AFLIÇÃO NA "DOCES FÉRIAS"
Puta nova aqui pra zona?
Apesar da escuridão conseguíamos ver luzes vermelhas, várias senhoras de vida fácil a nos olhar com desdém.
Imaginem concorrentes tão novinhas...
Aliás, não sei quem foi o infeliz que inventou "mulher de vida fácil", levam uma vida pra lá de difícil.
As três estáticas, entre 15 e 17 anos, a observar aquele mundo novo e até fascinante. Não dava pra sermos confundidas, nem no maior breu.
Tínhamos carinha de anjo, éramos mais para bobinhas.
Dava pra sentir no ar o ódio de Mário e ouvir o filho do administrador tendo ataques de riso.
Mário só não nos pregou a mão na cara, por ser educado, mas deu a ordem e foi obedecido imediatamente:
- Entrem já no carro!
Acabamos com a festa dos três e fomos, entre um engolir de gargalhadas e macambúzias, de volta pra fazenda.
Fomos xingadas de loucas, imbecis, cretinas.
O repertório se esgotando, e ele não se dava por vencido: energúmenas, boçais, paranóicas, paranormais... falou tudo que lhe ocorreu.
E deu por encerrado, com um ríspido palavrão, o seu comício.
Lúcia nem se abalou, nem percebeu que havíamos saído; estava, como sempre, lendo.
Preciso qualquer dia perguntar-lhe que livros fascinantes eram aqueles, que a transportavam para outro mundo.
Se bem que ela viajaria até com gibis, acredito.
- A senhora quer saber o que aconteceu? Mário perguntou.
- Não.
- Ah, a senhora nunca quer saber de nada. Viu o fora que a Ritinha deu ontem com o pinto do jegue e não disse nada! É o fim do mundo! A senhora não educa a Ritinha.
- Mário, eu não eduquei você, vou educar a Ritinha?
- A senhora é louca! Sabe o que essas três fizeram?
- Hum...
- Foram parar na zona de Loanda. Num puteiro, mãe!
Ah, que a palavra surtiu algum efeito. Um lufo de curiosidade acometeu as feições de Lúcia.
- O que??
- É o que estou lhe dizendo.
- Meninas, venham cá! Contem tudo! Como é o local, as pessoas, não omitam nada, quero detalhes!
- Tá vendo? Agora a senhora acordou, finalmente. Elas foram confundidas com prostitutas!!
- Ah, que ótimo! Contem logo!
A adorável Lúcia, a louca de "Chaillot".
- A senhora é doida mesmo!
Mário foi dormir com ódio, marchando.
No dia seguinte Beto ia sair de carro.
Mário percebeu e na surdina abriu o capô, tirou uma peça, um cabo, algo que impossibilita o carro dar a partida.
Beto tentou duas vezes e percebeu o que o irmão havia feito.
Entrou em casa possuído.
- Eu vou sair, me dê a peça!
Mário fazia-se de desentendido e folheava uma revista.
- Mãeeee!! Eu quero o carro, vou sair.
Como não obteve resposta, foi tirando os pratos de louça inglesa da parede, jogando-os no chão, quebrando-os um a um.
Foram mais de doze, eu contei.
Lúcia lia calmamente.
A única coisa que disse foi:
- Eram de minha bisavó! Cirilêide, minha filha, trás uma vassoura, olha o que o Beto fez!
Os dois se pegaram a soco e foram dormir quentes.
Lúcia... lia.
Quem andava comportado, desde a tentativa de suicídio, era o Tinho.
Uma noite anunciou que iria acampar, dormir lá fora.
- Quem quiser que me acompanhe, disse ele.
Quatro de nós resolveram ir.
Eu fui uma delas.
Sempre tive insônia e sono leve, desde garotinha, seria no mínimo agradável ficar olhando as estrelas para variar.
Munidos de "sleeping bag", lá fomos nós.
Às tantas peguei no sono.
Acordei, de repente, sentindo um peso na barriga.
Para meu estupor, uma cobra enrolada, acomodada, dormia no embalo da minha respiração.
Desesperada não sabia se urrava, ficava quieta, puxava a cobra com a mão.
As cobras do Paraná são conhecidas, venenosíssimas.
O bom senso ou o Anjo da Guarda, que Lúcia contratava para tomar conta de nós, avisou, e eu tentei ao máximo manter a respiração balanceada.
A tinhosa dormia no cadenciar do meu respirar.
Seria uma surucucu, jararaca, urutu?
Gotículas de suor minavam do meu lábio superior, da lateral do rosto.
O suor me cegava, lágrimas de medo se misturavam.
Qualquer movimento despertaria a bicha que, na posição perfeita, enrolada, daria um bote e atingiria meu pescoço ou rosto.
Hirto qual a murta, jazia meu corpo; ou estaria ele tremendo?
E se ela sentisse minha carne trêmula e acordasse?
Já me dava por morta; só aquela respiração cadenciada insistia em continuar embalando, o réptil dorminhoco.
O tempo se recusava a passar, comecei a fazer um balanço de minha vida breve.
O que havia feito, o que gostaria de fazer.
Dançar, trabalhar, criar filhos... nada disso teria eu o prazer de fazer e vivenciar, estava morrendo aos poucos.
Senão pela picada da cobra de puro medo.
Por que ela não acordava e me atacava de uma vez?
Sempre odiei a angústia da espera!
Que espera?
A espera da dor e da morte lenta.
Meu corpo paralisado estava empapado, ensopado.
Agora ela acorda com a umidade.
O corpo começou a formigar, o tempo, este não passava!
Os sentimentos são mutantes em horas assim.
Primeiro o pavor, o medo, logo vem a aflição, a angústia.
