Quinta-feira, Outubro 30, 2003




NOITE DE AUTÓGRAFOS


Faz algum tempo recebi, de uma pessoa muito querida, o encaminhamento de um e-mail que oferecia aulas de literatura virtuais.
Desconfiada, porém interessada, enviei um e-mail pedindo mais informações e detalhes. Afinal, eu nunca tinha ouvido falar no tal professor virtual, e louco não falta nesse mundo fascinante e perigoso chamado Internet.
Apelei para o "santo" Google, cliquei o nome do professor e... Alacazam! Mais de trinta páginas se abriram.


O professor é Mestre em Literatura pela USP, Doutor em Filosofia, palestrante, professor universitário, coordenador pedagógico, autor de vários livros. Li inúmeros textos deliciosos e decidi fazer o curso, que consistia em dez aulas virtuais.
Trocamos experiências literárias, ele pediu-me um perfil, perguntou que livros eu havia gostado de ler, quais relera e, a partir daí, discutimos os autores, estilo, idéias e razões.


O curso não ensina a escrever, nem corrige pontuação. São longos bate-papos e sem sombra de dúvidas tenho comigo os e-mails mais bonitos e bem escritos que já recebi, em todos os sentidos.


O professor é um poeta, fã de Machado de Assis, como eu.
Trata a língua portuguesa com respeito, melhor, com uma impecabilidade de dar inveja a José de Alencar.
Criamos uma certa amizade, formal.
Os e-mails começavam sempre: "Cara aluna" e terminavam invariavelmente: "forte abraço".
Estávamos já no final do curso, e ele estava demorando a enviar as últimas aulas.
Provavelmente a título de desculpas, comentou estar preocupado.
A esposa está à espera do quarto filho e isto encheu seu coração de alegria e muita preocupação, trabalho dobrado.
Coloquei-o totalmente à vontade para que terminássemos, quando ele estivesse mais tranqüilo e com tempo.
Posso dizer sem medo que essas aulas foram um marco em minha vida.


Soube que o professor estaria lançando um livro e, à base da chantagem, convenci minha irmã a me acompanhar.


Lembrei de um texto de Martha Medeiros, no qual ela discorre sobre a decepção e "saia justa" ao conhecermos amigos virtuais.
Acreditem se quiserem, sou tímida.
Dar de cara com o professor me encheu de vergonha, carreguei a mana a tira-colo, que foi a reclamar do trânsito, do carro, de tudo.


Depois de uma hora de marginal lotada, chegamos à livraria.
Olhei da vitrine e o que vi me deixou boquiaberta!
Não poderia ser o meu seriíssimo professor.
Um senhor de barba (o professor usa, vi na contra-capa de um livro seu) mais ou menos 1.60 de altura (estou sendo benevolente, ele devia ter 1.58) portava um Palazzo Pijama de cetim negro, babuchas nos pés, gordíssimo, falava ao celular:
- Ai, Gin, já vai começar! Está tudo chiquetérrimo! Beijussssss.


Não podia ser meu professor, apesar da figura ser interessantíssima!
Pensei em Martha Medeiros novamente.
Nada combinava e eu me gabo de ser excelente conhecedora da natureza humana, raramente me enganei, mas nada parecia encaixar!


Completamente aturdida entrei na livraria, não sem antes checar o nome.
Estava certo, bem como dia e hora.


A criatura desligou o celular e sacou um leque (repito: leque) do bolso do elegantíssimo conjunto de cetim e começou a se "lequear".
Meu professor não usaria a expressão chiquetérrimo, muito menos consigo enxergá-lo se abanando com um leque de cetim estampado de flores e rendas rosa choque.
Corrupiava feito borboleta, a verificar os salgadinhos, bebidas, disposição dos livros.


Pasma, olhar catatônico e sem jeito, entrei grudada em minha irmã.
- Boa noite, professor, falei.
- Nãoooooooooooooo, você veio? Não acredito! Você não sabe como me deixa feliz, não esperava que você viesse me prestigiar!
- ?
Dois beijinhos.
- Tá com um jeitinho assustado, Mona!
Garçom, faça o favor, um cálice de vinho branco aqui pra minha ídola!
- Professor...
- Páaaaaaaara de me chamar de professor, tá louca? Vem ver o livro, diga se gosta da capa. Tô nervosíssimo! Medo, medo de ser gongado, sabe?! Até parece que é meu primeiro livro!


