ângelo, Ronaldo Bastos, Wagner Tiso, Tavito, Fernando Brand, Eumir Deodato, Toninho Horta e é claro que não vou irritar o leitor citando mais e mais nomes.

Nomes não, pérolas da Música Popular Brasileira.

Compuseram e compõem músicas de dar orgulho de ser brasileiro a qualquer ser humano.
Gravaram o primeiro Clube da Esquina, um presente ao país, uma alquimia criada por este grupo de mineiros.

O disco amalgama Beatles, Bossa Nova, Jazz, Toadas, Folia de Rei e Rock Progressivo.
Tudo reunido numa música linda e original, sem contar a força poética.

Milton compunha como um anjo e cantava como um Deus, e ainda canta!
Elis gravou, Tom Jobim gravou, muitos gravaram Milton...
Bem como os outros componentes do Clube.

Absolutamente todos são reconhecidos internacionalmente.

Disse eu, a um amigo mineiro numa conversa, que adorava os compositores mineiros!
No dia seguinte recebi, via Sedex, o livro de Márcio Borges.

Um pacote maravilhoso com um cartão lindíssimo, letra impecável e palavras poéticas.
Bobinho meu amigo?
Não, chiquérrimo!

O livro é a biografia do Clube da Esquina, que Márcio Borges escreve com romantismo, poesia, inteligência e amor.
Está na quarta edição e um CD acompanha o impecável "Os sonhos não envelhecem".
Prefaciado por Caetano Veloso, a figura central é Milton e Caetano diz: - "Milton sempre foi obviamente para mim, um músico muito maior que eu".

E olha que Narciso acha feio o que não é espelho!

Márcio conta em seu livro que Maria Célia Brant foi a mulher mais linda que já pisou neste planeta, segundo a apreciação entusiástica de Bituca.
Célia entrou um dia na sala e pediu: - Toca aquela.
E voltou com um violão novinho e deu na mão de Bituca.

Ela se referia à música que Milton fizera com Fernando, seu irmão:
"Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver"...
Quando Bituca terminou, ela pediu: - Assina aí no violão!
- Mais é novinho, vai estragar!
- Vai estragar nada. Vocês vão ganhar este festival e ficar famosos. Quero ser a primeira a ter seu autógrafo no violão.
Bituca, muito sem graça, assinou...

O Clube da Esquina partiu para carreira solo.
Todos são destacados, todos são maravilhosos.

Milton, o aglutinador, reuniu a turma novamente e gravou o Clube da Esquina 2.
Grande sucesso!

Algumas "bobagens" foram escritas e gravadas como Travessia, Canção do Sal, Casa no Campo, Feira Moderna, O Trem Azul, Nascente, Rua Ramalhete, Nada Será como Antes, Cais, Pão e Água, Lumiar, Sol de Primavera, Meu Menino, Cravo e Canela, Maria Maria e tantas, tantas outras...

Não é de se admirar que Bituca tenha concorrido cinco vezes ao Grammy, para receber merecidamente, em 1995.
Aliás, merecia os outros quatro!

Tenho uma amiga mineira que às vezes liga e diz:
- "Ah, boba, vem pra cá ficá um poquin conosssco. Eu faço aquele feijãozin qu'ocê gosta! Feito ni fogão de lenha, bobin"!
Adoro o sotaque e o jeito simples dela falar, adoro o feijão que ela faz, adoro as músicas que vêm da terra dela, adoro as Minas Gerais!

E para os mais novos, é bom que se saiba que as Minas continuam a nos alimentar a alma.

Bandas de Rock apareceram, como o Sepultura, que é a mais conhecida no exterior, Skank, Pato Fu, Jota Quest...

Tudo "bobim"!

E tem o mais "bobin" de todos, nascido em Itabira, foi para Belo Horizonte aos 18 anos, não se considerava poeta e detestava dar entrevistas.

- Então, minha filha, já não dou entrevistas suficientes? Em minhas crônicas, contos, "causos" e poesias?

Traduzido em diversas línguas, esteve exposto no metrô de Paris com "O Mundo é Grande".

"O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade)

"O problema não é inventar. É ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente" (Drummond outra vez, porque Drummond se redunda!)



Domingo, Junho 22, 2003




CORPUS CHRISTI


Feriadão prolongado...
O nome já me arrepia.
Significa que todos os lugares ficarão lotados, especialmente as estradas e São Paulo fica tão simpaticamente vazia...


Fomos para o sítio, lugar que eu adoro, mas já imaginava o trânsito.
Minha filha mais nova resolveu ir com as amigas e já avisou:
- Papai, nós queremos "vol au vent", prato que ele faz divinamente!
- Claro, respondeu ele para agradar a filhinha!


O sítio é aquele que vive em reformas.
Não entendo o amor, a admiração, o furor, a loucura que ele, meu marido, tem por pedreiros.
Depois de analisar um pouco, percebi que a culpa é toda minha.
Dou as idéias, sem perceber!


Atualmente, depois do ofurô e da sauna construídas, a entrada foi feita.
Claro, eu falei: - Não entendo uma casa assim bonita, com ofurô e sauna ter uma entrada dessas!
A entrada, na minha opinião, estava feia, o asfalto meio judiado.
Então, ela foi refeita.
Agora com pedras e grama preta entremeando o caminho.
Na dúvida, se existia grama preta por lá... uma ida básica ao Ceasa!


Na infância, tinha dois pavores de crescer: um, era ficar mais velha e ser chamada de Dona Mônica, achava horrível.
Outro, era pavor de ser Miss e ganhar o concurso de Miss Brasil ou Miss Universo.
Tinha medo de que me perguntassem o prato favorito e a resposta seria feijão.
Imaginem, todas as Misses dizem ou diziam: livro de cabeceira - Pequeno Príncipe.
Prato favorito - Strogonoff.
E eu diria feijão, que vexame!
Felizmente não cresci muito e não tive que passar pela pergunta "prato favorito".


Como comida francesa todo fim de semana, às vezes peço feijão.


Outro dia falei que feito no fogão a lenha é melhor ainda.


Plin!
Outra idéia, a entrada estava sendo finalizada e um enorme fogão a lenha sendo construído na cozinha.
A cozinha foi "desconfigurada", mas tudo bem, cozinhar é o grande prazer de meu marido...


Viemos então com o carro lotado de grama preta, três mocinhas e suas respectivas malas, meu marido, compras de supermercado e eu.


