Segunda-feira, Dezembro 29, 2003
RESOLUÇÕES DE ANO NOVO
Ano Novo, vida nova.
Quantas vezes já pensamos ou ouvimos a máxima?!
Resolvi escrever, então, sobre Resoluções de Ano Novo.
Lembrei-me de ter lido algo parecido em um livro de Peter Mayle.
Comecei a escrever e achei que meu texto ficaria parecido. Obviamente, uma versão feminina, brasileira, tropical e mais parecida comigo.
Acontece que adoro o humor do escritor inglês e pensei que vocês ficariam mais bem acompanhados com ele, do que comigo.
Com a certeza que deixo vocês em ótimas mãos...
Vale a pena ler.
Feliz Ano Novo e tomem suas resoluções para o ano que está chegando, desde que sensatas.
Um grande beijo.
Peter Mayle - "Gostos Adquiridos" - pág. 114 - "Resoluções de Ano Novo".
São onze e meia da noite da véspera do Ano Novo e você está se sentindo ótimo. A Krug está borbulhando em suas veias, lindas mulheres desconhecidas estão fazendo fila para beijá-lo ao soas da meia-noite, e o Ano Novo, tão cheio de promessas quanto um tio rico e indulgente, estende-se à sua frente. Todo mundo está se divertindo muito. E então alguém - há sempre alguém, e ele ou ela está sempre bebendo Perrier com uma rodela de limão - chega perto de você e pergunta:
-Quão são as suas resoluções de Ano Novo?
Oh, Deus. De quem é esta voz fúnebre que vem falar da vida real e suas limitações, justamente no momento em que a festa está ficando agradavelmente fora de controle?
Bem, se você não reconhece a voz esta noite, certamente a reconhecerá amanhã de manhã, porque é nada mais nada menos que a sua consciência, disfarçada em forma humana e esperando que você renuncie pelo menos a um dos hábitos repreensíveis, mas extremamente aos prazerosos.
Eu não sei como tudo isto começou ou quando esta terrível dose de auto-rejeição foi acrescentada a genes tão despreocupados, mas a cada Ano Novo, em todo o mundo, são tomadas resoluções em número suficiente para tornar a vida na terra tão divertida quanto uma série de convenções de coveiros. Felizmente, como veremos mais tarde, a lucidez retorna no fim. Mas não antes de nossas resoluções nos terem custado bem caro.
O segundo erro (o primeiro é pensar em resoluções) que a maioria de nós comete é anunciar as nossas intenções. Não conseguimos guardar segredo dos nossos horríveis planos de aperfeiçoamento pessoal.Temos que dizer a todo mundo o que resolvemos fazer, e sendo véspera de Ano Novo em Nova York o que é, normalmente estamos bêbados quando os anunciamos.Não é um bom começo, embora a idéia que esteja por trás disso seja, de uma maneira torta, recomendável: sabemos que a carne é fraca e então, para ter o apoio moral, nos comprometemos publicamente.Se falharmos, o resultado será o desprezo e a censura dos nossos amigos.Falhar está fora de questão, falhar é para os fracos.
Para piorar a situação, não basta tomar resoluções pequenas, discretas. Abrir mão de livros sem valor, de ver televisão até de madrugada, de banana-split ou de berrar com motoristas de táxi pode exigir um pouco de autodisciplina, mas estes sacrifícios são todos por demais privados; ninguém mais fica sabendo. E já que um dos horrores tradicionais das resoluções é que devem ter um efeito visível, mais uma vez caímos na armadilha (nós ainda estamos sob o efeito da euforia da véspera do Ano Novo, lembre-se) de tomar uma resolução de peso.
Isto não deve ser confundido com negócios. Comunicações acerca do próximo progresso fantástico em sua carreira não contam, a menos que envolvam uma alteração profunda em sua rotina, como, por exemplo, desistir de Wall Street e virar monge. De outra forma, tentar fazer suas ambições passarem por resoluções não cola. Portanto, o que sobra?
Em nove entre dez casos, a Resolução de Peso tem algo a ver com a aparência física ou saúde. (A mente fica em posição secundária nessas ocasiões porque o sucesso mental não é suficientemente visível). E muitos desses casos, obedecendo à lei natural que diz que todo o vácuo tem que ser preenchido, a resolução exige dois passos: desistir de um hábito agradável, mas nocivo, e substituí-lo por uma alternativa saudável. Se fosse algo tão simples quanto desistir de tomar sorvete e aderir ao jogging, os efeitos financeiros secundários seriam mínimos. Mas nunca é assim tão simples.