E o leque comendo solto, de vez em quando ele dava uma "lequeada" no meu rosto!
Meu queixo estava nos pés. Minha irmã, ... não sei se já comentei, mas ela é adorável... bem, eu nem pensava em encará-la, teria um acesso de risos.


Já havia relaxado, dei uma de Pollyana, comecei a olhar o lado divertido.
Marota, estava adorando, comi um salgadinho delicioso com gosto de cacau, e comecei a pensar:
Pronto, a ficha caiu, a quarta gravidez da esposa Leila, afetara a hipófise do teacher e ele simplesmente resolveu ensandecer, soltar a franga, usar pijama de cetim preto, leque. Resolveu assentar arraiais alhures. Mudar de comportamento.


Ao olhar o livro tive um choque. Prateado e com os dizeres: "Fashion e Interior Design".
O livro cujo lançamento fui chama-se "Filosofia, Literatura e Ética".
Algumas pessoas se aproximaram e aproveitei para perguntar o nome do escritor e o preço do livro de 60cm de comprimento e 600 páginas.
O livrão, daqueles que se colocam na mesa de frente de um sofá, era de muito bom gosto e custava a bagatela de 200 reais.


Obviamente, Milton Della Rubia nunca foi meu mestre.
Ele me confundiu com alguém de quem gosta e provavelmente não via há algum tempo.
Completamente aérea fui ao local errado.
Sai de fininho.
Desta vez não tive culpa, tampouco sou totalmente insana.
Como poderia imaginar que em um espaço, existam quatro livrarias com mesmo nome!


Meu professor estava na livraria da frente, formal e muito simpático.
A fila de autógrafos era um mar de gente.
Recebeu-me com um grande sorriso e escreveu uma linda dedicatória.


No caminho de volta, tinha forçosamente de passar em frente à livraria homônima. Apertei o passo e ouvi:
- Onde você pensa que vai? Volte aqui.


Era Milton:
- Estou tomando um pouco de ar, tá meio abafado.
Claro que a frase desencadeou a abertura magistral do leque, parecia uma dançarina de sevilhana... e me abanava.
De braços dados, entramos e eu já branca... teria de adquirir o livrinho; a pechincha de Della Rubia.


Fui até o balcão, peguei o livro.
O ultra-simpático e amoroso Milton arrancou-o de minha mão e disse:
- Presente meu!
- Não posso aceitar, respondi.
- Pois aprenda a aceitar um presente.
Escreveu: A uma linda pessoa que tenho o privilégio de chamar: amiga! E assinou um arabesco.
A dedicatória do professor: Para Mônica, aluna virtual, leitora virtual, e agora amiga real!


Fiquei emocionada, em uma só noite fiz um amigo real e outro surreal!



Terça-feira, Outubro 28, 2003




THE MISUNDERSTANDING


Este é um blog em língua portuguesa.
Peço-lhes, portanto, milhões de desculpas pelo post em inglês, embora tenha motivos para fazê-lo.
Falar uma língua estrangeira é um grande atrativo na vida de uma pessoa.
Não falar... não considero nenhum desdouro.
Nelson Rodrigues dizia com orgulho que, em termos de idiomas era monogâmico.
Eça de Queiroz dizia fazer questão de falar mal o idioma dos outros.



This is part of my memories, my recollections, as my father used to tell me that story, when I was a little girl. I will enhance and make up a bit, but it was something like that:


Many decades ago, an English family went to Germany on vacation.


Not only were they impressed with the landscape and culture but with people and costumes as well.
Everything to them was breathtaking!


During one of their walks, they saw a lovely country house for rent.
The cottage seemed to be very suitable to spend their next summer vacations at.
No wonder! It was near Heidelberg.


After some inquires they discovered the owner, who happened to be a German Catholic Priest.
They had a long talk and arranged to rent the house for the following summer.
Back in England, the family was in an upheaval.
Non-stop chatting about the gorgeous property they were pretty keen on.


