Terça-feira, Maio 31, 2005
SIMPLESMENTE, YAMANDÚ
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"Eu sou gaúcho lá do Passo Fundo e trato todo mundo com muito respeito,
Mas se alguém me pisar no pala o meu revolver fala e o buchincho está feito..."
Nunca tinha assistido a um show de Yamandú.
Sua figura, pouco simpática a princípio, pala no ombro direito, nariz empinado, performático e com jeito de poucos amigos, me fez lembrar a música de Teixeirinha.
- Esse cabra deve ser bravo, pensei eu.
E o menino disse boa noite e começou a tocar. Tocar?
Tocar é muito pouco. Ele arrebenta o violão de oito cordas. Toca para si próprio, transforma-se em um lunático.
Lunático sim, pois olha para cima, para a lua, para o cosmo, para o interior de sua própria alma.
Yamandú sai de si, é transportado e nos leva junto.
A cada música uma afinação diferente.
E ele manda outra...vai de Tom Jobim, Danilo Caymmi, Radamés Gnatalli, Piazolla, Ernesto Nazaré, Villa Lobos.
Sua técnica apurada é combinada a um repertório delicioso, além de ser um grande compositor.
Improvisa o tempo todo.
Conta-se que ainda muito pequeno, foi tocar com um primo que o abandonou no palco em plena a apresentação. Assim ele começou a improvisar. O que faz magnificamente bem até hoje.
Filho de músicos viveu no meio artístico a vida toda.
Pegava o violão aos quatro anos e aos sete já tocava.
Não acredito que isto tenha feito dele a estrela maior que é, não sei se estuda como louco.
Acho que é um predestinado, um virtuose.
Aos dezesseis anos ouviu um elogio:- Você vai ser grande, importante e terá muito a fazer pela música brasileira. O autor do elogio foi Baden Powell. Proféticas palavras.
De Angelino Oliveira, toca "Tristeza do Jeca", em homenagem a avó. O público se emociona, eu inclusive.
A avó foi ao concerto e ele tocou certa vez, para agradá-la, já que ela o havia embalado ao som da canção caipira.
- Gostou, vó? perguntou ele animado no final.
- Bah! Uma merda! Tu não cantas!
Ele conta que a cada improviso a velhinha revira os olhos, não gosta.
E assim ele foi terminando, o público delirando e avisou que tocaria a última música.
Todos reclamaram e ele graciosamente acrescentou:
- Eu toco, saio, vocês aplaudem, eu volto e toco outra.
Voltou, tocou "Carinhoso" ao som da voz dos espectadores.
Yamandú toca com dedos rápidos, com o corpo, com a alma.
A precisão dos acordes impressiona ao mesmo tempo em que brinca de tocar.
Ao entregar-nos seu CD autografado, nos convidou a sentar em sua mesa.
E aquele gênio, aquele "demônio" que tem mãos que percorrem o violão sem que percebamos onde está indo, mas que eu achava muito sério, antipático, snob até, mostrou-se engraçado, educado e com muito senso de humor.
Obviamente não pisei em seu lindíssimo pala...
Então penso: Como não me apaixonar?
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Monica às 12:44 PM
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Terça-feira, Maio 24, 2005
FELÍCIA LEIRNER E YAMANDÚ COSTA...QUE DUPLA!
Estava sentada em uma cadeira de vime, admirando o bucolismo da paisagem, aquelas montanhas e árvores, que são todas minhas amigas íntimas há tantos anos, ao som de Yamandú Costa, e pensei alto:
- Este menino me comove...
Todos comentaram que ele é mesmo ótimo.
Coincidência? Não sei, mas um amigo querido que estava hospedado em minha casa, voltou das compras para o almoço... aquele almoço de comer rezando, e alvoroçado comentou: - Yamandú toca hoje em Campos do Jordão, no auditório Cláudio Santoro, às 8 da noite.
Não tive a menor dúvida, disse imediatamente: - Eu vou! Aquele jeitinho de "quem quiser me siga, porque eu vou mesmo". Coisa raríssima de acontecer. Não sou grande fã de Campos do Jordão e gosto mesmo de ficar enfiada no mato entre flores, cavalos, pássaros e hortas.