Digamos que você tenha mesmo ido para a cidade na véspera do Ano Novo. Você vai desistir de beber e fumar, e vai ter perdido vinte quilos quando puser os pés na praia no próximo verão. Você imagina o seu novo eu melhorado - um Adonis musculoso, saudável, a inveja das ruínas ofegantes e gordas à sua volta.
O primeiro dia de janeiro não é problema, já que você está com uma tremenda ressaca e só consegue pensar em encontrar o alto da cabeça. À medida que o mês vai passando, no entanto, as suas resoluções começam a incomodá-lo. A garrafa acena para você, a simples idéia de fumar já o deixa tonto, e uma lata de fois gras parece segui-lo pelo apartamento. São necessárias medidas severas para vencer a tentação.
E então você dá de presente as tentações para os amigos incrédulos, mas agradecidos: a caixa de vinho do Porto 1955, as preciosas garrafas de conhaque envelhecido, o umidificador cheio do que Alfred Dunhill tem de melhor para oferecer, o foie gras -afastem-se de mim, todos vocês.
Logo depois desse gesto nobre, mas caro, você percebe que abandonou um conjunto de muletas e precisa urgentemente de outro. Não se preocupe. A indústria da saúde está pronta para você, flexionando seus peitorais e exibindo a promessa da beatitude cardiovascular. Só o que você precisa fazer é escolher o tipo d exercício e conseguir um empréstimo bancário.
Desconfio que uma das principais razões do aumento espetacular de gastos destinados a melhorar a forma física que vem ocorrendo nos últimos anos é a aparência irresistível dos equipamentos. Eles parecem fantásticos, desde as meias de design aerodinâmico até a academia de cento e trinta e cinco posições do tamanho de um guarda-roupa. Os sapatos de ginástica parecem esculturas. As raquetes de tênis parecem saídas do Museu de Arte Moderna. Os humildes halteres, antes meros rolos de ferro, são agora cromados, riscados e polidos até pareceram o eixo de manivela de uma Ferrari de $200.000.
Você descobre bem depressa que nada disto é barato. Mas, você diz a si mesmo, se for levar a sério suas resoluções, precisa estar seriamente equipado. Não se trata de extravagância e sim de aperfeiçoamento pessoal.De qualquer maneira, comprar equipamento pode ser divertido (muito mais divertido, como você logo descobrirá, do que usá-lo.) E já que você entrou nisso, por que não se juntar as outras pessoas de vida saudável e força de vontade numa academia ou um clube? E é isto que você faz, apesar da taxa de matrícula caríssima e do preço das mensalidades.
Várias centenas de dólares mais leve, você agora pode começar a trabalhar. Dói. É monótono, como acontece quase sempre quando se trata de exercícios. Após cada sessão, o corpo dói, então, presumivelmente, estão ocorrendo algumas mudanças benéficas, mas não há diferenças visíveis, nenhum suspiro de admiração por parte das mulheres do escritório, nenhum sinal dramático ou levemente encorajador partido da fita métrica. O torturador chefe da academia, um jovem que parece feito de mármore ao invés de carne e osso, insiste que você não deve se preocupar. Tudo isto leva tempo. Quanto tempo? Oh, três meses, às vezes seis. Vamos fazer mais cem flexões e depois podemos passar para a prancha.
Seis meses! Eles se estendem à sua frente, cheios de dor e abstenção, e você começa a se perguntar se o fim irá justificar os meios. Se houver uma sombra de dúvida em sua mente, você vai desistir. Eu não possuo nenhuma estatística formal acerca do índice de fracasso de resoluções, mas minhas observações e minha experiência me levam a acreditar que ele é tão elevado quanto o de primeiros romances e tentativas de escalar o Everest. Regra geral, tentar desistir do que você gosta para fazer o que acha que deve é um esforço fadado ao fracasso.
Alguém, eu acho que deve ter sido Oscar Wilde, disse: "moderação em tudo - inclusive na moderação". A sabedoria destas palavras é que elas identificam o instinto natural do homem para sair dos trilhos de vez em quando e cair na farra; a maioria das resoluções se recusa a levar isto em consideração. Elas são tudo ou nada, extremamente severas, e, à sua própria maneira, uma forma de excesso. É por isto que, por volta de meados de fevereiro, milhões de pessoas com graus variados de culpa oi desculpas voltam aos velhos hábitos. O equipamento é um lembrete diário do fracasso, então é escondido ou passado adiante. E é isso, até o próximo Ano Novo.
