Terça-feira, Setembro 28, 2004




THE CHASER

Adaptação e tradução de um conto de John Collier.


Alan Austen estava mais nervoso que um bicho acuado zanzado pela vizinhança da Pell Street. Mais nervoso ficou quando finalmente encontrou o endereço indicado e subiu as escadas escuras no corredor lúgubre. As escadas rangiam e Alan tremia.

Empurrou a porta, como havia sido instruído e entrou em uma sala minúscula e sem mobília, exceto por uma mesa de cozinha, uma cadeira de balanço, uma cadeira comum e algumas prateleiras contendo diversos frascos de diferentes formas.
Um velhinho lia o jornal enquanto se balançava vagarosamente...

Alan, rapaz tímido e inseguro, entregou um cartão de recomendação ao velho senhor, sem proferir uma só palavra.
- Sente-se Mr. Austen, disse o velho educadamente. Prazer em conhecê-lo.
- É verdade, disse Alan, que o senhor possui certas "misturas" que têm efeitos... er... extraordinários, milagrosos? O fato é que... começou Alan.
- Aqui, por exemplo, interrompeu o velho homem pegando um frasco da prateleira: este líquido é inodoro, incolor e o melhor de tudo, completamente insosso, portanto imperceptível misturado em café, chá, leite, vinho ou qualquer outra bebida. O mais interessante é que não aparece nem no melhor e mais sofisticado tipo de autópsia.
- O senhor está me dizendo que trata-se de veneno? gritou Alan aterrorizado.
- Ah, chame como quiser: limpa-forno, limpa carpete, disse o homenzinho com indiferença. Deve limpar bem um forno, pode estar certo disso. Há quem chame de limpa vida. Às vezes vidas têm de ser limpas...
- Pelo amor de Deus! Eu não vim atrás de nada deste tipo, disse Alan atônito.
- Sabe o preço deste produto? Para que você tenha uma idéia, uma colher de sopa cheia, custa 5.000 dólares. Nem um centavo a mais, nem um a menos.

Alan sentia o suor frio escorrer pelo pescoço.
- Espero que suas outras "poções" não sejam assim caras! exclamou Alan apreensivo.
- Não, nem pensar, disse o homem. Eu jamais cobraria um preço exorbitante desses pela poção do amor, por exemplo. Afinal, os jovens que me procuram para comprar a poção do amor, raramente dispõem de 5.000 dólares. Se tivessem, aliás, nem precisariam a poção...
- Estou aliviado, disse Alan.
- Eu penso dessa forma: "Agrade seu cliente com um artigo e certamente ele voltará quando precisar de outro... Ainda que seja muito caro, o cliente economizará, se necessário for".
- Então o senhor vende mesmo a tal poção do amor?
- Se eu vendo poção do amor? Se não vendesse, nunca mencionaria a outra... isto é assunto ultra confidencial.
- Mas diga-me, essas poções não seriam só... er... só...
- Não meu amigo, o efeito é permanente e se estende muito além de um impulso casual. É forte, é intenso e é para sempre. Considere o lado espiritual: a indiferença é substituída pela emoção, o descaso pela adoração. Dê uma dose mínima para a sua amada e verá os efeitos. Misture ao suco de laranja, sopa, cocktails e verá. Por mais indiferente que ela seja, ela se transformará na pessoa mais apaixonada do mundo. Só existirá você e somente você.
- O senhor deve estar brincando, eu mal posso acreditar.
- É a pura verdade. Ela terá medo cada vez que uma mulher se aproximar de você.
- Haha, o senhor quer dizer que ela vai ter ciúmes de mim?
- Sim, ela vai querer ser tudo para você.
- Ela já é tudo para mim, mas nunca me dirigiu um olhar sequer.
- Mas ela vai, depois de tomar a poção ela será intensa, você verá.
- Que maravilha! gritou Alan.
- Ela vai, vai sim, querer ser tudo para você, cuidar de você e da sua vida, de sua comida e da casa. Se por algum motivo você se atrasar uma hora, ela ficará atemorizada. Vai pensar que você foi morto ou que está com alguma "sereia".
- Não posso imaginar Diana, altiva, elegante e indiferente se comportando dessa maneira.
- Pois fique certo...