Acontece que era Yamandú e ele me é irresistível, ou aos meus ouvidos.
Chegamos no auditório, que fica ao lado do Museu Felícia Leirner, em Campos, numa área de 50.000 m2, rodeada por alamedas, bosques e jardins.
Conheci Felícia pessoalmente na infância. Linda pessoa, sorriso franco, escultora de primeira linha. Gostava de ouvi-la falar, gostava de sua voz.
A filha de Felícia conheci vagamente e hoje, virtualmente, conheço a neta, temos quase a mesma idade...
Ao entrar no Auditório folheei um livro: "A arte como missão". Lindo livro. Pensei na neta.
Felícia era fantástica: fina, educada e na contra-capa do livro tem sua foto de cabelos brancos, sorridente, junto com um gatinho também branco.
"Iniciou seus estudos como aluna no ateliê de Victor Brecheret , em 1948; estudou pintura com Yolanda Mohalyi. Casou-se com Isai Leirner, industrial que teve importante papel no cenário das artes paulistas na década de 40 e foi um dos fundadores e diretores do Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP, além de ter sido o criador do prêmio Leirner de Artes Visuais".
Em 1965, mudaram-se para Campos do Jordão, SP, onde, em 1978, foi inaugurado o Museu Felícia Leirner, com mais ou menos 70 esculturas, a céu aberto. Lindo de se ver.
A neta de Felícia é a minha querida Sheila.Tem um blog extraordinário. Adoro, visito freqüentemente. Nem sei quem descobriu quem. Eu a descobri, acho, para meu deleite e intuo que conhecerei (como conheci a avó e a mãe), um dia, Deus sabe quando.
Se eu escrevi algo errado, me corrija, s'il te plait (j'ai crois que je peut te tutoyer, d'accord?).
Ia falar de Yamandú, mas me excedi com Felícia.
Admirar a obra de Felícia e ouvir Yamandú no mesmo dia é dádiva divina, é para corações fortes.
Então Yamandú, uma grande paixão, fica para mais tarde...
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Monica às 11:40 AM
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Quarta-feira, Maio 11, 2005
UPDATE:
Saí por três dias e quando retornei encontrei esta agradável surpresa:
Obrigada.
Um beijo aos amigos pelos comentários carinhosos.
CULINÁRIA
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Desde a infância, durante a adolescência e agora na maturidade vivo rodeada de grandes chefs, cozinheiras maravilhosas, doceiras.
Gente, enfim, que entende do riscado. Gente que sabe a alquimia dos ingredientes.
Gente que vai até o fogão, do mais simples ao de lenha, ou mesmo um desses sofisticados, e maravilhas acontecem.
Minha avó paterna cozinhava como uma deusa, minha sogra tinha mãos de fada na cozinha, minha mãe, ah... faz um feijão que quem provou nunca esqueceu.
Meu marido é um autêntico "chef" e, surpreendentemente descubro que minhas duas filhas, além do genro, cozinham bem!
Mulher e marido cozinhando juntos... é puro amor, é vida e sentimento.
Aliás, cozinhar é um ato de amor.
Adorável cozinha muito bem e aprecia o que faz!
E eu? Eu como...
Gosto de comer. Sou o que chamam de um bom garfo.
Não sei cozinhar, para minha infelicidade. Não mataria ninguém de fome, mas não tenho aquele algo mais que faz da pessoa um inventor de misturas e sabores, um artesão, um artista.
E eu? Eu como...
No mundo da arte que cria distorções que vão dos esqueletos anoréxicos de Giacometti à burguesia obesa de Botero, fico com o meio termo.
Tenho sorte, a sorte de não ser gulosa ou ter um metabolismo bom, quem sabe?
Talvez coma razoavelmente pouco, como os franceses, apenas para esperar a próxima refeição.
Não aprecio pratos grandes e costumo comer com os olhos, portanto pratos bonitos me encantam.