Após me deixar levar por esta idiotice durante muitos anos, eu agora desisti das resoluções. Tenho algumas resoluções, mas são as mesmas a cada ano e até agora consegui mantê-las.Ofereço-as a você na esperança de que façam por você o que fizeram por mim - isto é, evitar despesas desnecessárias, acabar com a culpa e tornar possível enfrentar o Ano Novo com um olhar límpido e tranqüilo.
RESOLUÇÃO NÚMERO 1
Jamais saio de casa na véspera de Ano Novo. Ao invés da alegria forçada e do conseqüente dano ao fígado, prefiro comer em casa acompanhado da garrafa de vinho mais cara que conseguir encontrar. Levo uma taça de champanhe para a cama e se ainda estiver acordado quando o Ano Novo chegar, faço um brinde a ele. No dia primeiro, quando o resto do mundo está se sentindo péssimo, eu saio para um almoço bem demorado.
RESOLUÇÃO NÚMERO 2
Eu experimento as calças do ano anterior. De fato, eu tenho um par de calças, com sete anos de idade e que fazem parte de um terno raramente usado, que guardo como parâmetro.Se começarem a apertar, eu tomo alguma providência - nada mais drástico do que alguns dias comendo menos pão (como eu moro na França, isto significa geralmente uma baguette por dia), e normalmente dá resultado. O segredo é podar qualquer excesso do galho, quando há menos a perder. É fácil e funciona. Conforme o meu alfaiate pode confirmar, minhas medidas são as mesmas desde 1973.
RESOLUÇÃO NÚMERO 3
Eu nunca bebo antes do café da manhã.
Estas resoluções anuais já se tornaram hábitos, e pela primeira vez na vida, não são caros.
UM PRÓSPERO ANO NOVO PARA TODOS VOCÊS!
por
Monica às 9:14 PM
Comentários:
Sábado, Dezembro 27, 2003
Sábado, Dezembro 20, 2003
HOJE
vamos ao PONTO G. EMINI.
Quero desejar boas festas
à todos vocês!
por
Monica às 8:28 AM
Comentários:
Quinta-feira, Dezembro 18, 2003
ELZA
PARTE II
A doce Elza estava triste, embora decidida a viver a vida.
Conversou com Dr. Paulo e rapidamente acertou sua substituição por uma amiga competente.
O chefe ficou apenas conformado, mas entendeu a situação de sua fiel servidora.
De Sérgio, Elza nada soube, uma vez que não mais lhe dirigiu sequer um olhar.
Buscou dentro de si forças, saiu daquela imensa tristeza, comprou alguns vestidos leves, sandálias e foi para Fortaleza.
Precisava inteirar-se dos bens, impostos, aluguel do apartamento, papéis e toda a burocracia que envolve um inventário.
Lá chegando procurou imediatamente a firma de advogados.
Um senhor velhinho recebeu-a com toda simpatia e expressou suas condolências.
Era amigo da tia antes de advogar e parecia abalado com a perda.
Tratou de apresentar Elza aos outros membros da firma.
Um deles, Dr. Ewaldo, era bastante interessante.
"Impossível não notar", pensou Elza.
No fulgor de seus trinta e cinco anos, era charmoso, possuidor de um par de olhos verdes penetrantes e um sorriso encantador.
Ewaldo pareceu encantado em acompanhar Elza na verificação de seus bens.
A belíssima casa de Dona Mocinha continuava idêntica.
Um aperto no coração acometeu a secretária. Teve imensa vontade de chorar.
Ewaldo, rapaz inteligente, tratou de distraí-la.
- Dona Elza, sabe que essa "marina", na sala, é um autêntico Benedicto Calixto? E aquela outra natureza morta, na sala de jantar, um Pedro Alexandrino? Aquele menor no canto trata-se de um Portinari.
- Não sabia, disse Elza.
- É, Dona Mocinha era amante das artes! E a senhora possui aqui uma fortuna em obras de arte.
Elza estava pasma. Não tinha a menor idéia do valor daqueles quadros que a tia foi colecionando ao longo da vida.
- Outra coisa me deixou impressionada, disse a moça. Nunca imaginei que titia tivesse um barco. Não era de freqüentar praias.
- Sim, mas do barco ela gostava. Recebia amigos, faziam passeios lindíssimos.