Alan estava regozijando de prazer, quando o velho homem disse:
- Você nem vai ter de usar sua imaginação... e você sabe, "sereias" existem. Se por acaso, daqui a algum tempo, você der uma escorregadela, pular a cerca, como se diz, não se preocupe. Ela perdoará. Ficará machucada, triste, mas perdoará no final.
- Eu trair Diana? Nunca, nunca acontecerá!
- Sei, sei... mas se vier a acontecer, ela perdoará e nunca vai querer se divorciar ou lhe dar o divórcio. Sem contar que ela jamais te dará este tipo de preocupação.
- E quanto custa esta "mistura" fantástica que o senhor faz?
- Ah, nada parecido com o limpa forno, ou limpa vida como dizem. Para o limpa vida a pessoa precisa ser mais velha, se permitir... e guardar dinheiro, afinal 5.000 dólares não é pouco.
- Mas e a poção do amor? perguntou Alan.
- Ah, isso, disse o homem.

Alcançou a prateleira, pegou um frasco pequeno e disse: - Um dólar.
- Nossa, nem sei como agradecer!
- Nem precisa, meus clientes sempre voltam, mais tarde na vida, quando já estão estabelecidos, ganhando bem e querem então, produtos mais caros.
- Aqui está, você vai achar a poção muito, muito eficaz.
- Muito obrigado, muito obrigado e adeus.
- Au revoir, disse o velho.


Quarta-feira, Setembro 22, 2004



LEMINSKI



Leminski me faz vibrar e pensar que é primavera...


Flor de primavera brota na face?




Aço e Flor
Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.




HAI

Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

KAI

Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.




nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima



parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta


Imagens daqui, daqui e daqui.


Segunda-feira, Setembro 20, 2004



O CASO DOS DEZ NEGRINHOS



Era mais ou menos nove da noite quando vinha passando pelo farol da Faria Lima com a Nove de Julho.
Vidros fechados, carro engatado e o olhar furtivo para os lados, típico de qualquer paulistano de juízo.
Como na maioria dos faróis das áreas nobres, os motoristas eram "visitados" por uma porção de gente em busca de dinheiro. Mais alguns daqueles moleques sem rosto para os quais a gente se acostuma a virar a cara, ficar mexendo no celular e inventando mil outras atividades para fingir que não os vemos.
"Dá uma moedinha aí, moço?"



Apesar de ter plena consciência da violência urbana, desigualdade social, da fome que assola nosso país, principalmente nos grandes centros, não tenho medo de assaltos.
Não dirijo de vidros abertos, mas costumo abri-los e conversar com pedintes e vendedores.
Quando algum vendedor se aproxima, ao invés de fingir estar fazendo algo muito importante, costumo abrir o vidro e conversar.
Até que estou "sem nenhum" explico, e geralmente escuto: "Vá com Deus".
Já fiz amigos, fãs e até presente já ganhei: duas bolas de vidro, daquelas que quando a gente mexe, neve ou papeizinhos aparecem. As minhas continham uma enorme rosa. O gosto era pra lá de duvidoso, mas achei lindo, foi de coração.
- Quanto será que aquilo custou, pensei eu.

Totalmente atípica sou eu e talvez um pouco louca, por que não?
Na verdade não sou fadada a assaltos, não os atraio por não ter medo.
Sou partidária também de que um bom sorriso abre muitas portas.

Quando vivi em Salvador, uma coisa me chamava à atenção: na porta dos supermercados, ao invés de um garoto vir ajudar o comprador e receber 1 ou 2 reais, vêm seis ou sete e pedem bolacha, yogurt, ou qualquer guloseima.
Já comprava a mais e fazia a distribuição. É obvio que eles adoravam.
Sem dúvida nosso país sente fome...

Um dia estava eu na porta de uma vídeo locadora e um garoto que olhava o carro se aproximou.
O dito já vinha me observando há tempos. Para ser mais precisa, ele admirava o carro.
Não era nem um carro maravilhoso, nem me lembro a marca.Lembro-me que era novo.
Ele veio, olhou e disse que meu carro era lindo.
Sem pensar duas vezes convidei-o para dar uma volta.
- Entre aqui e vamos tomar um sorvete...
- Posso levar meus irmãos?
- Pode, respondi.
- E meus amigos?
- Chame aí, e vamos ver quantos cabem dentro desse carro.
Couberam 10 lindos negrinhos, eufóricos.