Obviamente, as malas não couberam e foi um arranja daqui e dali, até concluirmos que uma mala iria nos meus pés e outra maleta no meu colo.
Conclusão: fui em posição de lótus de São Paulo ao Sul de Minas.


Como não sei meditar e minha coluna não ajuda, fui bufando.


O interessante é que, em horas assim, nunca pensamos que as coisas podem piorar... e muito!


Ao chegarmos, notei que minha cama estava ainda por se feita. Estranhei...


Caipira é muito engraçado!
A caseira conversou, disse que a poeira do fogão estava um caso sério, que ela já havia tirado o pó várias vezes.


Comentamos o tempo, reclamei da viagem e pedi para ela chamar o marido para descarregar o carro abarrotado.
- Ele não está, ela falou.
E diante do meu olhar pasmo emendou: - Aconteceu uma desgraça!


Meu coração gelou.


Entre soluços entrecortados, contou que uma grade de ferro forjado havia caído na perna do filho de seis anos.
O pai havia corrido, desesperado e molhado, pois estava lavando a garagem, com o garoto no colo.
Ele e o vizinho levaram o moleque para o hospital da cidade mais próxima.


Telefonamos para lá, o menino estava bem.
Havia quebrado o fêmur.


Começamos a arquitetar alguns arranjos, pois dois casais chegariam no dia seguinte.


Caipira é mesmo engaçado!
A caseira tem três filhos: Jefferson, Emerson e uma garotinha de um mês que atenderá futuramente pelo nome de Francielle Thaís.
Na época da gravidez fiz, com o maior jeito, tentativas infrutíferas para que a pobrezinha tivesse um nome normal.
Sugeri Júlia, Luísa, até Taís.
Talvez para unir o útil ao agradável, colocou Francielle (que é uma beleza) e Thaís (só para me agradar).


Minha caseira é muito chique, tem uma babá que trabalha "incógnita", até as cinco horas.
O marido machão não pode saber que a mocinha trabalha fora.


Já era quase hora da tal babá virar "abóbora" e pensamos juntas que teríamos que pedir à mãe de Suely (a caseira) para ficar com Francielle por uma hora, arrumar-se e ir ficar com o neto no hospital, para que o caseiro pudesse voltar, tomar um banho e descansar.


E ainda pedir à cunhada para que não somente viesse sábado e domingo, como também na sexta, para ajudar.
Depois do almoço, meu marido levaria Suely para ver o filho, a mãe para passar a noite com o garoto no hospital e traria todos de volta, exceto Dona Mil e Um.


Tudo teria de ser feito com muito tato.
A senhora mãe da caseira é uma "obesinha", mil e um, usa roupinhas "laycradas" e é casada em segundas núpcias com o pai do caseiro.
Ou seja, meus caseiros são filhos, genro, nora e enteados do casal.


Parece-me que, no casamento dos filhos, os velhos se apaixonaram e casaram-se também!
A referida senhora mãe, a Mil e Um, é despudoradamente sorridente e é do tipo que tem escrito na testa: - Estou na ativa!


Com muito tato conversei com Suely para que fizesse o pedido com jeito.
Mil e Um não é aquele tipo de avó à moda antiga e vai que estivesse programando um jantar com carne de panela e um garrafão de vinho Cardeal, para agradar o marido!
Afinal era feriado.
O maridão é o cowboy do asfalto.
Usa chapéu, botas de salto carrapeta e esporas.
Um resvalo de pensamento me veio à mente: "Será que o cowboy transa de chapéu, botas e espora?"


Levei Suely de carro até a casa da mãe, do outro lado da cidade, avistei uma "piramba" e Suely avisou: - Carro não sobe aqui, a senhora espera um pouquinho que vou a pé.


Um pouquinho de caipira é ótimo...
Lá foi ela com a criancinha nos braços, eu esperei morta de pena!
Mil e Um não fez objeção alguma, graças a Deus!


Fomos então até a casa da cunhada.
O favelão era agora do outro lado da cidade, perto da igreja!
Isso significou que... carros não passavam.


A cidade estava interditada, acarpetada, ricamente guarnecida com desenhos da Via Crucis, hóstias, patenas, Nossa Senhora, Jesus Cristo.
Tudo cheirando a gato morto (é assim que cheira serragem tingida, pó de café, feijão e sabe Deus o que mais).


Novamente, a criatura foi a pé, dizendo: - É já que eu volto!


Esperei uma eternidade e, pelo retrovisor, tentava avistar uma saia comprida.
Sendo ela evangélica, só usa saias.
E nada do "saião" aparecer...


Tudo ficou resolvido, o garoto está bem, divertindo-se com guloseimas, revistinhas, livros que meu marido levou.
Mil e Um deve estar enfadada, ou já deve ter feito amizade com meio hospital.


"Gordinha", minha mana, não veio passar o Corpus Christi comigo!


Aliás, avisou que aqui não vem mais, a não ser para ficar no quarto de casal!
Perguntei por que.


Ela respondeu:
-Você tem seu quarto maravilhoso e uma suíte presidencial, onde põe sempre um casal VIP. O resto fica em um dos quartos de DESPEJO!


Comecei a rir e ela continuou:
-As camas não comportam um ser humano NORMAL!
(Ela se considera tamanho padrão, normal mesmo).


Eu ria.
-Os colchões são de INDIGENTE, horríveis, fico péssima da coluna!
Eu, que entendo do assunto, não acho, mas agora já estava me acabando de rir!


Eu ria e ela crescia.
-Há quantos anos você não faz uma troca geral de lençóis? Sim, porque os que você tem lá FEREM O CORPO, que diabo de amaciante você usa?


Eu já estava com dor de estômago de rir.
-No banheiro tem que se entrar no box de LADO!


Ela continuava se achando padrão.
-Os travesseiros são de PRESIDIÁRIO!


- O que? Lágrimas desciam pelo meu rosto!


E para o "Gran Finale", ela descreveu as toalhas de banho!
- E as toalhas!?! Muito pequenas! Mal dá para secar a BUCY!
Apelido carinhoso que ela usa para referir-se... a... a isso mesmo que vocês estão pensando!
Não sei se adaptou do inglês, Pussy, ou se é diminutivo.


De qualquer forma deve ser com Y, lugarzinho tão delicado!


Contei tudo para o Doutor, ele morreu de rir!


Acordei na manhã seguinte com uma conversa perto do meu quarto.


Era nada menos que o Doutor, com um Jeca Tatu de olhar meio parvo, a medir o quarto a passadas, como ele sempre faz.
O Jeca, com caderninho e trena, tomava nota.


