Segunda-feira, Setembro 29, 2003




ALORS... PROVENCE!


- Como é a Provence? Diga-me logo!
- Ela, então, começou a falar.


Disse que quando pegou a estrada e começou a observar os vinhedos, flores silvestres, estradas pequenas repletas de cedros, pinheiros, carvalhos-anões, rios de águas claras e límpidas, cheiro de anis no ar e aquela luminosidade provençal... seu coração esquentou.


Provence é o lugar de todos os odores, todos os sabores!
Chegou na época da colheita das uvas e os moradores, festejando a qualidade da safra, estavam felizes.


Viu senhores à cata de trufas, que são vendidas a peso de ouro, chamadas de "o diamante negro", pássaros lindos, flamingos e as cidades mais encantadoras.


Conheceu Saint Paul de Vence, Avignon, Cavaillon, Gordes, Roussillon, Cassis, Les Callanques, Grasse, Saintes Maries de la Mer, Arles, Aigues Mortes, Aix em Provence, Bonnieux, Ménerbes.


Encantou-se com cada uma delas.
Cidades incrustadas em pedras nas montanhas, que datam do Séc. I a.C.
A Provence é romana, celta e única.


A primeira coisa que fez foi ir à feira, adorou... nunca na vida vira tantas espécies de temperos e especiarias.
Teve vontade de comprar legumes, frutas, cogumelos gigantescos, aspargos, flores.
Conversou com todos, o provençal é mesmo simpático, fala cantando.


Ficou extremamente impressionada com a importância fundamental que dão às refeições.
A comida é sagrada, sacrossanta e eles pensam nela, como pensam!
Refeições de cinco pratos são corriqueiras: uma terrine de truta defumada, profiterolles de foie gras ao mel, filet en croûte, queijos deliciosos e a mais leve e delicada das sobremesas, uma torta de amêndoas com pera.


Tudo levíssimo, tudo delicioso e tudo regado ao mais divino dos vinhos e com a sobremesa, um petit Muscat ou algum digestif.
Esta é, por exemplo, uma refeição normal, en Provence!


- Devem ser gordos, perguntei.
- Que nada! Ela respondeu. São bem normais!
Se bem que, na opinião do marido, ali tem barrigas fenomenais, de um milhão de euros. Vinhos, trufas, lagostas, carnes, camarões, pães, doces...


- Quem disse que o francês só sabe fazer molhos enlouqueceu, confidenciou-me Ela.


Eles têm a melhor manteiga, os melhores azeites, o melhor sal da Camargue, temperos: os mais ricos e variados, vinhos para todos os gostos, e tudo é muito delicado.


As casas são lindinhas, muitas vezes, uma porta e uma janela antiga guarnecida de lindas flores.
- Prossiga, disse eu, muito interessada.
- Provence é um estilo de vida. Um estilo a ser copiado.


Não querem muito, andam a pé ou de bicicleta, têm uma casinha, comem bem, não gostam tanto assim de muitos turistas, a alta temporada os aflige um pouco. Plantam e colhem.
Sabem que tudo é lindo, cuidam daquilo que têm com esmero e celebram a vida!
- Isto tem um nome: dignidade! E não é assim que todo ser humano deveria ou mereceria viver?
Uma casa para morar e "aquelas" três refeições diárias estariam de bom tamanho, não precisaria ser foie gras e terrines.


Ela concordou e seguiu falando...


- A sesta é sagrada, não se atreva a ir a algum restaurante às duas e cinco ou às dez horas da noite, a cozinha estará fechada.
Às duas horas tudo fecha, inclusive os restaurantes. Eles têm que se reposer.
- Fecham então para o almoço e para o jantar?
- É, se bem que é difícil resistir até as duas.
O cheiro de jasmim, mimosas, lavanda, anis é substituído, lá pelas onze horas, e um aroma divino de salsinha, tomilho, estragão, dill, sálvia, gengibre, alecrim, azeite e manteiga, tomam conta do ar.


A cigarra é o símbolo de toda região.
Tem cigarra de louça, de madeira, barro, pedra, cerâmica.
Curiosa, perguntou a uma pessoa o porquê de tanta cigarra.


Diz a lenda que um padre forasteiro, muito impressionado com tantas horas de repouso e sono, importou cigarras para acordar os habitantes.
Ela traz sorte!
Provavelmente, o maior responsável é Monsieur de La Fontaine.
A carga horária é a metade da nossa, mas quando trabalham, dão duro, são como formigas; quando descansam, são cigarras.


