Terça-feira, Agosto 30, 2005



POUR LA LUNE



Bondinhos na Lua - Foto do Custódio Coimbra, publicada no "O Globo" - sábado, dia 20/08 - tirada da Enseada de Botafogo


Hoje queria falar de amor, de amar.
Amor puro, pleno, sem cobranças, sem limitações.

A lua me inspira, tanto quanto os dois bondinhos, que um dia vi da janela de minha casa.
Faz-me lembrar casais que não se encontram, quando um chega, o outro parte.
Faz-me pensar que o sol e a lua nunca se encontram.
Faz-me pensar em amores impossíveis.

Falar de amor pode ser tão banal, mas nunca houve um escritor, um bom escritor, que não tenha falado dele, do sofrimento, das lágrimas, da vida e da morte.
É... os grandes são contundentes, apaixonados, sofridos.
Escrevem longas frases, que ao invés de se tornarem maçantes ou incompreensíveis, soam como música.

Eu mesma me cobro. Poderia e deveria escrever algo mais denso, mais profundo.

Amar, amar o amor.
Beijos longos, ardentes, abraços apertados, pernas se entrelaçando, furor, frescor, êxtase.
Um gozo de palavras a escorrer como mel de minha boca. Um escancarar de mim mesma.

Meu ideal de escrever para me divertir é o mais prático que posso fazer no momento.
Deixo as lágrimas de sangue para romances alentados, cheios de personagens sofridos.
O riso castiga os maus costumes, mas é sempre um riso.
O segredo está em ter uma personalidade definida, atraente, que se manifeste em forma de texto.

E vem a exposição, o abrir o coração e a alma.

Ter estilo é imitar a si mesmo. Talvez, por isso viva a me imitar, mas não hoje, hoje falo de amor.
Noto que há ainda algum fiozinho me prendendo dentro de mim mesma... Alguma coisa anônima, agônica. O que será? Que morto tenho de enterrar?

Quero ser irônica, cômica, supersônica, bomba atômica.
Não... quero ser eu, e hoje, só hoje, quero falar de amor e da lua.

Preparava palavras à espera da lua.
E ela não vinha...
Lágrima furtiva me traía, insistia, teimosa, caía
Apertado o coração doía...
Na escuridão, um facho de luz
Era a luz do luar
Era a lua que me sorria.

Hoje não desejo verter palavras vãs.
A vida daqueles que amo, amei e amarei, que ela seja, a partir desse momento, repleta de caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos; é o que lhes desejo. Desejo, aliás, muito mais do que posso exprimir.

A quem possa interessar: Seja feliz!

PS - Hemingway achou, certa ocasião, que chegou a um momento difícil de sua carreira: "Tenho de agradar ao público e também tenho de agradar a mim mesmo. E é raro que o nosso gosto coincida".



Segunda-feira, Agosto 22, 2005



FRANK


Não sei bem qual a minha relação musical com Frank Sinatra. Na juventude nem prestava atenção, estava voltada para outros intérpretes e Sinatra me parecia música de velho... música para ouvir e sonhar.
Não devo ter sido uma adolescente lá muito sonhadora.
Por outro lado, nunca pude negar que "Old Blue Eyes" era merecedor do título "The Voice".
Com o passar dos anos, meus gostos foram se modificando e hoje posso dizer que gosto de sua interpretação e voz.
Classifico cantores da seguinte forma: se tenho CD's, conseqüentemente, gosto.

Frank, provou também ser um grande ator em: "From Here to Eternity" (1953), filme que lhe rendeu um Oscar de melhor ator coadjuvante. E continuou com performances memoráveis, como em: "The Man with the Golden Arm" (1955), "Suddenly" (1954) e ainda "The Manchurian Candidade" (1962), segundo alguns, seu melhor filme.

Não vou discutir aqui se teve ou não envolvimento com a máfia, provavelmente sim, mas cansou de mostrar que tinha talento e era um perfeccionista.

Imagino como ficou nosso Antônio Brasileiro de Almeida Jobim, ao receber o telefonema de Francis Albert Sinatra, dentro de um barzinho, convidando-o para gravar um disco... Ah! Jobim deve ter estremecido.

É... eu gosto de Frank Sinatra, nunca havia pensado muito nisso.
Carismático, charmoso, dicção perfeita, citações bem humoradas, conquistou mulheres lindíssimas e tinha A VOZ.

Recebi então um casal de amigos, mais amigos de minha mãe do que meus, portanto conheceram melhor Frank Sinatra do que eu.
O casal falou quase que em uníssono:
- Esta criança é a cara de Frank Sinatra!
A criança é meu neto, Francisco, e o casal passou o fim de semana todo a chamar Francisco ora de Frank, ora de Little Blue Eyes.
Fui então olhar umas fotos de Sinatra e achei que Francisco poderia tranqüilamente ser bisneto de Frank e teria, praticamente, o nome do bisavô, Francis.
Olhos iguais, sorriso charmoso, covinhas ao lado da boca. Carisma já tem; sabe pedir colo como ninguém... É existe uma semelhança.

Frank Sinatra nasceu em Hoboken, New Jersey, cidade onde morou minha amiga Lilia.