Conclusão: os dois quartos e dois banheiros serão derrubados para uma reforma, serão aumentados!
Culpa de quem?
Minha!
Eu tinha que contar a descrição da gorda!


Ah, mas ela me paga.
Vou agüentar a "pedreirada" aqui dentro de novo.
Vou comprar lençóis finíssimos, nem que tenha que mandar vir do estrangeiro (como diz o caipira).
E as toalhas serão master size, felpudas!


Só que as da gorducha serão rosinhas, lilasinhas e vou mandar aplicar um debrum de velcro.
Assim quando ela for secar a delicadíssima Bucy, fará uma depilação DEFINITIVA!
-Que assim seja!
-Corpus Christi!
-Amém!



Terça-feira, Junho 17, 2003




TIAZINHA



São Paulo e, por que não dizer o Brasil, têm uma dívida de gratidão imensa com uma figura importantíssima, chamada Yolanda Penteado.
Ela foi, sem dúvida nenhuma, uma grande personalidade.


Amante das artes, Yolanda ajudou a transformar São Paulo, a capital provinciana do início dos anos 30, em um dos centros culturais mais importantes do mundo.
Sim, porque até então o Rio, capital da República na época, era o palco das artes.
Tudo acontecia na "corte", ou melhor, na capital.


Eis que surgiu, no cenário paulistano, Yolanda Penteado.
Mulher linda, charmosa, dona de um sorriso irresistível e muito carisma!


Filha de fazendeiros, herdou a fazenda Empyreo que foi berço de acontecimentos incríveis na sociedade paulistana, além de ser um verdadeiro paraíso.


Tia Yolanda foi casada com Jayme Silva Telles, não por muito tempo.
Teve um romance com um "marchand" francês, o que talvez tenha aumentado seu amor pela arte, e finalmente casou-se com Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo, como era conhecido.
Fizeram, assim, o par perfeito.
Ambos apaixonados por São Paulo e por todas as manifestações artísticas.


Yolanda ganhava, como "lembrancinha" de Ciccillo, "O Cavalo" de Marino Marini, escultura adquirida por ele pouco antes de receber o prêmio na Bienal de Veneza em 1948.
De aniversário ganhava "O Auto-retrato" de Modigliani.


E a casa do casal respirava arte, eles respiravam!


Resolveram, em 1948, criar o Museu de Arte de São Paulo, o MAM, para que todos pudessem respirar arte.
Criaram o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), a Escola de Arte Dramática, A Vera Cruz Produções Cinematográficas e o Museu de Arte Contemporânea (MAC) na USP em 1963.


É interessante entrarmos hoje no Museu, que passou por algumas reformas e está lindo, e lermos todo o tempo: "Doação de Ciccilo Matarazzo e Yolanda Penteado".


Entre todas as iniciativas, a principal contribuição à cultura do País foi, indiscutivelmente, a criação da Bienal de Arte.
E foi aí que entrou a encantadora Yolanda Penteado.


O Brasil, depois da Semana de Arte Moderna, era cubista, modernista, futurista.
As esculturas recusavam-se a permanecer estáticas, pareciam querer sair do lugar, voar.
E a Bienal foi criada!


Tínhamos pintores, escultores magníficos como, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Volpi, Di Calvacanti, Flávio de Carvalho.


Mas havia um detalhe: a mostra precisava de artista europeus...
Que artista viria ou mandaria obras de arte de suma importância para um lugar como o Brasil, desconhecido política e artisticamente do mundo, em 1951?


Yolanda partiu para a Europa, onde convidou pessoalmente os artistas.
Encantadora, culta, muitíssimo bem relacionada, refinadísssima, chiquérrima, Yolanda conquistou a Europa e graças a ela a Primeira Bienal foi um enorme sucesso.


Tanto assim, que para a segunda O MAM tornou-se pequeno e o "mestre de obras" Oscar Niemayer e o "jardineiro" Burle Marx (ouvi alguém chamar Burle Marx de jardineiro e adotei), a pedido do casal, projetaram no Parque do Ibirapuera os edifícios e os jardins da Bienal.


A segunda Bienal recebeu "Guernica" de Picasso, obras de Paul Klee, Mondrian, Brancusi, Edvard Munch e muitos outros.


E vem sendo um sucesso desde então.


Todos os eventos e instituições culturais paulistanos tiveram a mão ou a marca de Yolanda e Ciccilo.


Yolanda encantou Santos Dummont, correspondia-se freqüentemente com Picasso, escreveu um livro chamado "Tudo em Cor de Rosa", que foi prefaciado por nada mais nada menos que Sérgio Buarque de Hollanda, foi retratada por Di Cavalcanti...


Interessante essa tia?


Lembrei-me de que ela morria de medo do comunismo.
Resolveu então, na frente da Fazenda Empyreo, abrir o Rancho Empyrio e uma padaria.
Caso o comunismo se infiltrasse no Brasil, ela teria uma profissão, seria padeira!!
"Contratou um padeiro português, apaixonou-se por ele, deixou o bigode crescer, ficou a cara do pai e foi morar em Trás dos Montes, levando toda a discografia do Roberto Leal!"


Mentira!!!


Montou mesmo a padaria e o Rancho.
Morreu aos 80 anos, por volta de 1983.
Em homenagem a ela a revista Vogue dedicou uma edição inteira.


Minha querida amiga Fifa,
eu tive minha tia Fifa, sua xará, e você teve a tia Yolanda.


Não tenho nada contra a mocinha mascarada, que é até bonitinha!
Mas convenhamos... cada um tem a "tiazinha" que merece!


UPDATE: Em Janeiro ou Fevereiro do ano que vem, não estou bem certa, haverá uma mini-série escrita pela Maria Adelaide Amaral, em comemoração ao aniversário de São Paulo, cujo personagem central será o da Yolanda Penteado.



Sexta-feira, Junho 13, 2003




QUEM MATOU DANA DE TEFFÉ?



Poucos se lembram desse nome, que para mim sempre teve um grande fascínio, como se fosse um espectro em minha vida.
Eu era muito, muito pequena e ouvia falar de Leopoldo Heitor, "O Advogado do Diabo" e de Dana de Teffé.
Leopoldo foi advogado da família de Dana, seu amante segundo alguns, e seu assassino segundo a maioria.


Sem dúvida, este foi o caso policial mais misterioso de todos os tempos!
Na minha imaginação infantil, ela era um mito, divina e elegantíssima, a começar pelo nome, Dana.