Num determinado momento a coragem, a vontade de sair gritando e finalmente o cansaço, a entrega, o render-se a uma força maior e desejar uma morte instantânea e indolor.
Como um carrossel, os pensamentos giram, agora passara a querer que o bicho fosse muito venenoso, para morrer rapidamente.
Só as pupilas se mexiam, o medo era petrificante e qualquer movimento, por menor que fosse, seria fatal.
Há quantas horas estaria eu ali a olhar de soslaio para a viscosa cascavel?
Incontáveis...
Olhei o céu, contei estrelas...
O corpo doía, latejava!
Ela ia sentir o latejo que vinha de dentro de mim, a respiração parecia estar mais ofegante...
Vou gritar, vou me mexer, chega dessa angústia, a cobra venceu.
Neste exato momento de rendição e desespero a bicha se mexeu devagar, a língua bifurcada, apontada para meu rosto, parecia querer dizer: - Sou mais poderosa que você, te venci!
Ela veio devagar, se arrastando, passou pelo meu estômago, peito, ombro.
Enorme... era interminável.
Orgulhosa e impoluta, saiu inteira, sem se despedir.
Corri tremendo para casa, aos prantos.
Acordei Lúcia mas não conseguia falar.
Quando finalmente entendeu, disse:
- Não chore, devia ser uma jibóia, o rio é pertinho. Sabe o que vou fazer?
Neguei com a cabeça. A voz não saía da garganta seca, estava desesperada.
- Vou fazer puta que pariu!
Eram 4 horas da manhã.
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Monica às 12:49 PM
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Terça-feira, Agosto 26, 2003
DOCES FÉRIAS
Dona Lúcia é impagável! Do mundo nada se leva, sempre foi sua filosofia.
Dona de algumas fazendas de gado e mãe de sete filhos.
Além dos sete, Dona Lúcia levava com ela, durantes as férias, para o Sul do Mato Grosso ou Noroeste do Paraná, os amigos dos filhos.
Não era difícil ver a casa lotada de crianças, entre dez e dezoito anos.
- Hoje vou completar mil quilômetros! dizia ela, nos postos de gasolina, orgulhosa, dirigindo uma perua lotada.
Minha mãe, preocupada e extremosa, pensava:
- Lúcia é formidável! Cuidar sozinha de todas essas crianças, que trabalheira! Deixava-nos ir, depois de inúmeras recomendações, para perto de Loanda, no fundão do Paraná.
- Lúcia é super cuidadosa!
Íamos meu irmão, minha irmã, eu e quem mais quisesse, nada lá era problema.
Daí a pensar que a anfitriã era cuidadosa...faz-me rir, só em lembrar. Lúcia era louca varrida e fazíamos o que queríamos todo o tempo. E aí morava a graça das férias!
Atravessar o Rio Paraná a nado, deixando a correnteza nos levar, pois já sabíamos a hora certa e o lugar onde íamos parar.
Tomávamos café com melado, na casa dos colonos e voltávamos num barquinho, mais mixuruca impossível.
Escorregar em cachoeiras, isso já nem tinha mais graça.
Dirigir automóvel, todos dirigiam, desde que o pé alcançasse o acelerador e o breque.
Os irmãos se digladiavam.
Com as visitas eram bem educados.
Nas refeições, Dona Lúcia tocava um sino.
Quem quisesse comer comia, e que comida divina!
Quando resolvia, esporadicamente, visitar a cozinha, fazia pães, bolos e bolinhos de chuva, que ela apelidou carinhosamente de puta que pariu.
Ah, se minha mãe soubesse de todas essas aventuras, se soubesse que os bolinhos levavam tal alcunha... nem sei o que seria.
Seria o fim das viagens, da diversão, da liberdade.
- Por que a senhora os chama assim?
- Ah, porque quando a Ritinha, filha caçula, pegou um bolinho e queimou a mãozinha, gritou: puta que pariu; então o nome ficou.
Ela era uma graça.
Certa vez Lúcia avisou que ia receber gente de cerimônia, a criançada se comportou, até que Ritinha resolveu pedir para que todos olhassem pelo janelão, o jegue ruminando calmamente, com os documentos de fora.
- Nunca vi assim tão grande!
Ritinha, ainda pequena, desconhecia ou nunca se dera conta, da documentação de um jegue.
Pra quem nunca viu garanto: não é coisa de pouca monta!
Que embaraço... a menina insistia e Lúcia, com toda classe, trocava o assunto e servia os quitutes.
Nesta mesma noite, um dos meninos estava com uma gilete na mão, tentando arrancar uma berruga.
O sangue jorrava pela perna e alguém avisou.
- Olha o Tinho se operando!
- Pára menino, isso pode inflamar, dizia a louca adorável, mal tirando os olhos do livro.
E Tinho arrancou a berruga e a dita não inflamou.
Tenho pra mim que Lúcia devia manter estreitíssimas relações com o Todo Poderoso e encomendava, com ele, alguns Anjos da Guarda, pois só assim consigo explicar a ausência de acidentes sérios.
Tinho, certa feita, resolveu se matar.
Marcou dia e hora.
Subiu no telhado da casa e gritava:
- Me mato hoje, vou me atirar daqui!
- Não seja bobo! Preste atenção: deixe para quinta-feira que tem rodeio.
Vamos para Loanda e você se mata lá, tem muito mais público, platéia, você vai fazer mais sucesso, disse-lhe a mãe, sem se abalar ou desgrudar os olhos dos eternos romances.
Tinho esqueceu de se matar...
O irmão mais velho, Mário, estava misterioso aquela semana, a fazer combinações e conluios com o irmão Beto e o filho do administrador.