Festejam absolutamente tudo: fête du vin, fête du citron, fête du riz; são festas populares onde cantam, dançam, tomam pastis e se divertem.


Descobriu, encantada, que muitos de seus ídolos escritores, moraram na Provence: Hemingway em San Raphael, Albert Camus em Lourmarin, Somerset Maugham em Cap Ferrat, onde fixou residência até morrer.
Morreu feliz, muito provavelmente!


Ela não saberia dizer de onde mais gostou, gostou de tudo!


Igrejas e abadias as mais lindas, castelos, campos de lavanda.
Em Grasse, a capital mundial dos perfumes, foi à Fragonard, casa onde se fabricam, os melhores perfumes do mundo.
Acompanhou passo a passo, desde a colheita das flores até o fabrico da mais delicada essência.


Fazem perfumes para Dior, Channel, Kenzo, além do próprio.
Viu os frascos de Nefertite e Cleópatra, passando por laliques art deco e nouveau, até os mais atuais.


O nez du parfum é a pessoa que distingue todos os cheiros, trabalha três horas por dia, não bebe, não fuma e não come nenhum tempero.


- Quanto deve ganhar um "nariz" desses?
Ela não sabia.


Continuou...


Roussillon fica no alto de uma montanha e é inteira ocre.


- Não é monótono? Uma cidade inteira da mesma cor? perguntei.
- É a coisa mais linda do mundo, é o ápice da harmonia e bom gosto.


Os tons variam do amarelo vivo ao vermelho escuro.


Por estradinhas pequenas, esquecidas do mundo, descobriu lugares fantásticos.
O ideal deve ser conhecer tudo de bicicleta ou mesmo a pé.


Aigues Mortes é uma cidade plana, cercada de muralhas medievais.
Tem-se a impressão de estar dentro de um livro.


Gordes é de perder o fôlego de linda!


Entre Cassis e Marseille, ela passou pelas Callanques, um dos espetáculos mais majestosos que já vira em toda a sua vida.
O mar é rodeado de fiordes, massivos de quatrocentos metros de altura.


Pedras brancas, que só Ele conseguiria desenhar, o maior arquiteto de todos.
As pedras terminam em pequenas enseadas fechadas como lagos, tomando diferentes formas.


Lugar lindo, misterioso...


Em direção a Cavaillon está o Museu da Lavanda.


São quilômetros de plantação de lavanda arroxeada, o perfume passeia junto com o visitante, e o Museu é interessantíssimo.


Na linda Ménerbes ela não teve dúvida: parou em um café, pediu licença e perguntou a um senhor de jeito simpático, onde era a casa do escritor Peter Mayle.
- Pegue a estrada em direção a Bonnieux, passe o campinho de futebol, et voilà, é a segunda casa à direita. Não mora mais aqui, disse monsieur.


Ela sabia, mas queria conhecer a casa.
O inglês tem bom gosto, pensou, a casa é sensacional.


A maior expectativa era Arles, cidade onde viveu Van Gogh, sua paixão.


Morou por quinze meses e pintou mais de trezentos quadros.
A cidade é muito interessante, com sua arena romana, suas termas, suas touradas.


Existe o espaço Van Gogh, onde estão várias obras do pintor, além das famosas cartas que trocou com o irmão Theo, falando de sua insanidade e inquietação, suas desavenças com Gauguin.
Nem a paz e a tranqüilidade provençal conseguiram acalmar o coração de Van Gogh, um gênio incompreendido que vendeu um único quadro enquanto viveu!


Parecia faltar um algo mais sobre o pintor, sua casa, por exemplo, destruída há anos...


Por outro lado, em Aix en Provence, Ela foi ao atelier de Paul Cézanne.


Fica no alto de uma rua, de onde o artista podia ver o vale, além da cidade, que é magnífica.
Subindo as escadas, a sala onde ele pintava e passava seus dias está fielmente conservada.


Sua poltrona, mesa e cadeiras, tintas, palhetas, capa de chuva e sobretudo pendurados.
Uma garrafa de vinho e algumas frutas sobre a mesa.
Um enorme cavalete, um menor, uma cômoda de seis gavetas.


Ela foi acometida de uma emoção indescritível, um nó na garganta, uma sensação de dejà vu.


Estava profundamente emocionada!