Freqüentava a alta sociedade do Rio na década de 60 e foi casada umas quatro vezes.
Era tcheca, traiu parentes e amigos durante o nazismo, ganhou muito dinheiro, dançou no balé de Monte Carlo, casou-se com um conde, depois com um diplomata brasileiro, neto do Barão de Teffé, enviuvou e veio para o Brasil, cheia de dinheiro e jóias.
Talvez seu maior erro tenha sido envolver-se com o advogado da família, "O Advogado do Diabo".


Meu interesse na época era enorme.
Talvez os mais jovens, tenham tido este mesmo interesse, um dia, por Ângela Diniz e Doca Street. E os mais jovens ainda, por Daniela Perez e Guilherme de Pádua.
Não, não acredito. Notícias hoje são efêmeras, passam rapidamente, são inúmeras e mais violentas.


Esse meu fantasma, "Quem matou Dana de Teffé", possuía um ingrediente especial: o mistério!


O corpo de Dana nunca foi encontrado e Leopoldo Heitor foi acusado de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, falsificação de documentos e apropriação indébita dos bens que a ela pertenceram.
Ficou preso alguns dias, mas nunca se chegou a conclusão alguma.
O processo durou onze anos.
Leopoldo repetiu a história de que viajava com Dana de carro e foi parado por bandidos que levaram seus pertences e a glamurosa companheira.
Sem a existência do corpo, a justiça não admite o crime de morte.
O advogado livrou-se das acusações, permanecendo em liberdade até sua morte.


A revista "O Cruzeiro", incansável, publicava que haviam encontrado a ossada de Dana, uma écharpe, um sapato.
Cada vez mais sensacionalista. O público leitor ficava alucinado.
Vagamente me recordo do fotógrafo francês Jean Manzon e do famoso jornalista David Nasser.
Ambos de caráter muito duvidoso, publicavam qualquer coisa, desde que vendesse.
Se a história não fosse boa, David inventava, criava, viajava, desde que o lucro fosse líquido e certo.
E a revista vendia, vendia duas vezes mais que Paris Match, por exemplo.


Tudo é meio turvo em minha mente, mas adorava a dúbia revista.


Lembro-me de Pedro Bloch, do "Amigo da Onça" e de Dana de Teffé.
Comentários eram feitos em casa, meio à surdina, discretamente e aquilo aguçava mais minha curiosidade e meu fascínio.


Meu avô paterno fora amigo e conselheiro de Leopoldo.
Anos se passaram...
Em seu leito de morte, vovô chamou-me para elucidar toda a história. Tinha ciência do fantasma que vivia a me perseguir:
Dana desapareceu em 1961, o assalto ao trem pagador aconteceu em 1963.
Ronald Biggs e Dana de Teffé conheceram-se na Inglaterra, onde mantiveram um tórrido romance em segredo.
Meu fantasma estava vivo todo este tempo?!?!
Muito inteligente, Dana, meu ídolo infantil, não somente fora a mentora do assalto, como também simulou o próprio seqüestro.
Apaixonada por Ronald Biggs, Dana arquitetou tudo, com requinte e riqueza de detalhes.
Desde o assalto, até a fuga de Ronald da prisão Wandsworth, na Inglaterra, em 8 de julho de 1965, deixando a Scotland Yard totalmente perplexa.
O Detetive Superintendente Malcolm Fewrell declarou, na época, que a fuga de Biggs fora arquitetada com precisão matemática.


Durante os 15 meses em que Ronald ficou preso, Dana duplicou a fortuna, fruto do assalto ao trem inglês.
De volta ao Brasil, viveram o secreto romance.
Vivem hoje, com o filho, em um paraíso fiscal.
Com muito dinheiro, não foi nada difícil contratar recentemente quem se fizesse passar por Ronald Biggs, indo de volta à Inglaterra em uma cadeira de rodas.
O farsante, já um tanto moribundo, deixou a família bem de vida.


Leopoldo Heitor morreu velho no Rio de Janeiro, deixando dez filhos e oito netos.


Ronald e Dana mudaram de nome e vivem felizes na ilha, riquíssimos.


Eu virei David Nasser e minha pobre irmã, que se ocupa de ilustrar esta insensatez, é Jean Manzon.



Quarta-feira, Junho 11, 2003




AO MEU AMOR


O dia amanheceu radiante, ensolarado,
dando o colorido à paisagem que faz delírio dos pintores,
dos leigos, dos sensíveis, artistas, amadores.
Os tons, o matiz, sombreados...

O dia estava lindo,
como é lindo o meu amor!
Inconstante mudou, repentino fechou, esfriou, garoou.
Como é o meu amor!

Mudanças deviam ser anunciadas,
de tempo, de humor, de amor,
para nos prevenir, um guarda-chuva, uma capa.
Um lenço para secar as lágrimas.

Ou são as mudanças que dão colorido às nossas vidas?
Dias ensolarados o ano todo,
chuva todos os dias,
frio cortante por meses.
Dor no coração tantas vezes!

Se não existisse a dor
onde estaria o prazer?
Água quando se está sedento,
alimento quando se está faminto,
beijo quando se está amando,
e tanta vontade de ser...

O meu amor é mutante,
é fugaz, é profundo, é volátil...
E é assim que o amo e é assim que o quero,
como o sol incandescente,
como a lua inconstante,
como o tempo mutável.
O amor que existe em mim é eterno!



Terça-feira, Junho 10, 2003




FRANCISCO F.


Francisco entra na sala branco, translúcido e resmungando...
- Ai, essa bola de fogo! Ai que dor de cabeça!
O que é que eu estou fazendo aqui?
- Você dormiu aqui, o Lu te pegou no final da festa, te enfiou no carro e te trouxe pra cá!
-Por que?
-Você bebeu um pouco, só isso! O que é a bola de fogo?
-Este sol insuportável, minha cabeça doendo, esses mosquitos que vêm com verão...Pelo amor de Deus, o que estou fazendo aqui?