Viviam aos cochichos...
Cláudia, irmã dos diletos rapazes, minha irmã e eu tínhamos certeza:
- Eles estão tramando! Vão ao circo, na cidade, e não querem nos levar, constatou Cláudia.
- A solução me parece simples, disse eu. A gente se arruma e se esconde atrás da perua!
- Lógico, disse minha mana, quando a gente estiver lá, aí... "Ignez é morta" e eles vão ter que nos engolir.
Não vão querer voltar daquela lonjura.
Ficamos bem quietas, nada contamos ao mais novos.
Afinal ninguém queria aquela criançada alvoroçada, a incomodar.
No fim da tarde nos arrumamos e entramos, incógnitas, no carro.
Deitamos no assoalho e nos cobrimos com um encerado.
A espera foi interminável.
Os três rapazes apareceram finalmente. Estavam cheirosos e arrumados.
Viajamos quase cem quilômetros, segurando a vontade de rir e de mostrar que lá estávamos. Éramos espertíssimas!
E foi quando Mário estacionou o carro, nós descemos; com a certeza absoluta que o local escuro não era o circo... ouvimos:
- "Genti, óia lá, vem vê! O Mário troxe puta nova cá pra zona!!!"
por
Monica às 12:33 AM
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Quinta-feira, Agosto 21, 2003
AO MESTRE COM CARINHO
- O que o senhor faz?
- Sou professor.
- Ai, coitado, que dureza! E o salário, tão pequeno, que trabalheira!
- Eu gosto de ensinar.
- Há gosto pra tudo!
O ofício de professor, outrora tão distinto, hoje é motivo de chacotas, pilhérias...
- Professor? perguntam com desdém.
Um dia foi elegante, qualquer família distinta tinha um padre e um professor.
Padre, não sei dizer, tantos credos e religiões... mas, professor eu sei!
Digo de boca cheia: não há carreira mais linda que a de mestre, professor.
Então não são eles artistas?
A sala de aula é o palco, os alunos, a platéia e eles atuam.
Quem não se lembra de um professor, dos bons, gesticulando, dançando, pulando, fazendo malabarismos, para conseguir explicar a matemática, história ou geografia.
Despertar no aluno a vontade de ler, de falar, de escrever.
E não se pode negar, pelo menos para mim, que esta profissão tem um charme especial.
- O que o Senhor faz?
- Sou professor!
Que respeito, que dignidade, que admiração!!!
Agüentar uma sala de adolescentes histéricos, aguçar-lhes a atenção... é mesmo coisa de artista e de artista dos bons!
Tive bons professores, não me recordo de nutrir ódio ou rancor por nenhum.
Sempre justiceiros e cultos.
Até as freiras, pra quem tudo era pecado, foram boas educadoras.
Obviamente todos têm suas preferências, pelos interessados.
E isto não é fundamental?
Deve ser um pânico ensinar alguém a bocejar, todo o tempo.
Existe também, como em qualquer outra profissão, o professor sem tesão.
Aí eu digo... aposente-se, acabou seu tempo.
O furor é necessário, em qualquer profissão.
Ensinar é cansativo, requer muita obstinação.
Mas vem com ela, a recompensa.
Não existe idade certa, aprender é sempre bom.
Lembro-me de quando ensinei as primeiras letras à minha filha.
Um belo dia ela virou e disse: - Olha ali o meu nome.
Era mesmo, fiquei boquiaberta, a pequena aprendeu a ler sozinha!
Não... eu havia ensinado, do meu jeito, sem didática e ela aprendeu.
Ensinar vem no sangue, como atuar, é vocação!
Quando o aluno erra pela enésima vez a conta, a regra, há de se ter paciência, dom dos sábios.
E quando ele acerta, aprende... que alegria, o coração esquenta.
É isso que os faz continuar, dar seqüência ao martírio, o magistério.
É como o contra regra em um teatro, um diretor numa peça em exibição.
Geralda: elegantíssima, me ensinou a gostar de francês.
Dayse: berrava ao biografar Pedro I, de pura excitação, bem como o Minotauro ou Amon Rá.
Cleide: bravíssima ensinava matemática, e ai de quem não prestasse atenção.
Elsa da Silva de Oliveira: odiou-me no início, me achou mimada, ou algo assim.
- Vou conquistar esta pessoa, pensei.
Foi um desafio, aos 12 anos de idade, mas valeu.
Passei para o ginásio com a nota máxima.
Não foi fácil.
Guardo dela um livro, com dedicatória, uma linda recordação.
Salete: aprender gramática inglesa com ela, e só com ela, é puro prazer.
Fernanda: mais que uma amiga!
Gabriel: um anjo, se não fosse arcanjo.
Escrevi a ele umas palavras e recebi resposta imediata:
- Obrigado por suas palavras elogiosas e cheias de reconhecimento por este professor que, como todo professor, professa o que sabe, mas nem sempre consegue praticar tudo o que ensina.
Digam que não tive muita sorte!
Digam que ser professor, não é a mais linda profissão!
Todos os professores incluindo os que não citei, fizeram de mim o que sou, com acertos e erros, convicções e limitações.
Na tela do computador vou desenhando um auto-retrato com substantivos, adjetivos verbos e preposições...
Nesse esforço de criação, num escolher de palavras, vai se formando um rascunho, logo uma escrita mais nítida, a tentativa de uma organização interior.
Porque, querendo ou não, somos o que escrevemos.
Gostaria que meus mestres se fundissem agora numa só entidade e aceitassem minha eterna admiração.
E ouvissem minha alma que canta:
Ao mestre... com carinho!
por
Monica às 6:21 PM
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VIAGENS COM MEU TIO
Parte IV
Estava???