Talvez tenha andado por ali em outras vidas, quem sabe?


Ao descer as escadas um enorme jardim, repleto de árvores e flores, a mesa e cadeira em que ele tomava café.
Uma cabana simples ao lado, com bancos de madeira, apresenta uma sessão de slides, que retratam a vida de Cézanne.
Um narrador, fazendo-se passar por ele, diz:
- Aqui eu vivi, aqui pintei tal e tal quadro.
Às tantas o pintor comenta:
- Zola disse que, como pintor, sou nulo. Talvez eu seja!


Estudaram juntos, foram amigos, mas Émile Zola perdeu uma grande oportunidade de ficar quieto.
Estava errado!
Cézanne foi grande!


Saiu do atelier empolgada.


Passou um quarteirão, Ela leu: Casa de Repouso de Paul Cézanne.
Quis visitar, saber onde o artista viveu seus últimos dias!
- Vamos até lá, disse Ela ao marido.


Em um portão de ferro preto com medalhões dourados, lia-se: ao aproximar o veículo, o portão abre automaticamente.
O marido comentou que a construção era um tanto moderna!


- Devem ter reformado, Ela sugeriu, excitadíssima com a expectativa de conhecer a casa onde o pintor passou seus últimos dias.


E foi num misto de desapontamento e gargalhadas que se encontraram dentro de um asilo!


Desligada Ela colocou um "de" onde não existia. Casa de repouso Paul Cézanne e não de Paul Cézanne.


Ela... sou eu.


Pessoa aérea, que precisa aprender a ler melhor, seja lá em que língua for, para melhor escrever!


Escrevo com o coração: amei cada minuto dessa aventura!



Quarta-feira, Setembro 24, 2003




PROVENCE


Ela detesta fazer malas, é capaz de colocar tacos de golfe, sapatilhas de balé e esquecer-se da escova de dente.
Contudo, desta vez era por uma boa causa: ia conhecer a Provence!


Desde que lera o escritor inglês Peter Mayle descrever Luberon e Camargue, como uma carta de amor, decidiu-se: Vou conhecer os cheiros, a paisagem, o povo deste lugar!


O trânsito estava bom, chegou cedo ao aeroporto, fez o check in e foi para o lounge da Cia. Aérea, munida de um livro de contos, de Rubem Braga.
Tinha tempo, eram 6:30 e seu vôo seria às 7:30. Serviu-se de um copo de vinho, algumas castanhas e começou a se deliciar com o livro. Deleite que durou aproximadamente 10 minutos.


Uma jovem e linda senhora sentou-se na mesa ao lado, junto com a filhinha de seus cinco anos.
Uma linda menininha de olhos azuis que falava alto e comia como uma draga.
Misturava frituras, frutas, sanduíches, bolinhos, mais frutas e tinha aquela vozinha de criança mimada, que irrita qualquer pessoa irritável.
Entre o comer e o falar a bichinha cantava, levantando os braços. A cantiga não vigorava certa, nem no tom, nem no dizer das palavras, era esganiçada.
Um garçom solícito trouxe um punhado de caramelos, provavelmente na esperança de que a linda pentelhinha se calasse; em vão.
- Pegue só cinco, disse a mãe.


Pasma Ela começou a pensar: como algumas, poucas amigas, em sua faixa etária, se aventuravam a ter filhos?
Ela não teria mais a menor paciência.


Como seria Ela, então, como avó? Não saberia dizer.
Há de ter, provavelmente, os netos mais mimados do mundo, para pagar a língua, como se diz.


Entrou então na sala uma senhora opulenta, trajando um terninho de risca de giz, com mais ou menos dez zíperes, adornando a vestimenta.
Para que tantos zíperes? pensou Ela.
Que estilista de moda criaria um modelo assim, em sã consciência?
Será que a tal senhora nutria a esperança, de que alguém os abrisse todos, um a um, e passasse a mão em sua notável silhueta?
Usava uma linda e caríssima bolsa, que nem se deu ao trabalho de colocar em uma poltrona ou sofá.
Avançou diretamente para o bufê e, com artística lentidão, devorou uns oito sanduíches.


Rubem Braga teria que esperar, visto que, grande fã de observar a natureza humana ou psicologia comportamental, encontrava-se embevecida a apreciar, tanto a voracidade da senhora, como da garotinha cantora.
Neste ínterim, entrou na sala a "parentela" de Sadan Hussein, todos bigodudos e falantes.
A esta altura Ela folheava uma revista Elle, conformada com Rubem Braga sobre a mesa.