-Você se excedeu um pouquinho ontem, nada demais, na verdade você estava ótimo! Como sempre morri de rir! Você heim? Com esse seu jeito tímido de David Niven, vai longe! Dei muita risada.
-O que foi que eu falei?
-Ora, não vem com essa de amnésia. Eu posso beber o que for, nunca me aconteceu de apagar tudo.
-Juro que não lembro, o que foi que eu disse?
-Nada demais, fora cantar as mulheres casadas, nada mesmo. Isso você sempre faz!
-Eu?
-Você! Mas todo mundo sabe que é brincadeira! Você foi a primeira pessoa que eu conheço que falou que mulher com celulite é lindo, feminino... Francisco, você é pioneiro, agora tem um monte de gente dizendo que celulite é o máximo. Depois meteu o pau na Gisele Bündchen, claro que as gordinhas amaram! Você estava demais!
-Pára! Diga o que foi mais que eu falei?
-Nada, você estava alegre, divertido! O garçom do buffet irritou-se um pouco, você fez discurso, bateu o garfo no copo de cristal e quebrou, derrubou vinho na mesa...
-Que cristal, que discurso?
-Falou da mulher ideal, a que quer assinar a Playboy para o marido, a que mostra a vizinha só de calcinha, a que manda o marido ir encontrar os amigos e beber um pouco... Falou também das bundas de quase todas.


-Eu falei isto? Eu falei isto?
-Falou!
-Eu vou me matar, eu preciso de um psiquiatra! Nunca mais bebo na vida!
-Ia te oferecer uma cerveja, pra rebater. Na homeopatia é comum, o veneno contra o veneno.
-Pelo amor de Deus, nunca mais bebo!
-O problema é que você tomou vodka. Todo mundo estava no vinho.
-Ai minha cabeça, minha coluna está latejando!
-Vai ver que foi o tombo na porta!
-Que tombo?
-Ah, esqueça.
-Não dá, estou com a bunda roxa, ressaca, vergonha. Diga, o que mais eu fiz.
-Você encarou a mulher do Nelinho, melhor, os peitos novos dela de silicone, eles foram embora.
-O Nelinho ficou puto? Ai, Senhor!
-Não, foram porque você virou o copo de vodka nela sem querer, toda molhada, tiveram que ir...
-Não quero ouvir mais nada, chega!
-Pare de perguntar, você estava ótimo, divertido e eu ri muito!
-Fiz mais alguma atrocidade?
-Não, eu não entendi por que você se apresentava de Francisco Flato, às suas ordens. De onde tirou isso?
-Eu disse isso? Como?
-Sei lá. Você distribuía cartões. Como seu nome é Francisco Figueiroa de Melo e o F. do cartão é mudo... Então segundo você era F. Flato às suas ordens!
-De onde tirei isto? Ah! Estava com gastrite e andei soltando uns puns, as crianças ouviram e começaram a me chamar de tio Flato, mas faz tempo. Achei que tinha esquecido!
-Não se aborreça, acho que poucos sabem que flato é flatulência, pum. Passou como sobrenome mesmo!
-Que vexame! F. Flato, quantos cartões eu distribuí?
-Não sei, mas depois de te encontrar aos beijos com a copeira do buffet e de te ver dando o cartão pra ela e pedindo a moça em casamento, nós resolvemos trazer você pra cá.
-Não acredito! EU NÃO ACREDITO!
-Fique tranqüilo, já liguei na sua casa e a empregada disse que uma tal Shirley ligou três vezes.Você fica aqui, não atende o telefone uns dias ou troca o número. Só não faça pum, que eu odeio, Francisco Flato!
- Ai, me dá uma aspirina e uma cerveja!



Domingo, Junho 08, 2003




DESEJO, NECESSIDADE, VONTADE...


Não se pode dizer "desta água não beberei!"
Não gosto de falar nesse assunto sobre o qual vou agora discorrer, quanto mais escrever...Nem sei se publico, ou se chego até o fim.
O fato é que não existe nada que me incomode mais do que falar ou ouvir sobre a preferência Nacional Brasileira, que além da cerveja, é comentar sobre os intestinos.
Como o inglês, que por pura falta de assunto e por fazer parte de sua cultura comenta o tempo, o povo brasileiro fala sobre "ir ao banheiro".
É compreensível: o inglês, por puro pavor de ter a vida invadida, é incapaz de imiscuir-se na vida alheia; assim falam do tempo e ninguém se compromete.Concordo que é meio enjoadinho, mas é melhor que falar de cocô.


No Brasil a coisa começa cedo.
Para o pediatra: "O cocô do bebê está mole, está duro..."
"Hoje fez três vezes" e assim por diante.
Na pracinha o assunto entre as mamães também é o mesmo.
As pessoas crescem e continuam conversando sobre os intestinos.
Por que tanta atração?
"Ai, hoje não fui ao banheiro, vou tomar um laxante!"


Geralmente as mulheres queixam-se de prisão de ventre.
Ficam enfezadas, palavra que deriva de fezes.
Pessoas enfezadas são as que não vão ao banheiro com freqüência e têm mau humor.
Aí entra o delírio por Tamarine, Lacto-Purga, Complexo 46 e muitos outros.


É bem verdade que quase todo mundo tem uma estória engraçada sobre uma dor de barriga repentina.


Mario Prata conta uma boa, dentro do carro, se não me engano com Danuza Leão, viajando para o Rio de Janeiro.
De repente sentiu uma agulhada, começou a suar frio e a procurar um posto de gasolina, lanchonete, pedágio, qualquer coisa servia.
Não encontrou nada e a necessidade básica foi feita no carro mesmo.
Um vexame completo!


Uma tia minha, bonita e elegante, teve uma dessas em uma visita à mãe no cemitério.
Não teve pra onde correr e fez dentro de uma cova.
O pobre do defunto foi enterrado em cima da merda.


Uma amiga muito chique teve uma dor lancinante, mas parou em um posto, fez o que devia e quando foi puxar a descarga derrubou as chaves do carro dentro do vaso sanitário.
Que remédio? Enfiou a mão, tirou as chaves...
O legal da estória foi que o banheiro de beira de estrada estava sem água.


Ela não podia lavar as mãos, mal "se virou" com lencinhos e o piloto ficou lá mesmo, como um presente, para o próximo visitante.


Um grande amigo meu passou por esse aperto perto da minha antiga casa.
Foi direto pra lá, era só tocar a campainha, tinha intimidade, e correr para o banheiro.
Só que a casa estava fechada, em obras. Era hora do almoço, infelizmente os pedreiros tinham saido.
Meu amigo pulou o muro, viu uma lata de Látex branco aberta e descarregou ali mesmo.
Bacana foi minha mãe chegar e ver um pedaço da frente da casa pintado de marrom.
O pintor achou que minha mãe havia mandado misturar a tinta.
Logo ela que queria a casa "blanc cassé" (branco quebrado, ou melhor, branco sujo, meio palha.)
O branco ficou sujo mesmo e tudo teve de ser lavado, lixado e repintado.