Parecia bem.
A viagem de volta, pelos menos, aconteceu sem grandes complicações.
De volta ao lar, foi recepcionado por Hazel, sua fiel servidora, como ele gostava de dizer e como constou no testamento de Ava Gardner: "Para Hazel, minha fiel servidora, deixo o seguinte legado".
Ava era inglesa, não podemos esquecer e Hazel levou algum.
Hazel foi uma das personalidades mais bizarras que já conheci.
Maldosa, maledicente, odiava pobreza, fofoqueira, mas gozadíssima.
Como foi que meu tio "ajustou" (termo dele) a criatura?
Foi até a portaria, gratificou o porteiro (aquelas eternas gorjetas)...e perguntou:
- Qual é a melhor empregada das redondezas?
- Sei não, mas tem uma tal de Dona Heize, que parece boa, diz que é de forno e fogão!
- Diga para ela me telefonar. Esticou o cartão e a grana, e Hazel ligou no mesmo dia.
- Você é boa empregada? Cozinha?
- Sou ótima e sou banqueteira.
- Quanto você ganha?
- X
- Pago X mais X, venha amanhã!
Hazel apresentou-se no dia seguinte e lá ficou 45 anos.
Mandava na casa.
Era convidado só quem fosse aprovado pelo seu crivo.
Adorava Ava Gardner e odiou Bette Midler com todas as forças do seu ser.
Qual era o nome do tio, alguém perguntou.
- Quem foi casado com Ava? pergunto eu.
Frank é claro.
Voltando de lua de mel (sim, porque Bette, além de vestir-se de noivinha e jogar o buquê, quis lua de mel em Paris) fez o impossível para agradar Hazel.
Em vão.
- Qual é o prato preferido de Frank? perguntou Bette, certa vez.
- Rabada, respondeu a empregada.
Bette foi à feira, comprou todos os ingredientes, preparou o quitute com a antecedência necessária.
Hazel caprichou ao botar à mesa, toalha de linho e cristais finíssimos, hábito da casa, mas esse dia o capricho excedeu... flores...
- O que é isso? perguntou tio Frank.
- Seu prato favorito, rabada, respondeu Bette.
-Hazellllllllll, faça uma omelete, ODEIO rabada, e sirva na sala de TV. Levantou-se.
Devo admitir que a fiel servidora soube como infernizar a vida de Bette Midler magistralmente, com requintes de maldade.
Hazel gargalhava por dentro.
Depois do roubo e da partida de Bette, voltou a reinar absoluta.
A única pedra no sapato dela éramos eu e minha irmã, que tomávamos conta do tio.
Nunca saberei explicar, mas a incontentável serviçal, gostava da gente.
Começamos a notar que Frank estava piorando, biruta, falava absurdos, arranjou uma briga com uma vizinha, chamou o filho da dita de gay (gay digo eu, ele disse bicha mesmo) e "ajustou" um chofer.
- Para que você quer um motorista? perguntei.
- Ele foi despedido, respondeu Frank.
- Mas você não precisa de um.
- Mas ele precisa do salário!
Frank era a generosidade em pessoa, mesmo biruta.
E o chofer assistia televisão e comia.
Descobrimos, minha irmã e eu, que aquele eterno copinho d'água era, nada mais, nada menos, que vodka pura.
- Um litro por dia, contou Hazel.
Ele trocou o dia pela noite, abria uma garrafa de vodka, bebia até adormecer, acordava e continuava bebendo.
Para Hazel estava ótimo.
Quanto mais ele fizesse isto, menos ela teria o que fazer.
Mal limpava a casa e muito mal cuidava do tio.
Já era aposentada e continuar na casa com um gordo salário, era ideal.
Num revezamento contínuo, nós as sobrinhas, cuidávamos do tio.
Dávamos banho, fazíamos comer, compras de super mercado, tudo enfim.
Um belo dia Hazel telefonou:
- Seu tio está dormindo há mais de quinze horas.
Corremos pra lá, ele estava num estado letárgico, chamamos o médico e ele foi direto para a UTI.
Estava em coma.
Ficou dezoito dias no hospital,UTI sendo paga a preço de ouro.
Com a ajuda do médico, um anjo, conseguimos montar uma pequena UTI em uma clínica de repouso.
Passaram-se uns trinta dias, Frank abriu os olhos e perguntou:
- O que estou fazendo aqui?
- Você estava em coma, respondemos felizes ao vê-lo de olhos bem abertos.
Agora ele teria que ser operado em Houston, não havia outra saída.
Frank, voluntarioso, começou com exigências:
- Odeio Houston, quero ir pra Nova York e ficar no meu hotel.
Ele tanto bateu o pé que acabamos cedendo, na base da chantagem.
Tínhamos agora a faca e o queijo na mão.
Rebaixamos Frank para classe executiva, viajaríamos todos juntos.
Exigimos que usasse uma cadeira de rodas e nada de bebidas.
Ele aceitou.
Demos férias a Hazel e, com pesar, despedimos o motorista.
No avião ele começou a querer dar trabalho.
Lasquei-lhe um calmante goela a baixo, que o fez dormir a maior parte da viagem.
Outra vez, duas insanas com um não menos louco, em plena Nova York.
Imaginei essa semana se a viagem ocorresse em meio ao black-out, seria impagável!
Uma coisa tenho que admitir: o que uma cadeira de rodas faz no exterior.
Parecíamos rei e princesas, tanto no avião e alfândega, como em lojas, restaurantes e hotéis.
Depois do coma, Frank não se lembrava da viagem anterior.
Contei tudo com detalhes, ele custou a crer, mas adorou o tal do "Ai que culo, niña"!