However, all of a sudden, Lady Henrietta recalled that she had not seen the restroom.
In fact, none of them had.
Confirming the practical sense of british people, they decided to write to the priest, to ask for some details about the issue, immediately.


The letter was like that:


Dear father,
I am one of the members of the English family who has just visited your propriety in order to rent it for the next summer vacation.
We had, however, forgotten to ask you a question, so that we would be very grateful, if you could inform us where the W.C. is placed.

The priest, completely misunderstanding the meaning of W.C. and reckoning it meant "White Chapel", answered in that way:
I have the pleasure to communicate that the referred place you have mentioned in your letter, is situated about 2 miles from the house.
It is a very comfortable place.
If you are used to going frequently, I advise to bring same food, to enable you to spend the whole day there.
Some are used to going on foot, although, there are some who prefer going by bicycle.
The place can hold 400 people seated and 100 standing.
I recommend you come early; otherwise it will be difficult to find a place to sit.
Everyone sings in chorus.
A piece of paper is distributed to each person in the beginning; nevertheless, if you arrive late, after the distribution, you may use your neighbour's.
This paper must be returned in the end to be used the whole month.
There are sound amplifiers and what is left over in the end, is given to the poor.
Specialized photographers are available to take photos for the local newspaper, to allow everyone in town to be aware of such human duty performance.



Sábado, Outubro 25, 2003




AOS QUERIDOS AMIGOS





Hoje é meu dia no Ponto G. Emini.

Para aqueles que não entenderam muito bem, o Ponto G. Emini é um blog onde participam sete geminianos.
Alguns mais ligados em astrologia, outros menos, mas todos muito legais!
Agora me auto-elogiei.

Cada uma dessas pessoas, escreve em um determinado dia da semana.
Eu escrevo aos sábados, então... o que estão esperando?
Corram !
Um beijão.


Terça-feira, Outubro 21, 2003




CELEBRIDADES E CARTOONS


Americano é doido por celebridades, cartoons e super heróis!
Brasileiro adora imitar americano, então a coisa está lindinha!
Os Kennedys eram celebridades, super heróis, atores, melhor: "admiravam" atrizes.


Já Ronald Reagan era, de fato, um verdadeiro ator.
Que galã!
Aquela eterna tinta preta nos cabelos, "negro asa de graúna" (devia ser o nome da tonalidade) e a cara plastificada.
Reagan nunca deixou de ser um super herói, o Ronald Mc Donald.
A petizada considera, vamos e venhamos.
Que interpretação!


Bill Pinton, opaaa, Clinton, foi um superstar pôrno-erótico.
Super Man.
Gostava dele.
Tinha ótimas colocações: fumou e não tragou.
Transou, mas só um pouquinho, com minha xará, Mônica Chupinski. Ai, desculpem, não estou bem, digo: Lewinski.


Já o Bush é a macaca Chita do Tarzã.
Não, a macaca não merece. Nenhum macaco merece. São bichinhos lindinhos, não quero ofender os macacos!
Ele tem cara de macaco, jeito de macaco, mas o espírito não é de macaco, nem gorila, aliás, de nenhum animal da fauna mundial.
Bush é o Mad, alguém se lembra?
Correndo o risco de ofender o Mad, que era no mínimo simpático.
O Sombra... cai bem. Ou o Mancha Negra.


Agora temos o Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger.
Aquele sotaque de debilitado, a voz de bobo.
Eu tratando Arnold como um amorzinho de ser humano!
Senta no colo dele pra ver!
Se bem que a história de assédio sexual é coisa pra boi dormir.
Aquelas americanas, horrorosas, adorariam que ele as assediasse, passasse a mão na bunda de cada uma delas.
Imprensa marrom, propaganda política pura e simples.
O cara é espertíssimo, uma raposa.


E aqui na nossa terrinha? Cartoon tupiniquim?
Lula é Brutus, inimigo íntimo do Popeye.


Popeye é Heloísa Helena.
Cá deixo uma segunda opção, pode ser a Mônica, do Maurício de Souza.
- Helô, venha escolher!


Marcos Maciel é, sem dúvida, Olívia Palito.