Embarcou... e o vôo cansativo, porém tranqüilo, possibilitou o término do livro.
Desceu em Paris a tempo de atravessar a pé o aeroporto, para fazer uma conexão até Nice.
Obviamente, chegando em Nice com uma única nota em euros, não tinha como pagar um carrinho, em centavos.
Cansadíssima, usou seu charme e a pronúncia francesa, conseguindo assim um carrinho, como cortesia.
O marido estava à espera, com um carro alugado.
Partiram então, para sonhada viagem.


Em Nice, a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o Hotel Negresco.
Lembrou-se imediatamente de um livro, que se tornou um filme, protagonizado pela divina Melina Mercouri.


Ministra da Cultura na Grécia, nos anos 80, Melina foi ativista política, lutou contra a Resistência, além de ter sido uma atriz excepcional.
Depois de sua morte, uma Fundação foi criada por seu marido, Jules Dassin, que imortaliza sua figura forte e charmosa.


O Negresco não tem onde ser mais "over".
É cafona, kitch, com suas paredes forradas de veludo vermelho, um negro de lajotas coloridas na entrada tocando sax, vários "black amour" enfeitando cada canto, pianos de cauda; a overdose é tamanha, que empresta um charme interessante ao Hotel, Ela conjeturou.


Nice é bonita, Monaco linda e bem tratada, afinal um principado tem de ser.
Lá, lembrou-se de Grace Kelly e Cary Grant em "To Catch a Thief".
O mesmo percurso feito pelo casal no filme, ao fugir da polícia pela Riviera Francesa, foi a estrada na qual, 27 anos depois, Grace de Monaco sofreu o acidente fatal.
A inesquecível Grace Patrícia Kelly.


Cannes tem seus encantos: Le Palais des Festivals et des Congrès, o glamour do cinema, ver as mãos de Mel Gibson, Catherine Deneuve, Alain Delon, e tantos outros.
Sem contar as lojas belíssimas. Lá, Ela bem que fez umas comprinhas!


Antibes é linda, para amantes de barcos.
Na verdade para Ela tanto faz jangada, bote, chata, lancha, transatlântico ou iate.
Foi, no entanto, o lugar onde viu os barcos mais lindos do mundo.


Em Antibes olhou para o mar e pensou que os 8.000 quilômetros de praias brasileiras não existem em lugar nenhum do mundo.
Os próprios europeus admitem!
As praias têm pedras, aquela areia escura batida... mas a cor do mar é excepcional!


E a Provence?
Ela me confidenciou que já falara demais!
Isto é uma outra história, que fica para uma outra vez.
Pensei em Monteiro Lobato!

"To Catch a Thief " ou "Ladrão de Casaca" - Filme de Hitchcock rodado em Monaco.
"Isto é uma outra história que fica para uma outra vez" - Citação feita constantemente, por Júlio Gouveia, apresentador do primeiro Sítio de Pica-pau Amarelo (que ficou no ar de 1952 a 1963), de Monteiro Lobato, na Tv Tupi.




Segunda-feira, Setembro 22, 2003




ROSAS


Voltar é sempre uma luta! Colocar a casa em ordem, rever ou ler os amigos, sem contar que demoro a me adaptar aos fusos, acordo às 5 horas da manhã, tudo muito atrapalhado.


Fiz uma linda viagem, que vou contar a todos, muito em breve.


Assim que cheguei, recebi a notícia que o selo da GNT estava pronto para ser linkado ao blog.
Imediatamente recorri a quem? Minha adorável irmã... que não conseguiu fazer o link e perdeu os comentários do último post.


Quero agradecer a escrita entusiasmada da Cacau, a simpatia de Deize, as lindas palavras da Marina, Fernanda sempre perfeita em suas colocações.
A Moça... desconfio, me deu parabéns pela indicação do blog no GNT, "indicação mais do que merecida", disse ela.
- Textos e poesias lindas, Mônica faz e ainda nos leva junto. Como gosto docê! Acredito que nunca deixamos escapar o que somos, em nossas "escrevinhações"; esta é a linda Giniki.
"E a Pipa não é o tempo, bailando diante de nossas expectativas, lindo e tênue como a corda que nós o damos?" Aqui quebro um pouco a cabeça, mas tenho um palpite.