Adotou a máxima o resto da vida, nenhuma gordinha escapava.
Era Páscoa e eu resolvi que iríamos a Easter Parede, na Quinta Avenida.
Parada cafona, na qual as americanas desfilam com os chapéus mais ridículos possíveis.
Casinhas na cabeça, portinhas se abrindo, coelhinhos saindo de dentro.
- Que bosta de parada! Só vocês para me trazerem numa porcaria dessas. E nem sabem empurrar uma cadeira de rodas com competência!
Ele era exigente.
O trabalho de lidar com a cadeira é incrível: chama-se o táxi, coloca-se a criatura dentro a duras penas, fecha-se a cadeira, porta malas... tudo de novo...
Começou a maratona "Houdson de Souza" após o almoço e jantar, regados a vinho e champanhe, com moderação.
Depois de jantar, o tio dormia como um anjo.
Íamos a todas as peças de teatro, voltávamos, ele dormindo.
- Ele está bem melhor dessa vez, comentei.
Até que um dia, por acaso, olhei o lixinho do quarto contíguo ao dele.
Senhor! Todas as miniaturas de bebidas dentro da lixeira! Isto devia estar sendo feito diariamente, tanto assim, que a conta do hotel foi ESPETACULAR!
Houston again! Shirley, adorable!
Frank operou-se, colocaram uma válvula em seu cérebro e ele ficou ótimo.
Os médicos avisaram que a válvula poderia entupir, e ele ficaria insano de novo.
A válvula entupiu, ele enlouqueceu, pediu Dercy Gonçalves em casamento, ela aceitou e ele resolveu dirigir seus shows, depois de uma discreta cerimônia de matrimônio?
Não!!! A válvula nunca entupiu, ele ficou bom!
Sobreviveu a este episódio dez anos.
Morou com minha irmã, que não é fraca, e lhe concedia uma caipirinha antes do almoço e outra antes do jantar.
Foi bem tratado, precisava de atenção.
Adorava ouvir, incrédulo, nossos relatos das viagens.
Morreu há dois anos.
Deixou saudades!
Herdamos dele a generosidade, aprendemos a não julgar as pessoas e não podemos até hoje ver um "bundão", que nos lembramos de suas palavras.
Emocionada, escrevo: ele foi um bom homem, que Deus o tenha!
E se alguma santinha bunduda olhar por ele...
Seria pedir muito, Senhor?
Isto seria o Céu!
por
Monica às 9:25 PM
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Quarta-feira, Agosto 13, 2003
VIAGENS COM MEU TIO
Parte III
Recife?????????
Dou a ponta do meu dedo esquerdo, se essa criatura alguma vez na vida pisou, com seus pés heráldicos, no Nordeste Brasileiro.
Morou no México anos, nos Estados Unidos muitos outros.
Adorou conhecer a China, o Japão. Mas Recife?
Gostava do Mato Grosso e fora isso, que eu saiba, fez uma pequena excursão, de automóvel, pelo interior.
Bette Midler resolveu ir até sua terra natal.
Convidou a senhora sua mãe, a irmã, que era hilária, e o cunhado.
Aboletou todos no carrão do tio e, depois de algum tempo, deu um grito histérico:
- Pare este carro!
- O que aconteceu? Perguntou assustado.
- Quero comer pastéis e tomar garapa!
Será que Bette estaria em estado interessante?
Meu Pai! Um homem que passou a vida tomando champanhe e comendo Beluga, trocar por pastel e garapa!
Não deu outra, foi acometido por uma descompensação intestinal, que o fez voltar e ir parando de posto em posto.
Voltando para Recife, ou melhor, Nova York, escolhi um Apart Hotel, discreto, no coração de Manhatan: dois quartos, sala, cozinha e banheiro.
Fazíamos o café da manhã e se ele tivesse fome, à noite, poderia tomar uma sopa, um sanduíche.
Ele, obviamente, ODIOU!
- Vocês me trouxeram para um hotel no fim do mundo! Sem recepção, lobby, piano bar. Que lugar horrível!
- Estamos na Park Avenue, seu hotel favorito está a duas quadras daqui... uma longa explicação se fez necessária.
Ele continuou odiando!
- Você tem mania de ser econômica, dizia ele.
Minha irmã e eu nos revezávamos: uma ia até o Central Park, a outra ficava com ele.
De manhã fazíamos um passeio cultural.
Nós duas, como muletas, íamos ao Metropolitan, Guggenhein, Morgan's Library.
Não importava a distância, tudo de táxi.
O tio eternamente enfadado com isso.
A coisa melhorava na hora do almoço.
A memória refrescava, e ele se lembrava dos restaurantes.
Era tratado feito rei e gostava disso. Também... "aquelas gorjetas"!!!
A primeira coisa que fazia era gratificar o ajudante de garçom, muito discretamente.
- Pra quê isso? perguntei uma vez.
- Porque estes rapazes são pobres, estão no país ilegalmente, e ninguém lhes olha no rosto!
Era mesmo generoso!
Um belo dia, como sempre fiz, mandei-o tomar banho, para almoçarmos.
- Vou tomar banho de imersão, ele disse.
- Tá bom!
Enchi a banheira, tirei-lhe a roupa, deixei-o de "samba-canção".
Logo começamos a ouvir:
- Socorro, socorro.
Ele se entalou... nem minha irmã, que não é fraca, nem eu, conseguíamos retirar a figura da banheira.
A pulso, foi desentalado por nós.
Elegante, nunca saía sem gravata, tanto pra almoçar, quanto para jantar.
E não é que um dia, ele entra na sala nu, portando uma linda gravata, mal colocada.
- Meninas! Alguém me ajude a dar o nó nessa gravata, está impossível!