Avanir!
Estou dizendo que não estou bem...
Quem vai se dar ao trabalho de mencionar Avanir?
Eu, uma santinha, Madre Tereza!
Avanir está querendo se tornar Jessica Rabbit, mas continua a própria Maga Patalógica.


Vicentinho é o Cebolinha!


Marta Suplicy é a Mulher Gato.
Foi assim chamada por Jô Soares, quando esteve no programa trajando roupa de couro, com uma gola de 30 cm de altura.
Parecia que algo a afligia nas partes genitais e ela estava muito pouco à vontade.
Jô, o Bolinha, disse:
- Nossa candidata a prefeita veio de Mulher Gato! Marta ficou roxa!
Quem se veste (provavelmente produção do Supla - o Charada) de couro preto e uma gola daquele porte tem que segurar a peruca, ou vestir-se de tailleur preto e camisa branca.


Temos políticos que são o Homem Aranha, o Homem Invisível, Gasparzinho.


Arnold Schwarzenegger é o Exterminador do Futuro.


No Brasil, Pátria amada, idolatrada, salve, salve, não podemos ficar por baixo.
Temos Homens Invisíveis, que são reais Exterminadores do Futuro.
Que problema!
Será que ando lendo muito gibi?



Sábado, Outubro 18, 2003



PONTO G.EMINI









À partir de hoje, todos os sábados estarei no PONTO G.EMINI.



Então, espero vocês !




Quarta-feira, Outubro 15, 2003




CAPETA


Acho bem melhor não citar nomes desta vez.
Ela vai saber que a coisa é com ela, no exato momento em que deitar olhos nesta crônica.
Tímida, educada, intelectual e com um gênio terrível, do tipo que não leva desaforo pra casa, apesar da timidez, ela vai se reconhecer e provavelmente me execrar.
Para evitar um cansativo "ela", vou chamá-la de Ella, Ella Fitzgerald.


Aliás, tenho ouvido incessantemente "Ella abraça Jobim"... que CD!!!
Imperdível!


Ella abraçou e gravou Tom Jobim, já diabética e frágil, operada do coração e contradizendo a todos os prognósticos e diagnósticos de que não voltaria a cantar. Ledo engano!
Isso aconteceu em 1986 e, por volta de 1990, já havia gravado mais de 200 álbuns, ganhou 13 Grammy Awards e vendeu mais de 40 milhões de cópias.
Duke Ellington, Count Basie, Nat King Cole, Frank Sinatra, Dizzy Gillespie e o nosso maestro soberano, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (o Tom), foram unânimes ao descrever o prazer de gravar com Ella.
Voz versátil, aveludada, divisões perfeitas, bailava entre o Jazz e a Bossa Nova com a mesma categoria, como quem vai até ali, dar uma volta.
Morreu em 1996 em Beverly Hills e, minutos após seu falecimento, a entrada do Hollywood Bowl Theater estava repleta de flores com a inscrição: "Ella, we will miss you".
Todos sentem saudades. Contudo, cantores como Ella Fitzgerald são imortais.


E cá estou eu a biografar a cantora, ao invés da amiga.
O que posso fazer? Tenho a mente bailarina, que dança, divaga, faz piruetas, passeia, mas volta.


Voltando à amiga, Ella foi passar uma temporada em Salvador, na época em que lá morei.
Escolheu o Carnaval, que não é boba nem nada!
Encantou-se com tudo: a hospitalidade, o bom-humor, o Pelourinho, as festas intermináveis, a Bahia de Todos os Santos.


Eu morava no alto de Ondina, bairro onde transitam todos os trios-elétricos e o carnaval acontece.
Levei-a à feijoada da Brahma no Hotel Othon. Aquelas feijoadas baianas, nas quais as pessoas vestem uma camiseta com dizeres curtos, "Feijoada da Brahma", ou algo assim.