Freqüento SPAs anualmente e gosto muito.
Relaxo, faço muita ginástica, como 600 calorias por dia, perco três quilos e volto me sentindo saudável e de bem com a vida.
A única inconveniência de SPA é agüentar nove entre dez pessoas trocando receitas de comidas e intermináveis comentários sobre os intestinos.
Filas se formam para reclamações e pedidos de laxantes na enfermaria.
Resolvi uma vez assistir a uma palestra no SPA.
O médico entre outras coisas mencionou que todo ser humano deve evacuar diariamente cem gramas.
Virou-se um gordo e comentou: "Duro vai ser pesar!"


Vim escrevendo tudo isso por indignação.
Rita Lee, no"Saia Justa", falou sobre escatologia e Fernanda Young ensinou aos espectadores como fazer a assepsia após uma ida ao sanitário.
Disseram-me que foi horrível, indecente.
Decidi assistir à reprise, pois não costumo dar muito crédito a opiniões alheias, não por não confiar em terceiros, mas por achar que cada pessoa vê e ouve a mesma coisa de forma diferente.


(É interessante notar que Gauguin e Van Gogh, quando moraram juntos na Provence, iam aos mesmos locais, com seus tripés, telas, paletas e tintas e pintavam as mesmas paisagens de forma completamente diversa. Ambos maravilhosos!)


Gostei de ver Ms. Lee brincando como criança, falando muita bobagem sobre meleca e derivados, pois tem se portado de forma "blasé", como se nada a interessasse e fizesse o favor de estar ali presente.
Fernanda Young, "intelectualóide", chega a ser por vezes bastante chata e faz comentários extremamente infelizes.
Por outro lado, expõe-se, é corajosa e escreve "Os Normais".
Não posso deixar de dizer que o trabalho é bom.

Sinto-me um pouco mais à vontade para falar no assunto "intestinal", pois faz parte de questionários para a admissão, em firmas importantíssimas nos Estados Unidos, a freqüência com que o candidato freqüenta toaletes.
Talvez tenha conexão com o humor da pessoa!?

E, para minha completa perplexidade, a pergunta "se a pessoa costuma olhar para o que acabou de fazer antes de mandar embora", em outras palavras, puxar a descarga, faz parte do questionário para ingresso ao ITAMARATI!

Será que é educado, formal e elegante nos despedirmos?

UPDATE:

Mário Prata "Minhas Mulheres e Meus homens" pág.65
Danuza Leão (Califórnia 1994)


No telefone:
- Mário?
Ela queria saber se eu ia na festa da Brahma lá em Los Gatos. Eu não ia, devo confessar. Meu estômago e meu intestino não estavam conversando um com o outro. Tinha tomado um remédio. Mas a Danuza! Sempre quis conhecer a Danuza. Ela queria uma carona.....
Samuel Wainer gostava de biografar a ex-mulher...
...Entramos na estrada, eu cheio de dedos fazendo esforço para dizer bobagens inteligentes, acender o cigarro dela e outros maneirismos. E eis que a barriga dá uma pontada forte.O remédio bateu, pensei.Mas eu seguro....
...A pontada agora foi maior....Mas como é que vou dizer para aquela mulher elegantérrima, que preciso fazer cocô? Penso que deve ter um capítulo no livro dela onde se trata disso: da indelicadeza de um homem avisar a uma mulher, a 100 milhas por hora, que precisa fazer cocô.
O meu intestino parecia que saía da barriga e enforcava o meu pescoço...
...Paro num posto e sumo. E não faço. Não faço! Volto sabendo que mais pra frente a coisa vai piorar...
...É o seguinte: eu estou mal mesmo. Se não aparecer uma cidade, eu vou parar e fazer no mato. Você jura que não conta pra ninguém?
Ela olhou em volta, tudo deserto.
-Árvore?...
...Além de não ouvir mais, eu já não falava. Não podia gastar nenhuma energia. Qualquer esforço seria fatal.
-Um posto!...
..Achei que estava com hemorragia estomacal. Voltei e comuniquei a desgraça...Vamos achar um táxi para você ..
...Vou embora rapidamente, tenho que achar outro posto...
...Ao fundo, a poeira faz um rodamoinho e, lá dentro, eu vejo Mao Tsetung e o Samuel Wainer a me recriminar.




Sexta-feira, Junho 06, 2003




O JAGUAR DE ELIANA


Cá estou eu a escrever sobre minha amiga Eliana.
Aquela que mora longe e que nunca mais foi a mesma depois do episódio do rato. Tenho tentado acalmá-la desde então e ela estava bem melhor, até outro dia...


Li é uma dessas pessoas que apesar de riquíssima é simples, simpática e muito generosa.Tão generosa que uma vez, lá pelos idos dos anos setenta, emprestou a filha.

No final dos anos setenta até começo dos oitenta, usava-se muito fazer gincanas, com boas premiações.
Resultavam num grande sucesso, eram mais ou menos o que hoje seria um bingo.
Eram interessantes, aconteciam em colégios, no Parque do Ibirapuera, em Estádios de Futebol e interessante mesmo eram as exigências!
Um casal de gêmeos negros de olhos azuis, uma certidão de nascimento de alguém nascido em 06/06/66 às 6 horas da tarde, no sexto andar de tal maternidade, um casal com dez filhos homens, todos com o nome começando com a letra M, coisinhas simples, triviais, corriqueiras.

Li tem uma prima meio doidinha, um "mix" de Wanderléia, Martinha e Vanuza, que adorava gincanas, participava de todas.
Naquele dia os organizadores estavam pedindo uma menina de quatro anos, bonita, morena, inteligente, pois teria que responder a algumas perguntas e...que conseguisse encostar a lingüinha na ponta do nariz.
E não é que a adorável Juju, filha da Li, conseguia fazer isso, toda brejeira, e saibam: tem o narizinho arrebitado!
(Preciso indagar urgentemente se ela ainda consegue tal façanha. Se consegue, deve ser um SUCESSO!).

A campainha tocou, o copeiro atendeu e tresloucada, alucinada, fora de si, adentrou o casarão a prima "locona"!
"Preciso que você me empreste a Juju, é pra gincana, estou ganhando, é uma bolada, querem uma menina que coloque a língua no narizinho e ela faz isso!
Me empresta a Ju, eu trago logo de volta!"