- Tioooo, que horror, você está nu! Disse minha irmã.
Acho que ele não se deu conta da nudez.
Saiu de fininho... a borboletinha ficou p*** !
Não deixa de ser interessante, ver um senhor completamente nu, de gravata.
Cena de Fellini, talvez Almodóvar.
Depois do almoço ele costumava dormir.
Nesta hora corríamos como loucas por Nova York e a mana, que detesta exercício, fazia uma corrida de dar inveja ao "medalhado" Hudson de Souza (duas medalhas de ouro no PAN, diga-se de passagem. Grande orgulho!)
Fomos aos melhores restaurantes, tomamos champanhe, demos uma volta pelo Central Park, à noite de charrete.
Como estava frio, tirei do pescoço um enorme cachecol e envolvi sua cabeça e pescoço. Estava assim agasalhado, porém, o retrato vivo da vovó Mafalda.
- Tio, você está a cara da vovó Mafalda, disse eu.
- Qual Mafalda? Mafalda Salles Souto?
É... ele gostava de um sobrenome e pensava que era príncipe.
Logo que conheceu Bette Midler, tentei com muito, muito jeito, contar-lhe quem era ela.
Figura pra lá de carimbada, era conhecida por "depenar" alguns senhores idosos.
- Quer saber quem é Bette de fato? Perguntei.
- Por que haveria de querer? Não me consta que Andrew tenha investigado o passado de Fergie (Sarah Ferguson - the Duchess of York).
E olha que nessa época ele estava bem.
Numa dessas escapadas nossas, pós-almoço, o tio acordou.
Quando voltamos, o rapaz da recepção correu, para avisar:
- O pai de vocês esteve aqui e deu um escândalo!
Pela primeira vez ele deve ter perdido o sono, saiu do quarto no quinto andar e foi batendo de porta em porta.
De pijamas, vista aberta, contava aos hóspedes que fora amigo de Sir Winston Churchill, que a temperatura estava boa... afinal, Recife costumava ser quente, que era um novo morador no prédio.
Biografou Maria I, esposa de D. João VI.
- Louca furiosa, saiu do Brasil às pressas!
O Delmonico's Apart Hotel hospedava mais americanos que qualquer outra raça.
Imaginem a cara desse pessoal metido, ouvindo a biografia de Maria Louca, por um não menos biruta de pijamas, e vista aberta (detalhe fundamental).
Adorei! Americano quando dá pra ser careta, sai da frente.
Todo mundo com cara de quem comeu cocô e não gostou!!!
Desceu até a recepção e gritou:
- What the hell is going on here?
So long, New York!
Fomos para Houston, quisesse ele ou não, estava decido!
- Para onde vamos agora?
- Para Aracaju, respondeu minha irmã.
O tio continuava biruta e sem censura!
Não é segredo pra ninguém que algumas americanas são "obesinhas", e cada uma delas que passava, ele dizia não muito baixo:
- Ai, que culo niña!
Ficávamos roxas!
Nunca saberemos o que desencadeou tal comportamento.
O fato é que às vezes ele parecia normal, e de repente saía com um impropério, tão atípico dele.
O tratamento foi um sucesso, e Shirley, a enfermeira responsável, tinha senso de humor, felizmente.
- Venha cá que vou fazer isto, isto e isto com você, dizia.
- Vou processar o senhor por propaganda enganosa! O senhor não vai conseguir fazer nada disso! Está me iludindo, dizia ela bem humorada.
Voltamos pra o Brasil, o tio ótimo, tudo parecia ter dado certo.
Shirley a enfermeira, recebeu flores e beijinhos! Brazilian way! Ela nos adorou.
Nosso tio estava curado!
Estava?????
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Monica às 2:23 PM
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VIAGENS COM MEU TIO
Parte II
E foi em uma de suas visitas à segunda classe do avião, que avisto uma figura de calças arreadas, andando feito pingüim e de cuecas samba-canção:
- Onde vocês estão me levando?
Corri feito um corisco! Levantei-lhe as calças, rosto guarnecido com um sorriso amarelo, explicando:
- Estamos indo pra Nova York. Tio, acho que você emagreceu, está com as calças caindo.
Coloquei-o no devido lugar e serei eternamente grata à tão simpática atriz, que com ele conversava, como bons e velhos amigos.
Rezei para que a outra não tivesse ouvido o despautério de ser chamada de bicho feio.
Apesar dele ter uma certa razão: ela é excelente atriz, simpática, mas de bonita...
Estão curiosos? Jamais contarei quem são.
O que uma mulher espertalhona pode fazer a um homem fino, educado e inteligente... pensei.
Bette Midler pediu uma grana preta, dizendo que iria montar uma confecção, comprar máquinas (reta, overlock, interlock, galoneira), contratar costureiras e outras coisas.
Generoso, ele deu.
Em seguida inventou uma doença incurável para mãe, cujo tratamento não seria pago pelo seguro saúde. Ele consentiu.
Não contente, roubou os cheques!
E gastou tudo em uma mesa de jogo! Que vigarista!
Nessa brincadeira levou metade do dinheiro dele.
Ele nos telefonou, contou tudo e ficamos a fazer-lhe companhia.
Enquanto a lavanderia fez a mudança, estava ainda animado, meio vingativo.
Depois deprimiu. Pouco comia, passava o dia de pijamas e parecia interessar-se apenas por um eterno e inseparável copinho d'água.
Uma tarde ele me pareceu mais animado e disse:
-Coloque aquele disco (cebolão), que está logo ali.
Era Steve Wonder cantando "I just called to say I love you"!
O tio comentou animadão:
- Esta negr A mexe comigo! Mexe com o meu sangue!