E por que estou eu a transcrever comentários perdidos?
Para falar de flores, vivo cercada delas.
Rosana-Rosa, minha irmã, ao errar a colocação do selo me deu a chance de conhecer outra Rosa, a Meg do Sub Rosa.
Como um anjo, já se fazia tarde, ela devia estar cansada, incansável, Sub Rosa imediatamente, sem ligar para o tempo, deu-me todas as instruções.


Em vão, a primeira Rosa ainda não conseguiu.
Mas conseguiu algo muito melhor, deu-me a chance de fazer uma amiga e das boas, pessoa especial, com um lindo blog e com a mesma indicação. Ah,que esta Rosa eu não perco de vista não!


Só me restava apelar para a terceira Rosa, a doce e querida Rossana Fischer.
Rosa Fischer colocou o selo em segundos e ainda pudemos conversar. Com sua doçura começou a explicar...devo ter tomado seu tempo, ela nem se importou, alma fina, gente boa.


Sou muito afortunada!
Meu jardim é lotado de flores, as mais lindas que existem, tenho um canteiro, e não estou esquecendo de regar as flores que sempre aqui vêem.


E as três lindas rosas? Moram dentro de um vaso, do mais puro cristal, que se chama coração.



Domingo, Setembro 21, 2003




PIPA
Post do dia 30/05/2003

Obs.: A Mônica está chegando... e com ela, certamente, novos textos fantásticos.

UPDATE: Gente, sem querer deletei este post da PIPA... e acabou que os comments (eram 7), foram juntos! Vejo os comentários, mas não consigo saber de quem é. Peço desculpas à estas 7 pessoas e peço que se possível, coloquem novamente. Adorável irmã, rumo à guilhotina.


Correndo, sem tempo, apressada.
Tenho a sensação pouco agradável
de brincar, de nunca ter tempo.
De deixar para tudo fazer no último momento!
E ele, que não é amigo ou camarada,
passa, voa, leva, arrasta
nossas vidas, nossos sonhos, nossos dias.
Sem nenhuma piedade.
Orgulhoso, devasta contumaz.
Mas as lembranças não nos rouba,
disto não é capaz!


O tempo anda mudado.
Resolvi para ele olhar
e o que vi me fez mudar.
Dele tornei-me amiga,
não era mais sua vítima.
Linda, jovial, colorida,
no céu pairava uma pipa!
Voltei logo ao passado,
lembrei das pipas que fiz,
de todas que empinei.
Dava-lhe corda, e mais corda,
e a pobre não entendia
que a minha mercê ficaria,
aceitando a corda que vinha.


Fiquei amiga do tempo,
agora podia passar.
Tinha a pipa para observar.
Doces lembranças, memórias.
Estórias para contar!
E mais este lindo momento,
generoso o tempo me dava,
a bailarina de papel no céu a dançar!


Fiquei amiga do tempo,
podia agora passar...
Tinha era inveja da pipa,
leve, fugaz e volúvel,
bailava por todos os cantos,
plena de caprichos e encantos!
Quem me dera ser a pipa...
Ela podia voar!



Terça-feira, Setembro 16, 2003




A PRAIA
Post do dia 14/04/2003


Obs.: A Mônica ainda está viajando e só deve voltar lá pelo dia 20/9. Mas, como ela disse no post do dia 08/09, eu, a adorável irmã, vou postar algumas crônicas antigas, ok? Divirtam-se!


Paulista é doido por mar!
Branco escritório desce... (descer para muitos significa ir à praia). Apesar de ser a 1 hora e pouco de São Paulo parecem 5, tamanho o trânsito, a fila, o ferry, etc.
Alguns vão de ônibus, outros de Expresso Zefir (será que ainda existe?)...
Já fui pra Santos de expresso Zefir. Era um carro de aluguel, tipo táxi, que dava um pouco de vergonha, pois vinha escrito em letras garrafais EXPRESSO ZEFIR.
Outros vão de carro, claro que lotado.


Gente simples tem uma concepção de família diferente; família é todo mundo: cunhado, sobrinhos, agregados, tios, tias velhas...
A mais bonitinha tem 78 anos e os peitos batem na cintura.