Tenho remexido em livros e mais livros e tenho comido alguns, de uns tempos pra cá.
" O Livro de Cozinha" de Alice B. Toklas é saborosíssimo (obrigada Milton, você refrescou minha memória)...
Alice era amante de Gertrude Stein; mulher à frente do seu tempo e cozinheira de mão cheia.
Ambas americanas, Gertrude muito rica, decidem morar em Paris, onde a vida para pessoas "alternativas" era infinitamente mais fácil, menos cruel eu diria, isso por volta de 1925 e Gertrude foi um sucesso.
Hemingway contava que muitas vezes (além de adorá-la), ia até sua casa para matar a fome e o cheiro das especiarias, temperos e ervas era sentido da esquina.
Gertrude recebeu, cozinhou e encantou a fina flor dos intelectuais de vanguarda e artistas franceses.
Alice publicou o livro em homenagem a companheira, pois Gertrude o escreveu em vida.
Conta-se que Alice tinha 1.50m, portava um bigodinho e comia os saborosos quitutes de Gertrude, além da própria Gertrude.
O livro é imperdível. Contém memórias, além de receitas maravilhosas.
E eu? Eu não cozinho absolutamente nada, ou quase nada, só como.
Um dia desses um senhor inglês disse alto e em bom som: - Vocês brasileiros têm a mania de comer TUDO!
- É meu filho, temos mesmo. Brasileiro tem fome... E ouso dizer que os que não podem, comem o pão que o diabo amassou, já os que podem e comem, têm bom gosto.
Culinária inglesa, tão "uncharming": aquela eterna carne com batatas e ervilhas... só com muita fome! Com sorte rola um Yorkshire Pudding, daí tem de se estar faminto mesmo!
E entre uma mulher bem feita e outra com a bunda alasanhada (obrigada Ery), brasileiro fica com a bem feita, o inglês fica sem nenhuma.
Prefere ler o Daily Express, Daily Mirror, a saborear qualquer uma delas.
É nós comemos barriga na tranca ou no buraco, ou comemos bola. Eu, desligada, sempre como.
Se o amigo leitor comer a dileta esposa do chefe, o chefe come seu fígado.
Os bancos comem nosso dinheiro.
Outro livro que comi esses dias foi "O Homem que Comeu de Tudo" de Jeffrey Steingarten.
Este abandona a advocacia e sai a experimentar "delicacies" do mundo todo.
No Japão vai para comer o Wagyu, carne de uma antiga raça de gado japonês, criada à base de massagens e acupuntura.
Em Palermo resolve escalar o Etna para descobrir as origens do sorvete. O chucrute o leva a Alsácia e o cheiro das trufas ao Piemonte. É crítico gastronômico da Vogue.
Lembrei-me subitamente de Peter Male Mayle (obrigada Zadig, imperdoável ter comido o "i grec"), o irreverente inglês que troca a city de Londres pela deliciosa Provence.
Ah! A divina culinária, os odores da região... eu sinto.
E paro por aqui, pois não quero que me comam viva. Nem morta.
Morta é necrofilia (urgh).
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Monica às 10:20 AM
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SER MÃE
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Mãeeeeeeeeeeeeeeee, estou "ridiquila"?
Quanto medo de parecer ridícula.
Quantas vezes, mãe, me arrumava, pequenininha, e te fazia esta pergunta?
Hoje não tenho mais medo. Ser for, há quem goste e a gente nunca agrada a todos.
Mãe, eu só quero que você fique boa.
Filha, linda mãe, te vejo cuidar de seu filho e me vejo em você.
Outro dia você amamentando dizia que estava doendo muito, seus seios inflamados, mas ao mesmo tempo você sorria...
Então eu disse: - Lembra? Ser mãe é padecer no paraíso.
Você sorriu e respondeu: - Tem razão!
Então para quem não sabe a origem dessa máxima, aí vai, no dia de hoje: Coelho Neto. Eu respeito!
SER MÃE
Coelho Neto
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.
Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
por
Monica às 10:18 AM
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