Minha irmã e eu nos entreolhamos, olhares catatônicos e queixos caídos.
Como que por telepatia, decidimos não dar a notícia ao velho.
Dizer de chofre, que a negra era negro e ainda cego!!
Ai... que aquilo poderia causar-lhe um impacto muito duro!
Resolvemos levá-lo ao médico.
Estava com uma doença tão sofisticada quanto ele.
Uma síndrome de nome complicado.
Teria que tentar um tratamento em Houston-Texas, o que detestou. Se não funcionasse, teria que ser operado.
Concordou em ir, com a condição de passar por Nova York, sua paixão, minha e de minha irmã também, devo acrescentar.
Daí a viajar com uma pessoa biruta, foi loucura. Não tínhamos noção do teor da insanidade.
A viagem parecia interminável!
Voltei à primeira classe, ou melhor, voltamos.
- Você vai comigo, estou com vergonha. Sabe-se lá o que o homem está aprontando.
Minha irmã sempre foi mais dura com ele, sempre o mandou calar-se, sem a menor cerimônia dizia: - Não enche ou vá tomar banho.
Coisa que nunca fiz, sempre fui muito respeitosa.
De quem ele gostava mais?
Dela, é claro!
Ela sempre foi "the apple of his eyes", a menina dos olhos dele!
Demos com a figura cantando ópera, vermelho, jugular latejando, insistindo em dançar com a atriz e oferecendo bebidas por conta da casa!
- Meninas! Que surpresa! Como foi que vocês me encontraram aqui em alto mar?
- Viemos de helicóptero, respondeu minha irmã, que pegou o espírito da coisa, colocando ordem no galinheiro da primeira classe de uma companhia aérea.
- A festa acabou, pare de cantar ópera e agora tome o remédio e vá dormir.
- Você sempre foi estraga prazeres, borboletinha! Assim ele a chamava e, obediente, deitou.
Deitou-se no chão, na frente da poltrona.
Quando a comissária de bordo apareceu para lhe dizer que aquilo era proibido, ele respondeu firmemente: - Minha filha, estou fazendo este cruzeiro caríssimo e escolho o local onde quero dormir, em minha cabine.
Dormiu onde quis.
Acordou melhor, só que mal conseguia andar.
Minha irmã e eu mortas, sem dormir, preocupadas, servimos de muletas.
Ele se recusou terminantemente a aceitar uma cadeira de rodas.
Pegamos as malas, fazia um frio louco.
Malas de um lado, tio do outro "cambeteando" e aquela sensação de desespero.
Quando um simpático senhor, muito bem vestido, veio até nós, perguntou nossos nomes e apresentou-se.
Meu marido havia dito que o motorista de um grande e querido amigo iria nos buscar no aeroporto.
Eu já havia perdido as esperanças, mas ele veio.
Este foi um dos maiores presentes que recebi na vida!
O tio acomodou-se, encantado com a máquina.
Começou a trocar idéias com o motorista que, amável, dava todas as explicações.
- É um Bentley, tantos cavalos.
Pelas perguntas concluímos que o tio estava melhor, parecia lúcido. Ficamos confiantes.
Já estávamos, pela primeira vez, gostando do percurso. O caminho entre o aeroporto e o hotel, era feio, cinza, interminável e possuia um trânsito caótico!
Ficamos mesmo mais animadas, até que o tio perguntou:
- Escutem uma coisa. O que estamos fazendo aqui em RECIFE?
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Monica às 12:31 PM
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Quinta-feira, Agosto 07, 2003
ESCRITOS ANTIGOS
Ah, que os 15 minutos de fama se foram!
O que restou? Um vazio?
Nananaão! Restaram as pessoas que realmente interessam, que gostam do que aqui encontram.
Amigos!
Do jeito que era antes.
Quem conhece este blog, já leu textos e poesias.
Sabem que nunca postei nada alheio, não por vaidade, mas porque penso que tantos o fazem, tão melhor que eu e... gosto de escrever.
Sabem também que minha mãe fraturou uma vértebra da espinha dorsal e ficou comigo.
Entre descobrir a fratura e tratar da dor, achei de distraí-la com minhas crônicas.
Li todas!
Melhorou, sarou, e hoje ao visitá-la, entregou-me uma carta daquelas que só mãe escreve, muito bem escrita, dizendo do orgulho... coisa de mãe.
Pensei em postá-la, mas não faz parte de mim.
No entanto, descobri escritas que ela fez aos 16 anos... resolvi compartilhar com todos vocês!
Afinal, mãe é mãe!
Puxa vida! Que topada!
Tirei a tampa do dedão!
Sangrou...
Amanhã já não é nada,
nem sinal deixou.
Que virada aconteceu,
nesse mundo dos sábios...
É preciso antibiótico!
Cuidado! Infecção!
Não ande descalça!
Sociedade de consumo,
trouxe consigo muita inovação,
menos o prazer de sentir, nos pés, a terra.
Que faz bem ao coração!
Tive a felicidade de morar no interior.
Andar descalça, correr e tomar rabeira,
de carroça e caminhão!
Era moleca...
Quem teve a felicidade,
de ouvir um carro de boi,
tangendo numa estrada,
levantando um poeirão,
sabe que na cidade,
por mais encanto que tenha,
mais conforto e atração...
Não chega aos pés do caminho,
traçado por um vaqueiro,
carregando sua lenha que com o machado cortou,
nesse carro cantador.
Chegando em casa à tardinha,
com a criançada, o carinho,
confiante...sono limpo...
Porque não traiu...não enganou!
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Monica às 8:16 AM
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Segunda-feira, Agosto 04, 2003
VIAGENS COM MEU TIO
Parte I
Quem não tem ou já teve um tio que é uma figura? Eu tive!