- Se me permite uma sugestão, Dona Elza, vamos conhecer o barco e almoçamos na marina, o que acha?
- Aceito com uma condição: tire esse "dona" da frente de meu nome; assim me acrescenta uns dez anos!
- Só se você tirar esse "doutor", que também envelhece.
Elza sorriu e foram.
O almoço foi seguido por jantares, teatro, festas, por do sol na Ponte dos Ingleses, passeios de barco.
Elza, moça simples, que nunca aprendera sequer a nadar, estava adorando cada minuto.
Para acontecer o primeiro beijo, foi um passo.
Elza conhecera finalmente um homem terno, viril e apaixonado.
Isso era amor! Não aquela coisa morna e sem graça que sentia, pelo não menos insípido, Sérgio.
É... os leões adormecidos foram despertados e estavam bem vivos!
Viajaram por todo Nordeste.
Elza encantou-se com as praias, adorou conhecer Jericoaquara e Canoa Quebrada.
Estava feliz, estava viva, a vida era bela e Elza voltou a sorrir, por vezes gargalhar, pois o que não faltava a Ewaldo era senso de humor.
- Hoje vamos jantar no barco, propôs Ewaldo. Quero vê-la bem bonita!
- Seu pedido é uma ordem, meu comandante, brincou a moça batendo continência.
Arrumou-se com capricho, vestido preto, sapatos de salto e um enorme colar de pérolas que fora da tia querida.
No barco Ewaldo caprichou: luz de velas, garçom, champanhe, e talvez imitando Onassis, colocou um lindo anel de brilhantes no guardanapo de linho.
Elza, encantada, aceitou a proposta. Casaram-se em quinze dias.
A cerimônia foi simples e elegante.
Ewaldo tinha bom gosto e gostava de cuidar pessoalmente dos detalhes.
Reformaram o barco e a casa, que ficou iluminada, mais moderna e confortável.
Ewaldo era um decorador nato, além disso, cozinhava muito bem!
Elza vivia um conto de fadas, estava muito feliz!
Aquele dia estava especialmente quente, sol abrasador, mas Elza tinha de fazer umas compras e o jeito era enfrentar o calor.
Já havia andado um quarteirão quando se lembrou de que esquecera o talão de cheques. Voltou rapidamente e ouviu Ewaldo ao telefone:
- Calma Sérgio! Não fique histérico, amor! Envenenar aos poucos Dona Mocinha foi um trabalho de cão. A tonta da Elza, jogo no mar e ainda terei o prazer de vê-la debatendo-se nas águas. Pare de gritar Sérgio; pense que logo estaremos juntos, só nós dois, em uma ilha qualquer. Entendi Sérgio. Já está tudo arranjado. Você me conhece, sou perfeccionista, não vou deixar pista alguma. Ela está excitadíssima com a idéia do passeio. Já disse, não passa de amanhã. Tome um calmante e durma, deixe tudo por minha conta!
Elza tremia dos pés a cabeça.
Só podia estar sonhando, aquilo não era verdade, acordaria do pesadelo rapidamente. Era o sol, só poderia ser.
"Estou tendo uma insolação, estou a ouvir coisas".
Começou a rir de si própria, um riso insano e...
Ewaldo saiu do gabinete. Certo de que Elza estaria longe, esqueceu-se de fechar a porta.
- Elza? Ewaldo estava lívido!
- Olá, querido. Não me sinto bem.
- Há quanto tempo está aqui?
- Acabo de chegar, me senti mal, não estou acostumada com este sol escaldante daqui e estou morta de cólica, TPM você sabe, vou me deitar.
- Vá, meu bem, repouse.
E Elza pode ouvir um suspiro aliviado.
"Até onde ela ouvira?" atormentado Ewaldo se perguntava.
"Não ouviu nada, é muito tonta, um tanto desastrada, se tivesse chegado antes eu a ouviria", acalmou-se o pretensioso.
É incrível como as fraquezas de uma pessoa nascem de suas forças.
A arrogância e cegueira de Ewaldo nasceram de sua inteligência.
Não fora capaz de perceber que Elza tudo ouvira. Ele era o inteligente, ela a ingênua...
Elza foi para o banheiro, vomitou, chorou baixinho e tremia apavorada!
"Como foi que consegui me segurar na frente desse monstro?" pensava Elza.
O pavor, a adrenalina, uma força interior, algo fez com que ela não perdesse o controle.