Chegam à praia!!! Que delícia!!
Sol, mar, calor, água de coco, garapa (socorro), pastel ou pastéis como bem diz o paulista e isto é o que compram, pois o que levam...
Ai, é muito mais lindo... O famoso frango, farofa e outros acompanhamentos e guarnições.
O refrigerante é um tipo Tubaína ou coisa assim.
Adoram também chupar laranja. Suco de laranja não serve, tem que "cascar", chupar e comer o bagaço... Hummm! Como é bom. Deus sabe onde vão parar as cascas, e eles adoram...
A farofada acontece, se divertem, se fritam, jogam frescobol, olham as bundas do mulherio e vão pra casa que ninguém é de ferro! Casa minúscula, diga-se de passagem, porém limpinha e acolhedora, cheia de beliches e bibelôs.
As tias velhas se misturam às crianças e é claro, não pode faltar a cunhada reclamenta e o cunhado mulherengo e beberrão. Aquele que se entope de cerveja e então acha que bebida fermentada empapuça e não dá barato.
Sendo assim parte para caipirinha e termina mesmo no Dreher ou numa boa 51.


Conclusão da estória: acaba capotado no sofá de curvim (aliás, o único da casa), impedindo que as crianças vejam a delícia do Zorra Total ou qualquer cretinice no gênero.
O mencionado cunhado baba, ronca, fala dormindo e que ninguém encoste nele, o bicho dá coices!
Acaba acordando com a voz estridente da mulher ou da sogra dizendo... "Nenoooooooo!!!!!!! vá comprar "pão e uns frio", tá na hora do lanche das criança ( paulista consegue por o plural na primeira palavra e engolir o da segunda).
O Neno de ressaca, mau humor, tenta levantar mas está todo grudado no sofá de curvim.
Lógico... dormiu, sonhou, roncou e com o calorão e o suor, grudou no sofá.
Detalhe: Neno passou 5 horas debaixo de um sol de 40 graus e acha que protetor solar é coisa de bicha velha.


Como diz o chato do Faustão, o Neno está um camarão, todo grudado e ouvindo a voz da sogra ou da mulher que parece uma banda de coreto de interior em seus ouvidos.


Para não criar caso Neno resolve ir comprar os pão (um) pro lanche das criança (todo descendente de italiano fala assim).
Pra que plural? Na Itália basta colocar um i e o problema está resolvido.
E quem, em Sampa, não tiver uma gota de sangue italiano que atire a primeira pedra!


O problema é levantar do sofá!
O corpo grudou, a banha colou e o camarão grudado faz creck, creck, creck (arrancando metade do couro (da pele), porque o sofá é de plástico mesmo).
A pele do Neno é branca, descendente de italiano do Norte, não da Baixa Calábria, se considera chique.
A essa altura ele se dá conta de que está em bolhas, mas vai comprar os pão e os frio.


Sai de casa, e dá com a visão do inferno...
As tias (aquelas se lembram, que a mais bobinha tem 78 e os peitos vão até a cintura?) estão, neste momento, por causa do calorão, tomando banho de esguicho.
Tirando as areias de Santos, Boqueirão, Praia Grande e São Vicente.


O nome da praia e da cidade mudam, mas as areias são iguais, grudam...
Aquela mais bobinha (a mais nova) está lavando a xoxota. Precisa tirar a areia dos "peito" também...
E Neno se depara com esta cena! Logo ele que é fã da Gretchen, Eliana, até da Sheila Carvalho.
A tia mais idosa (92) se ocupa da mesma função, chiquérrima lava a perereca e para tal, puxa o maiô de ladinho e com a mão vai tentando tirar a areia, check, check, distinta a tal senhora.


Neno entra em depressão, consumido de tristeza e uma certa ressaca, ruma em direção da padaria, mas algo lhe vem a mente, talvez a visão das tias, quem sabe?


Só Nelson Rodrigues poderia explicar, mas o fato é que Neno vai até o cais, pega uma puta, pede uma 51 (ótima idéia) e só volta na segunda à tarde!



Quinta-feira, Setembro 11, 2003




TIAZINHA
Post do dia 17/06/2003


Obs.: A Mônica ainda está viajando e só deve voltar lá pelo dia 20/9. Mas, como ela disse no post do dia 08/09, eu, a adorável irmã, vou postar algumas crônicas antigas, ok? Divirtam-se!


São Paulo e, por que não dizer o Brasil, têm uma dívida de gratidão imensa com uma figura importantíssima, chamada Yolanda Penteado.
Ela foi, sem dúvida nenhuma, uma grande personalidade.