Pensava que era milionário, agia como se fosse e era muito generoso.
Morou nos Estados Unidos durante anos, casou-se com uma americana.
A linda e jovem esposa veio para o Brasil, achou um horror, disse bye bye Brasil e se picou para a terra de Tio Sam.
Essa esposa não conheci, nem era nascida.
Conta-se que ele foi buscar a Scarlet O'Hara e voltou casado com Ava Gardner.
Linda e inteligente, Ava era filha de pai inglês e mãe argentina, belo cocktail, e ela gostava de um, como gostava!
Tomava um dry Martini, very dry, que começava mais ou menos às onze horas da manhã e seguia até a noite.
Elegantíssima, nunca a vi enrolar a língua ou falar bobagens, repetia às vezes o mesmo caso, mas era envolvente e tinha aquele senso de humor inglês, de que tanto gosto.
Um dia Ava partiu.
Cirrose? Complicações renais?
Nada disso.
Foi jogar "bridge" na casa de uma amiga, vestindo um tailleur justo, sapatos de saltos 12 e uma enorme bandeja de docinhos.
A calçada de paralelepípedos, não ornou com os saltos finos e altos, tampouco com o traje e a bandeja.
Tudo isto, aliado a uma casca de banana, o tombo foi inevitável.
Bateu a cabeça e assim Ava partiu.
Deixou saudades, era adorável.
O tio, viúvo e sem filhos, adotou minha irmã e a mim.
Sempre fomos meio filhas, perdemos o pai cedo e o tio sendo irmão do pai...
Um dia ele nos chamou, contou o quanto tinha de dinheiro (não era tanto assim), avisou que nunca pensara em fazer um plano de saúde (grande loucura) e que, se adoecesse, cuidaríamos dele.
- Meu testamento está pronto, é tudo de vocês e tenho dois cheques na cômoda do quarto, assinados. Se eu morrer, retirem o dinheiro.
- Se um dia eu resolver me casar, vocês podem me internar, dizia ele.
Como a palavra tem força e o destino prega peças, ele anunciou que se casaria aos 72 anos com uma senhora de 50 e poucos, ou muitos, Bette Midler.
- Vocês precisam ir até Buenos Aires, reconhecer a firma do atestado de óbito de Ava.Vocês fariam isto?
Concordamos, já sabendo do golpe do baú que a noivinha estava aprontando.
Ele e aquele jeito de milionário!
Ando pensando que minha irmã, fonte inesgotável de inspiração para minhas histórias, está gordinha, é sedentária, viciada em computador e apreciadora de um bom prato.
O que fazer pra ela tomar jeito, emagrecer e fazer exercícios?
A solução é tão simples!!!
Joga-se a bichinha na Calle Florida, Quinta Avenida, Pelourinho, Avenue Foch (endereços não faltam), algum dinheiro em sua mão e acesse um "GO"!
Ela sai que nem uma doida, compra um monte de bobagens e perde vários quilos.
A viagem foi deliciosa, reconhecemos a firma no consulado e voltamos para o casório.
Acho que foi a festa mais hilária que assisti.
Bette Midler se vestiu de noiva, véu e grinalda, buquê de flor de laranjeira (será que queria enganar o tio que se conservara virgem, à espera do bonitão?).
Mistério...
Não se pode negar que Bette era simpática e divertida.
Ligeiramente "over", tentava agradar até o cachorrinho, quando visitava a família.
No fim da festa jogou o buquê!
Foi difícil conter as gargalhadas!
Bette não bebia...mas jogava.
Não sei se o tio apertou o cerco, não deu o que ela esperava e em pouco tempo a espertalhona achou os tais cheques.
Descontou os dois e sumiu!
Sempre me pareceu bizarra a forma que se cuidava da roupa na casa de meu tio.
Absolutamente tudo ia para lavanderia, até guardanapos, nunca se usou tanque ou máquina de lavar.
Ele não teve dúvidas: chamou a lavanderia e mandou que fizessem a mudança de Bette, a ser entregue na residência da senhora mãe dela.
Onde estaria Bette?
Sabe Deus.
O tio generoso era especialista em dar gorjetas e foi com o maior carinho que o pessoal da lavanderia recolheu a mudança.
Linda cena: uma Kombi lotada com os pertences dourados e bordados de Bette, bolsas, sapatos, tudo saindo pelas janelas da viatura.
Depois disso, o tio deprimiu e precisou ir se tratar nos Estados Unidos.
Como só viajou, a vida toda, de primeira classe, lá foi ele.
Minha irmã e eu lá atrás, comendo aquela comida insuportável.
Depois do roubo, ficou completamente atrapalhado.
Sentou-se no avião ao lado de uma atriz global, maravilhosa, e conversava como se fossem vizinhos, não de poltrona, de bairro.
Ela ouviu pacientemente a história do casamento e do roubo.
Tínhamos acesso à primeira classe para levar remédios.
Apavorada, ouvi meu tio perguntar para a linda atriz quem era a moça ao lado. Outra atriz famosíssima!
- É fulana, disse a primeira, alegremente!
- Que bicho feio, respondeu ele!
Tive um ataque de tosse, enfiei-lhe o remédio goela abaixo e voltei, imaginando a quantidade de impropérios que ele devia estar falando.
Ao sentar-se, desabotoou o cinto das calças para sentir-se mais confortável.
De quando em quando, ele vinha nos perguntar algo.
E foi em uma de suas visitas à segunda classe do avião, que avisto uma figura de calças arreadas, andando feito pingüim e de cuecas samba-canção.
- Onde é que vocês estão me levando?
por
Monica às 8:46 PM
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