E desde quando mulher, principalmente a baiana, se conforma em ir a uma festa vestida assim tão simplezinha?
A produção é feita em casa. Franjas, nós, ajustes, milhões de artifícios e finalmente a dita cuja fica pronta.
Podemos ver coisas do arco da velha, quanto mais "rebosteios" melhor: apliques, purpurinas, strass, nós, amarrados e uma infinidade de adereços complementam a tal camiseta, que jamais pode ser, como diz o baiano, pura.
Poucos usam-na pura, só os puristas.
Ella limitou-se a ajustar, pois é bem magra, e dar um pequeno nó lateral.
Eu, que quando entro na chuva é pra ficar ensopada, picotei a camiseta em tiras, achei o máximo.
Ella, discretíssima.


Discrição e recato que duraram algumas poucas horas.
A criatura, que nunca bebia, caiu no chope, dançou axé, conversou com todos e estava adorando.


Um pouco preocupada, pensei: "Sorria, você está na Bahia", e deixei rolar.


Quando a coisa está boa, o tempo voa. A festa que havia começado às 11 horas, não estava nem perto de terminar, às 9 da noite.
Já estava de bom tamanho!
Resolvi chamar minha amiga, que não estava nada interessada em ir embora.
Ao sairmos do hotel, um mar de gente sambava à nossa frente, ao som de Daniela Mercury e do ensurdecedor e contagiante trio elétrico.
Ella foi atrás do trio elétrico, eu atrás dElla.
Peguei-a pelo braço e com jeito fui tomando o rumo de casa.


Se existe algo que estraga a paisagem de Salvador, são as eternas barracas, onde se vende de tudo.
Jorge Amado era revoltado com elas.
Durante o carnaval, o número triplica, uma ao lado da outra.


Ella parou em frente a uma delas e leu "Capeta".
- Isto está com uma cara ótima, estou morta de sede.
- Não tome isto, disse eu. Sabe-se lá o que tem dentro.
- Frutas, gelo, leite condensado, parece bom!
Ella esqueceu de prestar atenção na pinga ou vodka barata e o gostinho doce camuflou o álcool.
Ella virou aquilo geladinho e... o "Olodum baixou" na elegante amiga.


Cantou, dançou, subiu no capô de um automóvel, dizia que ia fazer strip-tease.
Nisto avistamos uma vizinha de prédio, que atendia pelo nome de Marlowe.


Até hoje reflito sobre este nome, que se pronuncia Marlóve, por lá.
O pai seria fã do detetive Marlowe ou a mãe olhou para aquele marzão lindo e pensou: "Mar, I love you", e ficou Marlowe ou Marlóve.
O fato é que Marlowe era tão metida quanto o nome e Ella em cima do carro gritava:
- Peruuuuuuuuuuuuuuua!
Tentei me esconder de qualquer maneira.


Na época tinha uma empregada, Suelidalva!
Calma, calma, não vou discorrer sobre o nome, apesar de ser um tanto bizarro.


Suelidalva, além de ótima cozinheira, parecia uma figura de Debret.
Linda! Tinha a bunda mais espetacular que já vi, indescritível, enorme.
Como diria meu pai: um alqueire de bunda.
Apesar de respeitosa, tinha tiradas hilárias, de repente.
Do nada dizia:
- A senhora sempre tão elegante, no dia do aniversário, colocar uma roupa horrível dessas, oxê?!
Ou então:
- De onde é meu patrão?
- De São Paulo, como eu.
- A senhora quer me enganar que ele não é "américano", oxê?! Nunca entendi uma só palavra do que ele diz.
Na ocasião, já trabalhava comigo há dois anos.



Finalmente eu e minha amiga chegamos em casa.
Ella queria conversar, cantar, acordou as crianças, Suelidalva, que se limitou a lançar um olhar indignado, de pura reprovação.


Na manhã seguinte percebi o embaraço dElla, que não teceu comentários sobre a noite anterior e o efeito "Capeta".
Respeitei.


Passaram-se dois dias e, na hora do almoço Ella comentou:
- Acho que vou dispensar a farofa, ando com um pouco de azia!
Suelidalva servia e sem pestanejar replicou:
- E a cachaça fica onde?