Amante das artes, Yolanda ajudou a transformar São Paulo, a capital provinciana do início dos anos 30, em um dos centros culturais mais importantes do mundo.
Sim, porque até então o Rio, capital da República na época, era o palco das artes.
Tudo acontecia na "corte", ou melhor, na capital.


Eis que surgiu, no cenário paulistano, Yolanda Penteado.
Mulher linda, charmosa, dona de um sorriso irresistível e muito carisma!


Filha de fazendeiros, herdou a fazenda Empyreo que foi berço de acontecimentos incríveis na sociedade paulistana, além de ser um verdadeiro paraíso.


Tia Yolanda foi casada com Jayme Silva Telles, não por muito tempo.
Teve um romance com um "marchand" francês, o que talvez tenha aumentado seu amor pela arte, e finalmente casou-se com Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo, como era conhecido.
Fizeram, assim, o par perfeito.
Ambos apaixonados por São Paulo e por todas as manifestações artísticas.


Yolanda ganhava, como "lembrancinha" de Ciccillo, "O Cavalo" de Marino Marini, escultura adquirida por ele pouco antes de receber o prêmio na Bienal de Veneza em 1948.
De aniversário ganhava "O Auto-retrato" de Modigliani.


E a casa do casal respirava arte, eles respiravam!


Resolveram, em 1948, criar o Museu de Arte de São Paulo, o MAM, para que todos pudessem respirar arte.
Criaram o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), a Escola de Arte Dramática, A Vera Cruz Produções Cinematográficas e o Museu de Arte Contemporânea (MAC) na USP em 1963.


É interessante entrarmos hoje no Museu, que passou por algumas reformas e está lindo, e lermos todo o tempo: "Doação de Ciccilo Matarazzo e Yolanda Penteado".


Entre todas as iniciativas, a principal contribuição à cultura do País foi, indiscutivelmente, a criação da Bienal de Arte.
E foi aí que entrou a encantadora Yolanda Penteado.


O Brasil, depois da Semana de Arte Moderna, era cubista, modernista, futurista.
As esculturas recusavam-se a permanecer estáticas, pareciam querer sair do lugar, voar.
E a Bienal foi criada!


Tínhamos pintores, escultores magníficos como, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Volpi, Di Calvacanti, Flávio de Carvalho.


Mas havia um detalhe: a mostra precisava de artista europeus...
Que artista viria ou mandaria obras de arte de suma importância para um lugar como o Brasil, desconhecido política e artisticamente do mundo, em 1951?


Yolanda partiu para a Europa, onde convidou pessoalmente os artistas.
Encantadora, culta, muitíssimo bem relacionada, refinadísssima, chiquérrima, Yolanda conquistou a Europa e graças a ela a Primeira Bienal foi um enorme sucesso.


Tanto assim, que para a segunda O MAM tornou-se pequeno e o "mestre de obras" Oscar Niemayer e o "jardineiro" Burle Marx (ouvi alguém chamar Burle Marx de jardineiro e adotei), a pedido do casal, projetaram no Parque do Ibirapuera os edifícios e os jardins da Bienal.


A segunda Bienal recebeu "Guernica" de Picasso, obras de Paul Klee, Mondrian, Brancusi, Edvard Munch e muitos outros.


E vem sendo um sucesso desde então.


Todos os eventos e instituições culturais paulistanos tiveram a mão ou a marca de Yolanda e Ciccilo.


Yolanda encantou Santos Dummont, correspondia-se freqüentemente com Picasso, escreveu um livro chamado "Tudo em Cor de Rosa", que foi prefaciado por nada mais nada menos que Sérgio Buarque de Hollanda, foi retratada por Di Cavalcanti...


Interessante essa tia?


Lembrei-me de que ela morria de medo do comunismo.
Resolveu então, na frente da Fazenda Empyreo, abrir o Rancho Empyrio e uma padaria.
Caso o comunismo se infiltrasse no Brasil, ela teria uma profissão, seria padeira!!
"Contratou um padeiro português, apaixonou-se por ele, deixou o bigode crescer, ficou a cara do pai e foi morar em Trás dos Montes, levando toda a discografia do Roberto Leal!"


Mentira!!!


Montou mesmo a padaria e o Rancho.
Morreu aos 80 anos, por volta de 1983.
Em homenagem a ela a revista Vogue dedicou uma edição inteira.

Minha querida amiga Fifa,
eu tive minha tia Fifa, sua xará, e você teve a tia Yolanda.