As aulas de ioga serviram, agora ela estava convencida. Sugestão de Dr. Paulo, que ela relutara em aceitar.
Estava se acalmando, pouco a pouco.
Pensou na piada boba: se saísse com vida dessa estória, compraria um par de sapatos três números menores, apenas para ter o prazer de tirá-los ao chegar em casa!
Sim, faria isto, porque a desgraça era muita!
Sérgio, seu primeiro amor era amante do atual marido. Juntos arquitetaram o assassinato da tia e agora ela seria a próxima.
Novamente uma vontade incontrolável de rir de si própria.
Fugir? Ewaldo saberia que ela ouvira e a caçaria, fosse onde fosse.
Ir a polícia? Com que provas? Uma conversa telefônica? Coisa de mulher histérica e menstruada.
Ewaldo era admirado e querido pela alta sociedade de Fortaleza. Ela seria a tola, mulher nervosa e problemática.
- Preciso pensar! Deitou-se e fechou os olhos.
Ewaldo prestativo, não demorou a trazer-lhe uma xícara de chá.
- Obrigada querido. Já tomei minhas gotas antroposóficas. Logo estarei bem.
- Assim espero, querida; não esqueça de nosso passeio de barco, amanhã.
Um arrepio de horror percorreu o corpo de Elza.
Passou a noite em claro, podia ouvir o ressonar do facínora.
Esgueirou-se da cama silenciosamente e desceu as escadas, andou pela casa.
- Preciso me distrair...
Foi para cozinha. Eram cinco horas da manhã.
Pegou o livro de receitas de Dona Mocinha e começou a bater um bolo.
- Uma pitada de bicarbonato, segredos da titia. Será que um bolo fica melhor mesmo com um pouco de bicarbonato?
Imersa em seus pensamentos, foi fazendo o bolo como um autômato.
Uma hora se passou e Ewaldo desceu pronto, sorridente, trajando roupas de barco.
- Bom dia, querida! Dormiu bem?
- Não muito, tive cólicas, quase não dormi.
- Bobagem, no barco você esquece, vamos conhecer uma ilhota sensacional!
"Claro que esqueço no barco, estarei morta!" pensou ela.
- Tome seu café.
- Está delicioso! O bolo parece meio amargo, não importa, vamos para o barco, apronte-se, está em cima da hora!
- Você achou o bolo amargo? Receita de tia Mocinha, vai...
- Vamos Elza, disse Ewaldo, com voz de comando.
- Precisamos conversar, Ewaldo.
- Deixe de coisas, conversamos no barco.
- Quero falar agora! disse irritada, qualidade que Ewaldo nunca havia presenciado.
- Sim, ele respondeu, com um olhar abobalhado.
- Ewaldo, você não foi meu primeiro marido, preciso confessar.
- O que significa isso agora?
- Tive vários relacionamentos. No começo eu os matava por prazer. Claro que sempre sobrava algum, uma casa, um terreno, carro. Alguns persuadi a fazer seguro de vida, outros não quiseram, eu fazia algum investimento... comecei cedo, casei-me a primeira vez aos 18 anos. Agüentava um, dois anos, arquitetava um plano qualquer, "fazia" a viúva amargurada, mudava de cidade e não era difícil arrumar outro trouxa.
Na verdade meu avô era médico antroposófico e me ensinou tudo.
Antroposofia no grego quer dizer: a sabedoria que existe dentro do ser humano. Aquelas gotas que tomo, têm uma dinamização. Ao invés de veneno, são remédios: beladona, lachesis, arsênico.
- Hã? Ewaldo estava lívido.
- Você sabe, meu bem, tudo pode ser veneno, até água, depende da quantidade. Alguns dos vidrinhos, o liquido não é diluído...
- O bolo amargo!
Ewaldo estaria ficando com um tom esverdeado? Ou seria imaginação de Elza?
- Você é muito sagaz e sensível, meu bem. Achei que não notaria diferença no bolo, disse Elza, agradecendo a Deus por ter provavelmente triplicado a pitada de bicarbonato, num misto de desespero e distração.
E assim Ewaldo desmaiou...
Conjecturas de Elza, pois um exame mais detalhado, provou que Ewaldo morreu ali mesmo.
O diagnostico foi dado futuramente: infarto do miocárdio.
O rapaz morreu de susto!
Elza chorava copiosamente, teve um ataque de nervos e a única pessoa que lhe ocorreu foi o advogado velhinho, amigo da tia.