A tal da Wandeca falava sem respiração, sem pontuação, aos borbotões.
Eliana mediu a prima: a figura usava uma peruca lisa e quando digo lisa, é lisa mesmo! Comprida de franja.
Calça "Saint Tropez" (será que é assim como o balneário ou santropê mesmo? Sei lá!), com um cintão que ia até a perereca, botas de plataforma com lantejoulas, brincos psicodélicos pink e laranja, anel de brucutu, milhares de pulseiras do "Guerreiro".
(A velharada deve estar adorando a Wandeca e ela era assim mesmo!)

Eliana pensou, ponderou, afinal entregar uma garotinha de quatro anos aos cuidados de uma desabotinada, que portava botas de lantejoula, seria loucura.
Mas a prima pediu, implorou e Eliana pensou que era tão afortunada, a prima meio "duranga", acabou cedendo... não sem antes vestir Juju lindamente de branco (exigência da gincana) e fazer uma espécie de merendeira, um farnel, caso a pequena sentisse fome.
Sábia, Eliana tinha ciência de que Wandeca não ofereceria nada para a criança.

Promessas de bom comportamento, a tia dizendo que devolveria a garotinha em no máximo duas horas, beijinhos de agradecimento, rumaram pra tal gincana.
Juju respondeu as perguntas, fez o maior sucesso, colocou a língua no pequeno nariz e a "Equipe ou Escuderia Wandeca" ganhou o prêmio!
"Uma salva de palmas Senhoras e Senhores"... e a gincana acabou.
Juju ficou comportada e pacientemente esperou a tia, que nunca mais apareceu.
Olhou em volta e onde estaria Wandeca? Provavelmente comemorando a vitória da gincana, esquecendo-se completamente da garota.
Assim era Wandeca, imprevisível.
Juju andou pelo Pacaembu todo, procurou e nada. Achou um senhor com jeito confiável, foi até ele, deu dois puxões em sua camisa e pediu: "Vim para a gincana, me perdi, será que o Senhor poderia telefonar para minha mãe?"
Aos quatro anos, Ju sabia endereço, telefone, Cep e o tal senhor, não somente achou a criança uma graça como a levou de carro até em casa.

Como estava Eliana? Histérica!
Já havia chamado a polícia, corpo de bombeiros, o copeiro lhe dava sais, gritinhos, comia as unhas, deixando assim Eliana mais e mais atormentada.
"Dona Eliana, o sangue de Cristo tem poder, Deus é pai não é padrasto! Ai, Meu Pai, a menina vai aparecer Dona Eliana, tenha fé!"
A bichinha era bastante religiosa.

E Ju apareceu, linda e fagueira.
Três viaturas de polícia na porta davam um toque pitoresco à cena!
Eliana jurou a prima de morte.
Ficaram sem se falar um bom tempo.
Ninguém pode negar que Wandeca era no mínimo interessante. Desde que a filha não fosse nossa!
Eliana ficou de cama.
Quando coisas desse tipo acontecem, ela se recolhe, fica quieta e ressurge depois de um tempo das cinzas, magnífica.

Anos se passaram, Juliana é hoje uma moça inteligente, simpática e dona de um sorriso encantador.


Voltando à generosidade de Eliana, um rato apareceu em sua casa e roubava a comida dos cachorros.
Vivia a comer Frolic, atrás da máquina de secar roupas.
Os dois filhos mais novos caçaram o rato na operação "ratbusters".
Colocaram uma ratoeira com queijo, coisa que o rato recusou e o filho mais novo, esperto, trocou queijo por Frolic, o rato comeu e morreu.

E não é que o garoto deprimiu!
Apegou-se ao rato, arrependeu-se da operação.
Eliana, generosa, comprou um hamster (primo de primeiro, como diz o mineiro, do rato) e toda a parafernália, gaiola, roda gigante, comidas de hamster.
O menino sossegou, batizou o primo do rato de Peter e tudo estava em ordem.

Generosa, Eliana presenteou-se também. Afinal andava deprimida por ter um rato em casa...
Entrou em uma loja de autos e comprou nada mais, nada menos que um Jaguar.
Avisou os meninos: "Hoje vocês faltam ao Judô, ao inglês e vamos dar uma volta no carro novo da mamãe!"
Juju, hoje Juliana, nem foi convidada, já trabalha, tem vida própria.
Os meninos adoraram faltar às aulas.
Pegaram o Yorkshire e o Basset, o Hamster com gaiola e tudo e foram passear.

Acho que aqui deveria lembrar-me dos nomes dos cães, mas não me lembro.
O que sei é que Li vestiu um tailleur preto Channel, sapatos bem altos e bolsa Dior.
O Yorkshire de lacinhos, o Basset com uma coleira de diamantes (serão verdadeiras? Creio que não, imitação das boas, eu diria.).
Rodaram de Jaguar por meia São Paulo e dentro de um túnel o veículo pára, estanca, morre, falece, recusa-se a continuar.

Os cães ladravam, o hamster entrou em delírio, os meninos brigavam e, assim, o guincho chegou.
Rapazes muito simpáticos conectaram o Jaguar de Li ao guincho.
O filho mais novo, o que se apegou ao rato, avisou: "Se você cair vai ser um vexame!"
Isto deu uma lufada de bom humor e animação à vida de Li que, equilibrando-se no salto, a bolsinha no braço direito, o Yorkshire no braço esquerdo e o Basset na coleira, estava ótima, em tentativas infrutíferas de subir ao guincho.
O amigo do motorista, outro rapaz do resgate, solícito, deu uma "mãozinha", empurrando a bunda de Li, que finalmente acomodou-se no banco da frente do guincho, que carregava o inútil Jaguar pendurado na traseira.

Pensando somente na merda do carro novo, na fortuna que gastara e na droga que se recusava a ligar, Li foi tentando se acalmar.
O seguro, ou guincho, oferecia um lanche.
Li recusou-se a aceitar, afinal parecia coisa de Laboratório de Análises Clínicas. Bolachas doces, salgadas, sanduíches e suco de laranja.
"Não fiz exame de fezes, urina ou sangue", disse ela.
As crianças aceitaram tudo e distribuíram aos cachorros e ao hamster.

O carro chegou ao local de conserto e Li, simpática que é, pediu uma carona, até em casa ao rapaz do guincho.
Já estavam íntimos e se fazia tarde.

As pessoas nas ruas lhe davam adeusinhos e ela respondia com aquele aceno de Miss.