Meu amiguinho foi na frente, dava ordens aos outros e encantado passava as mãozinhas no painel e tecia comentários.
Quase ofereci se ele não gostaria de dirigir um pouco. Desisti. As perninhas não alcançariam, ele não devia ter carteira de motorista, bateria o carro e eu iria, provavelmente, parar em alguma delegacia da Cidade Baixa.
- Não, pensei. Melhor dirigir eu mesma.

Velocidade razoável, (que meus novos amigos não haveriam de apreciar uma lerda no trânsito), música alta, batendo papo, desci a Avenida Oceânica e fomos tomar sorvete.
Na sorveteria fui logo avisando: - Estão comigo!

O calor intenso e a inesquecível luminosidade baiana... sorvete cai sempre bem demais..

Os garotos eufóricos e lambuzados estavam adorando a figura louca que os levou para passear de carro e tomar sorvete.
Meu amiguinho disse, mais pensando alto do que qualquer outra coisa:
- Se não derretesse todo, eu levava pra mainha e pra meu irmão pequeno.
Mandei encher uma caixa de isopor com sorvetes e disse:
- Leve pra mainha. Como é que ela se chama? perguntei
- Cosma, disse ele com uma ponta de orgulho.
Fiquei imaginando se Cosma teria uma irmã gêmea chamada Damiã ou Damioa...

Voltamos conversando, eles felizes e meu coração pleno de ternura e paz.
Com tão pouco, tinha feito a felicidade daquelas 10 crianças carentes.
Estava feliz! Faria aquilo mais vezes.

Mas ninguém é perfeito e passada a aventura, a felicidade, a paz interior, um único pensamento me atormentava:
- Será que peguei algum piolho? Socorro!

UPDATE:

O primeiro parágrafo é do Nani.
O texto poder ser lido AQUI, ou no blog da Adorável.
Nani me fez lembrar esta passagem e nossa história é parecida. O final dele é imensamente mais sério e profundo que o meu.
O título é uma brincadeira com o livro de Agatha Christie.
Não peguei piolho (nem deles e nem de qualquer outra criança do meu convívio habitual, coisa pra lá de corriqueira), felizmente. Meu cabeleireiro teria um ataque de nervos.


Quarta-feira, Setembro 15, 2004



JÁ SEI MEDITAR



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Já sei meditar...
Já sei beijar de língua,
Agora só me resta sonhar...


Aprendi a meditar!

Uma vontade de cantar que A Paz Invadiu o Meu Coração, Amor I Love You, The Way You Look Tonight, La Mer.

E ainda estou na terceira aula. No final do curso estarei impossível

Tendo a querer convencer as pessoas, quando gosto delas e de algo, de que aquilo é bom, faz bem ao corpo e a mente.
Mas sei também que cada um tem seu tempo.
A sensação que tenho é de fui chamada até aquele local.

Conheço pessoas que meditam. Pouco falam no assunto. Mas para o meu sentir, que costuma ser aguçado, notava que são donas de um olhar diferente... plácido e tranqüilo.
E olhos falam muito... muito mais que bocas.
Olhar atormentado, olhar triste, não existe entre os que meditam.
Somos como o mar, ora revolto, ora mais calmo, mas nunca estático.
Tentamos resolver angustias e ansiedades sobre as ondas.
Aprendi que temos que entrar nas profundezas do oceano, com os equipamentos certos, e lá no fundo resolvemos qualquer coisa que nos atormente ou preocupe, em um ambiente de paz.

A MT é uma técnica mental simples, natural e fácil de aprender.
Ela é praticada durante 15 a 20 minutos, duas vezes por dia, sentados confortavelmente com os olhos fechados.
Durante a MT, desfrutamos de um repouso duas vezes mais profundo do que o do sono, eliminando o stress, que é a causa principal dos desequilíbrios fisiológicos e mentais.