Sagaz, o velho conselheiro, ajudou a prender Sérgio que cumpre pena máxima.
Sua ficha era cravejada de lindos casos de homicídio doloso, cúmplice de assassinato, estelionato, e outros.
O lerdo Sérgio sempre fora o mentor de tudo.
Sem forças e desiludida, voltou para Sorocaba.
Recebeu um telefonema de Dr. Paulo e depois de comprimentos formais avisou que Elza precisava assinar alguns papéis.
Marcaram para o dia seguinte.
Surpresa Elza notou que Paulo estava mais jovem, bem disposto.
Ele contou que enviuvara. A esposa passara anos doente e confessou abruptamente.
- Elza, nunca tive coragem de me declarar, em respeito a minha falecida esposa, mas você sempre foi o amor de minha vida! Case-se comigo, não vivo sem você!
Elza se casou e foi muito feliz, não antes de contratar um detetive e vasculhar o passado imaculado de Paulo.
Mora em Fortaleza e soube há poucos dias que ela está à espera do segundo filho!
UPDATE:
Lilia, minha filha, assim que chegar a Fortaleza, vá fazer uma visita à Elza.
Dê-lhe o perfume que pedi para você comprar aí nos Estados Unidos: Hanae Mori. Particularmente detesto, mas Elza adora e combina com ela.
Deseje Feliz Natal e tudo de melhor nesse mundo, afinal, ela merece!
por
Monica às 7:51 PM
Comentários:
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
ELZA
Ela era eficiente e simpática. Não era bonita, mas seus cabelos loiros e um sorriso largo emprestavam-lhe charme e simpatia.
Todos que conviviam com Elza gostavam dela.
Especialmente o patrão que não poderia mais viver sem a eficiência da excelente secretária.
Sozinha no mundo perdera os pais muito cedo, Elza era disponível. Fazia horas extras, levava trabalho para casa e nunca, nunca mesmo, alguém a ouviu queixar-se. Além disso, vivia do salário.
Doutor Paulo era exigentíssimo, contudo justo, e a incansável Elza dava conta do recado.
Aquele dia trabalhou até as dez horas da noite. Apesar do ar ligeiramente abatido, não dava demonstrações de cansaço.
- Faça o seguinte, Elza, amanhã venha só na parte da tarde. Descanse um pouco.
- Obrigada, Doutor Paulo, respondeu a moça.
Foi para casa exausta e pensou em Sérgio, contador da firma.
Era apaixonada por ele, mas o rapaz parecia querer que fossem apenas bons amigos.
Saíam para um chope, uma pizza e nada mais.
- Será que sou tão desinteressante assim? pensava Elza consigo.
- Será que Sérgio tem algum problema mais sério?
Muito mistério...
Na verdade ela sabia da vida difícil que o contador levava.
Mãe inválida na cama, remédios, enfermeiras ou acompanhantes, já que enfermeira gabaritada, Sérgio não poderia pagar, além de custear os estudos do irmão mais novo.
É... a vida do rapaz era difícil. Talvez por isso, ele nunca tivesse se declarado. Nem mesmo um beijo...
Em uma época que as pessoas "ficam" sem reservas, a pobre Elza ansiava por um beijo, que nunca acontecera.
Aquele jeitinho de santa, loira de olhos claros, não enganava. Elza deveria ser um braseiro por dentro. Do tipo controlada, no entanto possuidora de alguns leões adormecidos.
Pobre de Sérgio se despertasse os tais leões. Ou afortunado Sérgio, quem sabe?
Aquela manhã ela acordou tarde, feliz da vida. Há muito não dormia tanto e tão bem. Tomou café na cama, leu o jornal e ouviu o barulho do carteiro.
Contas, propaganda, publicidade, pensou ela. Como é grande o desperdício de papel nos dias de hoje. Elza os reciclava, naturalmente.
Para sua surpresa, havia uma carta da tia. Tia Mocinha!
- Preciso escrever para minha tia. Ando sem tempo e ela me é tão querida, meu único parente vivo! Vou convidá-la para passar uns dias aqui em Sorocaba.
Para tristeza de nossa heroína, a carta não era da tia e sim de seus advogados.
Tia Mocinha havia falecido há alguns dias e tudo que tinha, deixara para Elza: uma casa, um apartamento, um barco - quem diria, Dona Mocinha possuidora de barco - jóias, e algum dinheiro, o suficiente para Elza viver, sem grandes luxos, o resto de sua vida.