Teve quase quarenta minutos de fama e um resvalo de pensamento lhe vinha à mente: "Deveria ter comprado uma meia coroa de princesa que vi em Nova York na vitrine da Tiffany's. Talvez eu tenha ocasião de usá-la, qualquer dia desses..."

A viagem até em casa estava sendo um sucesso.
O hamster estava doido, rolando na rodinha e esfregando uma mãozinha na outra feito gente, à espera de mais biscoitos.
O Basset vomitou no caminhão e assim Li chegou em casa.
Gratificou o rapaz pela sujeira que as "crianças" fizeram na viatura.

Onde estaria Juju, a responsável e lindinha filha mais velha?
Ju estava com a polícia, resgate, SWAT e tudo mais a que tinha direito.
"Mãe, nunca você demorou tanto, chamei a polícia!"
O copeiro, que é o mesmo até hoje, comia as unhas dos pés, a essa altura.
A vizinhança ouriçada espiava o evento e Li continuava dando tchauzinhos de Miss.
É, a coroa estava fazendo falta!
E os três carros de polícia novamente davam um toque pitoresco à cena, para deleite da vizinhança.


É incrível como as coisas se repetem!
Tudo foi resolvido e espero que Li não fique acamada.
Tenho um palpite de que não vai ficar.
Vai trocar o carro, os tailleurs...
Talvez crie um rato de verdade.
Quem sabe compre o meio diadema de brilhantes!


Será que Eliana anda tomando Prosac ou algum genérico?
Vou perguntar...




Quarta-feira, Junho 04, 2003




HOJE


Todos os dias são especiais.
Acontecem coisas boas, gente nasce, gente morre, grandes eventos, grandes catástrofes.
Hoje não é diferente... É um dia comum, como qualquer outro.


Claro que hoje, coisas interessantes aconteceram ao longo da história.


O Duque de Windsor abdicou da coroa e trono ingleses para casar-se em Paris com a americana divorciada, Wally Simpson, deixando a Inglaterra boquiaberta e estupefata.
Em outras palavras, muito romântico!


Nasceu Tony Curtis, Chuck Barris, a adorável Paulette Godard que, para quem não se lembra, foi uma das mulheres de Charles Chaplin.
A mais bonita e menos interesseira, segundo ele próprio, a única que não reivindicou nada, nada exigiu, apenas avisou que não o amava como antes.


Coisas bizarras e misteriosas também aconteceram, como o desaparecimento de Jimmy Hoffa, líder sindical ativista, magnificamente retratado por Jack Nicolson, no filme "Hoffa" e muito bem colocado em "Fist" por Silvester Stalone.
Hoffa foi pobre, inteligente, e lutou muito pelos caminhoneiros maltratados, sem nenhum direito nos Estados Unidos, liderou greves e fez um acordo com a Máfia que, implacável, lhe cobrou a dívida.


Depois de lutas, fugas, adversidades, dificuldades, e intermináveis julgamentos o Doutor Sam Sheppard foi considerado inocente pelo assassinato da esposa.
O Doutor Sam Sheppard deu origem ao seriado "O Fugitivo".
Quem não se lembra do seriado com certeza lembra-se do impecável Harrison Ford na pele do Dr. Richard Kimble, tentando provar sua inocência.


Também o primeiro o primeiro astronauta americano pisou em solo lunar, na expedição Gemini 4.

O arqueólogo inglês Jefferson Davis descobriu os magníficos templos de Giza no Egito.


"The Black Venus", a fabulosa Josephine Baker que, além de cantar, dançar e interpretar magnificamente, foi motorista de ambulância durante a II guerra, participando ativamente em prol dos feridos, também nasceu neste dia.
Corajosa e talentosa Josephine!


Há muitos anos atrás, assisti em Nova York a performance de uma das mais destacadas cantoras de jazz de todos os tempos, Mrs. Dakota Staton.
Assisti ao show embasbacada, tanto com a voz poderosa de Dakota, como com uma moça que, aos gestos retratava a um surdo-mudo o conteúdo das letras jazzísticas interpretadas pela cantora!
Tudo isto aconteceu no dia de hoje!


E o que tem de tão especial hoje?
Nem todos os dias nascem Chuck Barris, Dakota Staton ou Josephine Baker, mas todos os dias nascem pessoas famosas, pessoas que um dia serão famosas, ou especiais. Todo o dia morre alguém importante, até porque todos somos importantes!


Coisas incríveis acontecem todos os dias.


Mas hoje eu nasci!


Estou muito feliz por ser eu mesma, com defeitos e qualidades, com as coisas que faço ou gostaria de fazer, com acertos e desacertos, vitórias e derrotas e principalmente com as pessoas queridas que me cercam!

Então, para mim hoje é um dia importante...

Brindemos então, não a mim, mas principalmente a vocês!



Terça-feira, Junho 03, 2003




TAKI O MEU PRESENTE, MÔ


Espero que vc goste do novo Layout!

TE AMO,

Bjs







FELIZ ANIVERSÁRIO, MANA


Não se assustem...
Entrei aqui sem ser convidada, mas não poderia deixar de fazê-lo: É que hoje é o aniversário da MINHA IRMÃ!
(Para quem ainda não percebeu: é a Rosana quem escreve neste exato momento!)

Mô, queria dizer que te amo, muito, muito mesmo!!! E esta foi a melhor maneira que encontrei!
Que seus "??" anos lhe tragam muita felicidade, alegria, paz, saúde e todas aquelas coisas boas
que se deseja em aniversários.
Você foi e será sempre a melhor companhia que tive.

Lembranças de todas as fases da minha vida estão ligadas a você, sejam elas boas ou más.
A gente brincava de brincadeiras só nossas, a gente brigava aos gritos e puxões de cabelo. (E nem quero me lembrar à essa altura do campeonato os beliscões e as unhadas).
Mas 15 minutos depois estava tudo bem. Às vezes demorava um pouco mais, mas sempre ficava tudo bem.

Obrigada por me fazer rir bastante, seja com você ou de você (hehehehe)!
Obrigada pelo irmão que você me deu, casando-se com o Luizinho. Obrigada pelas "filhas" do coração que ganhei, ao você ter a Flá e a Pops.
Obrigada por torrar a minha paciência diariamente. Com isto você faz que meu caminho para o Céu seja BEEEEEEEEMMMMMMM mais curto!!!

É isso aí, minha irmã...
Parabéns, que Deus te proteja e te abençoe!
Não esqueça nunca: AMO VOCÊ!
TUDIBÃOPRÔCÊ! Sempre!!!

Bjs



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