Sexta-feira, Outubro 10, 2003




ALÔ



- Alô, de onde fala?
- Daqui debaixo da escada!
"Ai, Senhor, este rapaz não vai aprender a atender ao telefone nunca?"
- Está tudo bem?
- Tá sim sinhora, a sinhora vá me desculpando, mas o seu carro deu um poblema nas pastilha, e eu, pra senhora não ficá sem carro na vórta, decidi mandá cunsertá.
- O que aconteceu? O carro é novo!
- São as pastilha, tão gasta!
- Meu Pai, quanto vai custar?
- Aquele mecânico da senhora, aquele que é meio bicha, disse que é $$$,$$ real.
- Volto em três dias. Vá até lá... melhor, ligue e diga para me esperar, chegando aí eu resolvo.
- Vixe!! O rapaz, o que é bicha, a senhora sabe, já cunsertô.
- Pelo amor de Deus, não tome mais esta deliberação sem me consultar antes.
- De... o quê?
- Iniciativa!
- Ini.. o quê?
- Nada, não mande o carro consertar sem eu saber, entendeu?
- Sim sinhóra, intendi!


- No mais, tudo bem?
- Tudo. Aquele dentista das menina, a senhora sabe, aquele que é bicha, ligou dizendo que elas tinha horário ontem.
- Tudo bem, depois eu ligo e falo com ele, marco novamente.
- Sei, sim sinhora.
- Ahhhh... sabe aquele rapaz que ficou de consertá o vídeo, aquele que é um pouco bicha?
"O que será isto?"
- Sei
- O vídeo ele disse que é bom da senhora comprá outro; o som ele conserta, por $$,$$.
- Manda consertar, então, o preço está bem razoável.
- Sim sinhora, mas ele é bem bicha, a sinhora num acha?
- Sei.


"Este rapaz enlouqueceu! Onde já se viu ficar chamando o mundo de bicha via Embratel.
Sempre foi educado, formal, tímido e até reservado. Por isso gosto dele. O que será que aconteceu que ele está chamando todo mundo de bicha?"


- Então vou desligar; o resto tudo bem?
- Tá sim! A mãe da senhora, ela é bicha, né?! Tem vindo todos os dias, olhado as criança, tá tudo bem.
"Minha mãe, bicha?? O garoto bebeu, sem sombra de dúvidas! Nunca demonstrou a menor aptidão para bebidas! Alguma coisa está errada. Culpa minha, o armário-bar nunca foi trancado. Se porventura ele resolve beber, está tudo lá, bem à vontade!"


- Bom, então vou desligar, já que está tudo bem e que todo mundo é bicha.
"Vou despedi-lo assim que chegar em São Paulo."
- A irmã da senhora telefona todos os dias. Ela é muito bicha, né?


"Ele está insano!".
Com os olhos arregalados, olhava o marido, já preocupado com cara de pavor.


- Tem aquele senhor que ficou de reformá o sufá, aquele bicha, bem bicha mesmo, ele deixô o preço por escrito.
"Agora já não me incomodava mais com o preço do interurbano, queria saber até onde o dito chegaria".
- Sei.
- Umas amiga da sinhora, todas bicha, ligaram.
- Sei.
- O home que ficô de adubá o jardim, aquele que é bichaaaa de tudo, disse assim que vem semana que vem.
- Tá bom! O Fernando Henrique é bicha, o Lula, a Marta Suplicy, Machado de Assis, João Ubaldo, minha mãe, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, minha irmã, Arnaldo Jabor, Xuxa, meu irmão, Guimarães Rosa, Hebe Camargo, Gugu, Adriane Galisteu, Marcelo Antony, Madre Tereza, Chico Buarque, Benedita da Silva, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rubens Barrichelo, Guga, Romário, Ronaldinho, Mário de Andrade, Ariano Suassuna, Mário Prata, Cecília Meirelles, são todos bichas?
- Dos que a sinhora falô, os que eu conheço, são sim sinhora!
- Ô Walter, você é bicha?
- Sei não, aí a sinhora quem diz!
- Eu???
- Sim sinhora.
- Diga-me, o que quer dizer bicha?
- Ah, eu sei, eu li! É gente alegre e simpática!!!



Segunda-feira, Outubro 06, 2003




RITZ CARLTON



Stelle é uma mulher sofisticada, elegante, refinada e ao mesmo tempo simples.