A moça não conseguia realizar a coisa, somente a morte da amada tia e o remorso de não poder estar perto dela em seu leito de morte.
Chorou durante horas a fio, tomou Passiflora e Valeriana, pois sendo fã da medicina antroposófica, jamais tomaria um remédio alopata, para acalmar-se.
Decidiu olhar os papéis.
A coisa era bem vultuosa para os padrões da secretária.
O dinheiro era grande e os imóveis de muito bom tamanho. Móveis de época, opalinas, prataria, quadros de extremo valor.
A casa da senhorinha, em um balneário do Nordeste, era antiquada, mas aconchegante.
Fortaleza mais precisamente, terra natal de Dona Mocinha.
Pensou imediatamente em Sérgio. Ele não teria mais desculpas, poderiam se casar e ser felizes para sempre.
Correu ao escritório.
Sérgio, concentrado, tratava da contabilidade da firma.
Elza entre a tristeza da perda e a euforia do dinheiro, contou tudo, aos borbotões.
Sérgio, pessoa paciente, ouviu com atenção e para total estarrecimento de Elza, respondeu:
- Divirta-se Elza, aproveite a vida, viaje, fico feliz por você.
- Agora me dê licença, pois preciso trabalhar. Até qualquer hora, disse o rapaz laconicamente.
Elza sentiu o chão abrir-se a seus pés, um balde de água fria no rosto.
Estava agora com ódio de Sérgio.
- Será que ele é tão orgulhoso que não pode aceitar dinheiro herdado de uma mulher; ou muito provavelmente, nunca gostou de mim.
Maldizendo os anos que perdera a esperar alguma decisão do rapaz, a moça resolveu de imediato.
Dane-se Sérgio, dane-se Doutor Paulo, vou viver a vida!!
CONTINUA...
por
Monica às 10:40 AM
Comentários:
Sábado, Dezembro 13, 2003
DIÁLOGO DE CLOTILDE
Imagem: "Les demoiselles d'Avignon" de Pablo Picasso
Vixe Maria! Clotilde tá retada.
Lá no Ponto G. Emini.
Num vô esperá uma hora de relógio não!
Bóra, embora lá vê!
por
Monica às 7:52 AM
Comentários:
Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
E HOJE....
Estou lá.
por
Monica às 7:48 AM
Comentários:
Sábado, Dezembro 06, 2003
CLONAGEM VIRTUAL, ESTELIONATO AUTORAL, IGNORÂNCIA, ROUBO
Fonte da imagem.
Hoje estou no Ponto G. Emini ...
... e falo de... roubo
cuidado e vamos lá conferir...
por
Monica às 8:28 AM
Comentários:
Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
ATENÇÃO... CONCENTRAÇÃO
Estou decidada!
Vou fazer um curso de concentração, interiorização, como me ligar, ler, escrever, ver e enxergar o óbvio, como lembrar o nome das pessoas e finalmente como parar de fazer sempre tudo na última hora. Hei de descobrir um curso nesses moldes.
Não vai ser qualquer ioga, melhor iôga - mais moderno - que vai dar jeito.
Sou do tempo em que a gente chamava ioga de ioga e sari de sarí, a roupa indiana, que hoje dizem sári, não entendo: faço iôga e uso sári! E eu? Mando a "mêrda"?
Ontem fui ao caixa eletrônico retirar dinheiro.
A linda máquina, que vive quebrada, pedia o mês do meu aniversário. Já decorei: é junho, portanto 06. Ando a fazer algum progresso.
Eu digitava e dava erro, tinha que recomeçar a operação. No segundo erro, fiquei irritadíssima!
Quem me conhece sabe que quando irritada "baixa" uma madame em mim.
Lá se vai a moleca, a criança, a macaca e a madame incorpora, finamente educada, diga-se de passagem, e ligeiramente irônica.
Peguei aquele telefone preto, que os caixas possuem, e comecei:
- Meu senhor, este caixa está com algum defeito, recusa-se a aceitar o mês do meu nascimento, "que por uma dessas coisas", eu sei de cor.
- Vou fazer com a senhora passo a passo.
Caceta! Eu já sabia, esses caras são idênticos às assistentes sociais, aquelas distintas senhoras, geralmente voluntárias, que nos tratam como debilitadas mentais, nos hospitais e nos chamam de mãe. Tenho verdadeira ojeriza!!