Não tenho nada contra a mocinha mascarada, que é até bonitinha!
Mas convenhamos... cada um tem a "tiazinha" que merece!


UPDATE: Em Janeiro ou Fevereiro do ano que vem, não estou bem certa, haverá uma mini-série escrita pela Maria Adelaide Amaral, em comemoração ao aniversário de São Paulo, cujo personagem central será o da Yolanda Penteado.



Segunda-feira, Setembro 08, 2003




ATÉ A VOLTA!


Queridos amigos,

Este post é bem curtinho!
Estou tirando umas férias.
Dez ou quinze dias... mas, conto com a visita de todos vocês.

Minha adorável irmã vai postar a cada três ou quatro dias, uma crônica antiga, do tempo que a maioria de vocês não me conhecia.

Aos amigos, peço sinceras desculpas e prometo que na volta, visitarei todos vocês.

Parabéns Josy, tudo de bom!
Feliz aniversário Júlia, felicidade!
Cacau - Idéias e Razões - você foi minha visitante número 10.000!
Embora o counter tenha quebrado, considero você.

Se quiserem ler coisa muito boa, sugiro dois blogs: O Professor do Futuro e Ler, Pensar e Escrever.

Agora me abstenho de citar nomes, preencheria uma página, mas nada me impedirá de sentir saudades, sejam elas virtuais ou não!

Um beijo carinhoso da

Mônica



Quinta-feira, Setembro 04, 2003







Já fui louca pelo Zé!
Eu, que não gosto de me expor tanto assim admito: já fui pra cama com ele.
E não foi uma vez só, foram inúmeras.
Não me arrependo... gostava dele, e tudo que é feito com amor, merece perdão.

Zé nunca foi bonito, é gordo, mas tem charme, é um sedutor!
Quem foi que disse que homem tem que ser bonito e quem foi que disse que não tem?
É um atrativo a mais... como ser inteligente, e isto ele é.

Falastrão, engraçado, rápido no gatilho, respostas imediatas, engraçadas e brilhantes.
Mulheres costumam gostar de homens que as façam rir, o Zé sempre me divertiu.

Dono de todas as línguas, brinca com palavras, sejam elas em francês, inglês, italiano, alemão e outras.
Acredito que um tanto narcisista, nunca quis ficar por fora do assunto, aliado ao talento nato.
Mas o que nos é ofertado gratuitamente não deve ser motivo de elogios. São dons e Zé os tem de sobra.

Por vezes conduz a conversa, com sua peculiar inteligência, para demonstrar o próprio conhecimento.
Politicamente é correto: se estiver conversando com alguém humilde, ouve; se for alguém que admire, fica atento. Mas, se achar banal, corta.
Perde assim a oportunidade de ouvir gente boa, que tem algo sério a dizer e que, muitas vezes, não é absolutamente desinteressante, como parece a princípio.
Pessoas precisam de tempo...mas tempo vale ouro, o ato de ouvir também.

- E agora, José?

As fraquezas de uma pessoa nascem de suas forças.
Sua maneira de ser, por vezes arrogante, nasce de sua inteligência, de sua memória invejável, do ponto em seus ouvidos, que sabe usar tão magistralmente, de sua equipe.
Tem bom gosto, não há que se negar!

Assisti numa ocasião uma cena que jamais vou esquecer.
Ele já falou sobre o episódio, ao vivo.
Estávamos nos Estados Unidos.
De longe avistei uma senhora opulenta, aos gritos:
- Gente! É ele, é ele, venham ver!
A madame se espremia e colocava as mãozinhas gorduchas na região pubiana (gordinhas têm mãos bonitas, cheias, sem rugas ou veias). Então ela se contorcia e berrava:
- É você, não é? É você mesmo?!
- Sou eu, José respondeu.
- Bolinha!! Disse a senhora emocionada, ameaçando um forte abraço!

Nem Bolinha, nem Letterman, não é, José Eugênio?

O formato Letterman não é necessário!
Você é melhor, muito mais engraçado!
Acontece que Letterman possui a qualidade de entrevistador, concede ao entrevistado o privilégio de se sobressair.
Sei que é mais difícil para o Zé, afinal é um show-man!
Por isso é imbatível num palco!
Mas... como diria Jack Lemon em "Some Like It Hot" (Quanto Mais Quente Melhor):
- Nobody is perfect!

E devo admitir que já fui louca por ele e, até hoje, não vou pra cama sem o Jô!




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