Devido ao ritmo acelerado da vida, nem sempre é possível desligar da atividade.
Mesmo quando conseguimos nos afastar, a mente é incapaz de se aquietar naturalmente devido ao stress e tensão acumulados.
A técnica de MT permite que a mente se aquiete automaticamente, alcançando um estado perfeitamente calmo, integrado e alerta, em que o corpo repousa profundamente.
Faz bem ao corpo, mente e comportamento.
Combate insônia, stress, arritmia, hipertensão, cansaço, ansiedade, pessimismo e depressão.
Desenvolve a criatividade, inteligência, memória, auto-confiança, auto-realização, auto-estima e percepção.
Proporciona repouso absoluto, energia, felicidade interior e harmonia nos relacionamentos.

Não, eu não estou sendo comissionada por Maharishi Mahesh Yogi, até por que a linda figura mora na Índia.
Mas estou feliz e queria compartilhar isto com vocês todos.
E a vontade de cantar não passou:

A paz invadindo meu coração
De repente me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde um dia não me enterro mais

A paz fez um mar da revolução

Invadir meu destino... A Paz...



Sexta-feira, Setembro 10, 2004



MEDITAR



Esta semana visitei o blog da Kel e me deparei com o termo "finger food".
Lembrei-me do espanto que senti ao ouvi-lo pela primeira vez.
Minha elegante professora de inglês conversava a respeito de dar uma festa e que serviria apenas "finger food". Na mesma hora pensei que ela receberia canibais como convidados.
É impressionante como algo tão óbvio, às vezes, deixa a mente humana embotada.

"Finger food" são aperitivos, comidas que a gente pode pegar com a mão.
O francês já vem chamando de "amuse doigts" e penso que para nós são aperitivos, salgadinhos ou tira-gosto.

Então, Caio, o acarajé e abará são "finger food".
Sushi, Adorável, pode ser "finger food".
Cacau me surpreende a cada dia: além de ser hoje eximia dançarina de pagode, consegui fazê-la provar um canapé de carne seca com abóbora, que é "finger food". Ela odiava tanto abóbora, quanto pagode. As coisas mudam, hoje é quase uma aficionada.
Já minha amiga Rubineide, a Neydinha, aprecia as delícias da culinária cubana.
Porque, companheiros, de Cuba entende ela. Impressionante!

É incrível, mas esse mundo virtual nos leva a descobrir preferências culinárias.
Sei que meu amigo Moreno adora um Beirute. Mas ele é um bom garfo, come de tudo.
Rubia, a Euzinha, adora o feijão de mainha.
Milton, um "restauranteur" aprecia a tradicional cozinha italiana, penso eu, mas acho que não dispensa um bom churrasco, estarei certa?

Já com Lilia, troco receitas. Temo ter estragado "a colega" do seu jantar de ontem.
Disse-me Lilia que o frango ficou um tanto escurinho. Pudera, eu mandei deixar nem sei quanto tempo em fogo brando... devo ter estragado a franga, isso sim.

Como posso ter a cara de pau de dar receitas casada com um verdadeiro "chef", e sem saber acender o fogão, praticamente; ensino alguém a fazer um frango... rs rs.
Por outro lado, adorei sua receita da salada de batatas.

A Polly gosta de chocolate, a Helô de banana, Giniki de sorvete, Karina de bolo bonito e bem feito e Leila, assim como eu, gosta de um bom vinho.
Teca gosta de tudo que é natural.
Já meu amigo Marco adora chocolate com menta e torta de trufas.
Diana gosta do sabor das frutas e de suas cores.
Denise de churrasco e chimarrão...

Alguns não falam do assunto, mas sei que meu querido Ery se alimenta de música, Cathy da dança, Anne de poesia...

Levaria horas falando de todos, mas citei aqueles que, se minha memória não me trai, já tocaram no assunto.
Isto não quer dizer absolutamente que não ame os que não sei se preferem frango à maçã.

Ainda penso no por quê de não ter entendido imediatamente o significado de "finger food".

Há anos penso em fazer Meditação Transcendental por vários motivos. Acabo sempre adiando...
Dessa vez decidi!

Os psicólogos acreditam que utilizamos 5 a 10% do nosso potencial mental.
Isto quer dizer que na nossa atividade diária utilizamos apenas uma fração reduzida do potencial disponível.
Também significa que utilizamos uma parcela limitada da nossa criatividade e inteligência para tomar decisões que afetam o dia-a-dia e o nosso futuro.