- Mãe, você sabe a importância do aleitamento materno?
- Não, senhora. Se a criança chorar muito, coisa que incomoda, dou uma mamadeira com cicuta. Dá uma vontade enorme de responder isto.
- Mãe, já sabe dar banho no bebê?
-Não, pretendo afogá-lo, assim que sair daqui.
Assim são os atendentes dos caixas eletrônicos.
- Farei com a senhora o trajeto completo, disse o rapaz.
Vai me tratar feito débil, é claro.
- Pois não.
- Coloque o cartão com o nome do banco para cima, à direita.
- Sei.
- Digite a operação desejada.
- Eu sei ler, meu senhor.
- Existem cinco números no cartão da senhora, veja os do meio.
- Meu cartão não tem cinco números, têm vários. O que se pede, são os três últimos de TRÁS!
- Tem razão, vão pedir só dois.
- Eu leio, meu senhor. São o segundo e o terceiro. Já coloquei.
- Agora a senhora leia o pedido.
- Já coloquei; o mês do aniversário.
- Não, senhora. Agora o ano foi pedido. Seu cartão está bloqueado, dirija-se à agência bancaria mais próxima.
Quer dizer o caixa erra, erra, e na hora que o cliente erra, o dito é bloqueado. Que raiva!
Nem devo me queixar, tenho sorte, o caixa eletrônico estava tão doido, que uma nota de cinqüenta reais, ainda pulou.
No dia seguinte tinha várias coisas a fazer, além de passar na agência mais próxima, que é bem longe e desbloquear a engenhoca.
Deixei tudo para a última hora.
Fiz tudo a pé, que já é para matar dois coelhos: andar e resolver problemas.
Retirar alguns documentos, ir até a farmácia e passar no banco.
Primeiro dia do mês significa fila.
Na farmácia perguntei sobre um remédio e o fulano abriu meu envelope de documentos.
- O senhor quer ter a bondade de devolver meus documentos?
- Ah, pensei tratar-se da receita.
- Pensou...
Terminei razoavelmente a tempo.
De volta, marchando, ouço:
- Por favor, onde fica o ponto de ônibus mais perto para hjjfljskfjjh?
Olhei para a pessoa, vi tratar-se de um rapaz cego, bengala branca, e respondi:
- Não entendo muito disso, moço, mas vamos achar.
- Posso lhe dar o braço?
- É claro que sim.
Comecei a bater altos papos com o cego. Era adorável, e caminhamos vários minutos de braços dados.
- Acho que já era para ter aparecido o ponto, disse ele.
Provavelmente deveria estar a dez passos atrás de nós, jamais saberíamos.
Seguimos conversando. Perguntou-me o nome, disse: Mônica.
- Lindo nome!
- Obrigada, e o seu?
- Donizete.
Não sei o que custaria eu dizer que também era bonito, não disse, talvez porque não ache.
Mas, estava encantada com Donizete, seu sorriso, sua alegria de viver.
Em meu encantamento, olhava pra ele enquanto falava e meti a cara num poste.
Apoiei-me em Donizete, sacudi e derrubei o bichinho. A bengala foi parar longe e ele gargalhava.
Morrendo de rir, fui resgatar a bengala, abaixei-me. Donizete tentava se levantar, não sem antes tatear. Acho que já não confiava em minha destreza e ria.
- Donizete, sou mais cega que você! Não pude evitar.
Ele ria mais.
- Você olha com os olhos do coração, não é verdade?
- É sim.
Fiz várias indagações, consegui achar um corredor, atravessar a avenida complicadíssima, pensando em como meu amiguinho faria aquilo sozinho.
Melhor do que eu, imagino, já que quem metera a cabeça no poste, fora eu.
Nos despedimos, ele disse:
- Vá com Deus e eu conheci um autêntico ser humano.
Voltei e entrei no condomínio onde moro. Fui imediatamente saudada pelo zelador com um beijinho.Ele sempre faz isso.
Perguntei para um par de senhoras, uma ocasião, se ele as beijava, quando encontrava.
- Você está louca? ambas perguntaram.
- Por que ele nos beijaria?
- Sei lá, respondi. Pois a mim ele sempre beija, disse com certo orgulho.
Não consigo, por mais que tente, lembrar-me, mas teria sido eu a primeira a oscular Sr. Heleno, o zelador?
Faço aqui uma pergunta: devo ou não procurar o tal curso?
por
Monica às 12:45 PM
Comentários:
. |