Nos tempos em que adorava Nova York, antes do fatídico onze de setembro, hospedava-se no Ritz Carlton.
Hotel pequeno, aconchegante, chique, com uma vista fabulosa para o Central Park South.


Afrescos autênticos no teto do saguão e restaurante, um bar conhecidíssimo em toda Nova York, atendimento personalizado, estes são alguns dos muitos atrativos do hotel.
Os "concierges" e porteiros memorizam o nome de todo e qualquer hóspede, tudo respira a elegância e bem viver.


É completamente diferente do majestoso Helmsley ou do suntuoso Plaza.
É, como todo e qualquer Ritz do mundo, chique.
Lugar para quem sabe o que é bom e gosta de privacidade.


Não é mera coincidência o termo "ritzy" fazer parte do linguajar cotidiano do americano.
Ritzy é tudo que é bonito, descolado, moderno e caro.
Bem a gosto de Stelle!


Todas as noites, enquanto se vestia para jantar, o marido esperava no famoso bar e batia longos papos com Larry King.
Larry aparece ou aparecia, invariavelmente, por volta das sete horas para um drink.
Woody Allen e outros famosos freqüentam o bar, que é um ponto de encontro.


Stelle, acostumada ao "grand monde", nem se importava.
E conquistava a todos, invariavelmente.
Dizia um simpático: - Boa noite, Larry, Woody - e saía com o marido para algum restaurante sofisticado.


Uma manhã acordou cedo, ouviu o marido dizer:
- Bom dia, meu bem, vou andar.


O "vou andar" do marido podia durar uma hora, hora e meia ou duas.
Deu-lhe um beijo, espreguiçou-se e pediu café da manhã no quarto.
Tomou banho, secou os longos cabelos ruivos e vestiu-se.
Calça preta, blusa da mesma cor e, como começava a esfriar, um casaquinho salmão.
Um longo colar de corais era seu único enfeite, além de batom e rímel.


Ao descer foi alegremente saudada pelos simpáticos funcionários e elegantérrimo porteiro.


Atravessou a rua e sentou-se em um banco no Central Park, em frente ao hotel, para que o marido a visse ao retornar, devidamente acompanhada de um livro de Chesterton.


Padre Brown, personagem policial criado por Chesterton, soluciona crimes à base de teologia e bom senso e estava em vias de dar cabo ao mistério.
Stelle, interessadíssima, devorava cada palavra, louca para saber quem seria o assassino.


Eis que duas senhorinhas sentaram-se no banco do parque e começaram:
- Adélia de misericórdia, onde é que nóis estamo, eu tô me urinando!


- Como é que eu vou sabê, Cora. Você é louca, mess, estamos fazendo baldeação neste metrô há mais de duas horas! Que idéia nóis tê se aventurado assim. E este livro que ocê comprou, e eu paguei a metade, é uma bela merda. Não explica nada direito, como se deve. Tudo sobre Nova York! Ara, nóis caímo foi no conto do vigário.


- Que implicância Adélia. Eu vô mijá nas calça e cê reclama do livro, creim Deus Pai!


- O que é que eu posso fazê, uai?


- Num sei, procura um Mc Donald, ou coisa que o valha.


- Cê acha, boba, que num lugar chique desses vai tê Mc Donald? Olha a cara desse hotel. Uma diária aí deve custá os óio da cara!


- E eu me urino toda aqui em praça pública, né?!


Chesterton e Padre Brown teriam que ser postergados.
Stelle já não mais lia, prestava a maior atenção no diálogo das senhoras.
Queria ajudar, mas tinha medo de embaraçar as simpáticas conterrâneas e, simultaneamente, tentava reter as gargalhadas.


As duas eram gozadíssimas.
Armou-se de coragem e perguntou:
- Brasileiras?


- Ai, Meu Pai, disse Cora. Louvado seja Deus! Somo sim. Sabe, nóis tamo completamente perdida!


- Onde estão hospedadas? perguntou Stelle.


- Num sabemo mais. Fica perto desse parque, mais é do outro lado.


- Tamo no Queens, disse Adélia.


- Vou mostrar aqui no mapa.
Gentil e elegantemente, Stelle pegou o livro e mostrou no mapa onde estavam as duas e onde conseguiram chegar.