Convidei minha querida Deize, mesmo sabendo que ela não teria tempo.
Não pôde mesmo aceitar. Anda corrida, uma pena. Adoraria desfrutar de sua companhia.

Adorável!!! Claro! Como não havia pensado nela antes...
Telefonei e convidei-a:
- Vamos fazer Meditação Transcendental comigo?

Do outro lado da linha a lendária figura me responde:
- Hummmmmm, degustação de Emmental? Parece bom!! Se vier me buscar eu vou!!!


Quarta-feira, Setembro 08, 2004



PENSAMENTO

Omraam Mikhaël Aïvanhov


"Um jovem coloca entre as páginas de um livro a flor que a sua amada lhe deu.

Certo, as pétalas da flor murcham e ficam desbotadas em pouco tempo, mas o que importa?
Toda vez que ele olha a flor, parece que a sua amada lhe sorri, e lhe diz tantas coisas através dela.
Ele a coloca no coração, encosta os seus lábios nela, e a flor é como um talismã que lhe abre as portas do céu.
Ela lhe traz alegria, sente-se inspirado, torna-se um poeta.

Mas com o passar do tempo, eis que a relação com a jovem não lhe parece mais tão ideal.
Agora ele mal se lembra da flor colocada há um tempo entre as páginas do livro: a flor não lhe diz mais nada, é como se tivesse se tornado muda e vazia.
E um dia acaba jogando-a fora.

O que aconteceu?
A flor sempre esteve ali, não mudou, mas foi ele quem mudou.

Ele havia feito da flor um talismã, e agora é ele quem lhe tira o poder."


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Apesar de ser Setembro...



Sexta-feira, Setembro 03, 2004



ELEGÂNCIA



Qual o escritor que não tem medo de escrever?
Eu, tímida que sou (aqui Adorável vai gargalhar, como sempre faz, quando me chamo de tímida) tenho esse medo. Todos temos... já que escrever nos expõe, nos mostra, nos dilacera por dentro.

Escrever é riscar e arriscar-se... e o medo faz mentir (apesar de que todo contador de casos, todo cronista é um exagerado mentiroso, mas isso é uma outra coisa).

Perder o medo...
Só há uma forma de perder o medo.
Isto eu aprendi num diálogo platônico em que Sócrates conversa com dois velhos generais sobre o conceito de coragem.
Coragem não é enfrentar o que está fora de nós. O grande medo que temos é o medo de nós mesmos, de perdermos o controle sobre nós mesmos, de perdermos nossa alma. Mas quem não se arriscar a perdê-lo, perderá mesmo!

Medo de perder a mão, a elegância... aqui a etimologia pode ajudar.
Elegância vem do verbo "legere", que deu origem as palavras "ler" e "legião".
Legião, sabemos o que significa. Ler também, mas ler é escolher livros e capturar palavras.
Daí entra a elegância, o saber escolher as palavras certas nos momentos adequados.

Assim como gestos, roupas, comportamento, a elegância depende do contexto.
Dizer algo elegante depende também de quem ouve.
Quanta deselegância usar palavras eruditas com um pedreiro e quanta deselegância soltar vários palavrões em uma defesa de tese, por exemplo.
Sou partidária, como Nelson Rodrigues, de que palavrão também é filho de Deus. E Nelson, na minha opinião, sabia usá-los.

São muitos os escritores, que neste mundo virtual, podem se dar ao luxo de escrever sobre qualquer assunto, sem perder o ponto. Não cito nenhum exemplo pois posso esquecer alguém momentaneamente.
É obvio que o inverso também acontece...

Ser elegante no dia a dia depende de limites. Uns têm mais paciência outros menos, mas invariavelmente mostramos a elegância ou a falta dela em situações de emoção, sejam elas boas ou más. É fácil perder a "razão" em face a emoções extremas.
Ser elegante é olhar nos olhos do outro, é respeitar o próximo.

Sem nos esquecermos que para tudo existe um limite:
- Poderia eu, minha prezada senhora, por obséquio, adentrar sua belíssima cavidade vaginal?
Nem pensar!!!


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