- Por todas as chaga de Cristo, como é que viemo pará aqui?


- Culpa sua, Adélia, sempre pensa que sabe tudo.


- Vamos fazer o seguinte, propôs a jovem senhora. Vamos até o hotel, vocês podem se refrescar e tomamos um chá ou café. O que acham?


- A senhora vá desculpando, mas nóis aceitamo a oferta. Tô muito apertada, sá?


- Num repare, a Cora tá sempre apertada. Num canso de dizê que ela deve tá é com algum problema na bexiga, períneo roto, com toda certeza!


- Vamos então, disse Stelle, na tentativa de evitar outra discussão e achando inusitado tanto o jeito das duas falarem, o sotaque carregado e saboroso, quanto o tratamento mútuo.


Entrou no Ritz, com as duas novas amigas, que corrupiavam ao observar os afrescos no teto, a elegância do ambiente, a música clássica tocando baixinho ao fundo.


- Cruzes, nunca vi nada tão granfino! observou Cora, já esquecida da necessidade que a acometia.


Stelle lembrou-a: - Vamos até o toalete e tratem de me chamar de você!


- Tô abobada, abestalhada, disse Cora. Nunca vi tanto luxo! O que nóis faz com essa toalhinha de linho?


- Ô Cora, abestalhada cê sempre foi! Dobra a toalha, criatura, pro próximo visitante, arrematou Adélia.


- Nada disso meninas, completou Stelle, joguem-na no cestinho.


- Num creio! Ah, mas rico é muito engraçado, mess!


As senhoras estavam encantadas.


Antes de entrar no toalete, a simpática hóspede chamou Tony, seu garçom favorito, e pediu chá completo para três.
Quando saíram o chá estava servido.
As duas amigas atônitas, olhavam a mesa, porcelana, guardanapos, tudo enfim.


- Provem os petit-fours, são deliciosos.


- Peti quê?


- Ai Cora, que vergonha! São os biscoitinhos, parecem os amanteigados que Alice, minha prima de primeiro, faz!


Antes que Cora retrucasse, a anfitriã ofereceu mais chá, mais bolinhos e as duas, encantadas, nada recusavam.


- Empapucei, exclamou Adélia. Quer dizer, tô satisfeita, acho que é hora de irmos, né mess? Cê qué uriná de novo Cora? Óia que é melhor preveni.


- Não, brigada, mas num conformo de nóis deixá o tal do petifur que sobrou, vou botá na bolsa! Cê num repara, né mess?


- Vou fazer melhor!
Chamou Tony e pediu, em inglês fluente, que ele preparasse uma lata de biscoitinhos. Foi até a portaria e voltou com dois cartões.
- São postais do hotel, para que se lembrem de mim.


- Misericórdia! Faça a fineza de escrevê qualquer coisa, disse Adélia.


- Claro!
E escreveu: "Obrigada por me proporcionarem momentos tão agradáveis! Um grande beijo de Stelle".


- Ai que gastura! comentou Cora; mas seria muito abuso de minha parte, pedi mais um? É pra minha afilhada Carla, ela coleciona, sá?


- Que nada! Stelle foi buscar outro, neste nada escreveu, afinal é coleção, pensou.
Voltou com o cartão e uma linda lata cheia dos deliciosos petit-fours.
Trocaram endereços, beijinhos, promessas de cartas.


O porteiro chamou um táxi, discretamente a hóspede favorita do Ritz, esticou uma nota alta ao motorista pedindo-lhe que levasse as duas senhoras, ao endereço desejado.
Com um sorriso, ficou a ouvir as duas amigas já dentro do táxi:


- Quem lá em Carangola vai acreditá ni nóis?


- Nóis vamo prová, boba! Tem os cartões e a lata, ara.


- A Clotilde vai se ardê de inveja!


- E por falá nisso, a lata é minha.


- Ahhhh, né não... nem morrrrrta! A lata é minha, eu que quis fazê a baldeação!


- Mas fui eu quem quis uriná, uai!


Stelle sorriu para o porteiro e entrou pensando que as duas nunca saberiam o quanto foi feliz naquela manhã!




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