Um belo dia um pássaro cantador, apareceu em sua casa. Ele vinha saudá-la todas as manhãs. Imediatamente, minha amiga se tomou de amores pelo passarinho, batizando-o de Frank em homenagem ao pai, que era fã ardoroso do cantor.

O tempo passou. Um dia Frank se foi e Lilia mudou-se para Anápolis.



Amante da flora e fauna, logo minha amiga começou a mexer com plantas, faz lindos arranjos ornamentais e arrumou um bichinho de estimação. Desta vez não é um pássaro, e sim um ESQUILO.
O bichinho foi chegando sorrateiro.
Sem muita cerimônia, entrou na sala, derrubou seus cristais, acabou com um aparelho de jantar.
- Amigaaaaaaaa, você tem "a rat as a pet"?
- Sim, disse-me ela toda prosa. Ele é danadinho! Está acabando com a casa! disse ela rindo.
- As plantas?
- Remexe em todas. Destruiu vasos, vasinhos, arranjos, bonsais, todas as flores.

Minha amiga acha uma graça!!! Conversa com roedor, trocam idéias, alimenta o bichinho com as mais finas oleaginosas.
Já sabe que ele não gosta de cenoura, que enterra uvas nos vasos, mas come algumas; que adora amêndoas e amendoins.
Mudou a decoração da casa em função do animalzinho e hoje a maioria das plantas estão "quase" salvas.
Resolveu chamá-lo de George. Se ele fosse do bem, seria George Washington, se não, seria George Bush.
Intrometida, fui logo dizendo:
- Abrasileira esse nome! Chame de Jorge, Jorge Bem, ele é do bem!

Tornei-me assim madrinha de um esquilo. Eu!!! Que tenho pavor à qualquer roedor...

Mas Jorge é especial. É esquilo americano, chique... precisa urgentemente de uma manicure... preciso providenciar.

Socorro, alguém me ajude, estou confusa!!! Sou avó de Frank Sinatra, madrinha de Jorge Benjor e ando de amores com um roedor, é isto?


Segunda-feira, Agosto 15, 2005



VOCAÇÃO

Zadig




Mon cher ami, Zadig.

Penso que você vai se arrepender por ter me feito cinco perguntas diretas e receber tão longa resposta. Talvez nunca mais me pergunte nada... helàs.

Fico muito contente! Você parece ter encontrado dentro de si, mais uma vocação. Pelo que entendi, você teve uma experiência muito boa com seus catequizandos, falou sobre vocação e eles se sensibilizaram com suas palavras.

É meu amigo, você compreendeu o chamado...

Permita-me publicar minhas respostas, às suas perguntas? Agradei-me do assunto e bem ao meu jeito fui respondendo sem numerá-las.

Aí vão:

1 - O que é a vocação para você?
2 - Como se relacionam vocação e ideal?
3 - Qual a suprema vocação do ser humano?
4 - Qual o lugar (físico, geográfico, real) que mais expressa sua vocação?
5 - Idem à anterior: e o lugar sonhado (virtual)?

Vocação, vacation, vacacione, vacance...
Todas essas palavras e a etimologia delas, me levam a pensar: Será que temos a vocação inata para vivermos em férias, ou em festa? Hemingway pensou assim um dia, em seu "Paris é Uma Festa".
Os "anos loucos", espaço de uma década entre o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919, e o crash da Bolsa de Nova York em 1929, ficaram na história da música e das artes por terem consagrado o jazz como estilo e dado projeção a um grupo de escritores americanos que adotou Paris como território para, de lá, combater a mediocridade intelectual da América.
Entre esses artistas, estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Ezra Pound.
Mas, todos eles tinham uma vocação bem determinada e ainda trabalhosa. Escreviam... e com que talento!

Minha brincadeira à parte, sobre vocação ser "viver em" férias, envio minha opinião.
Vocação é talento, é dom, é o que o indivíduo é talhado para exercer, muito embora, às vezes não saiba. Porém, na maioria das vezes ela seja intuitiva ou óbvia.
Talento é aquilo que pertence a um ser e não resulta de qualquer aprendizagem ou experimentação efetuada após o nascimento.

Agora você me corrija se eu estiver errada, pois você é especialista no assunto:
Consta na bíblia que não devemos enaltecer o dom, o talento, pois ele nos foi dado de presente, ofertado por Deus. Ninguém luta para alcançar um dom, chegamos assim na segunda pergunta... lutamos sim, por um ideal.
Quantos indivíduos conhecemos que não tinham a menor vocação, predestinação, para exercer o que exercem, mas com garra, força e muita determinação, alcançam seu ideal.

Vocação, quando reconhecida, é parceira do ideal.
Se o indivíduo tiver talento musical e desejar ser maestro, ele conseguirá, certamente.
Esqueçamos que nossa mente é cheia de mazelas, esqueçamos os pecados capitais.
Estamos supondo que o indivíduo não tenha preguiça..

A suprema vocação do ser humano é fazer o que gosta, o que lhe dá prazer. Se ele ainda receber por isso, então é o céu! Receber reconhecimento, espécie, fama, o que desejar.
Sucesso é conseqüência de um talento bem exercido.
Talento lapidado com uma boa dose de humildade, para unir o talento à aprendizagem.
Não adianta a pessoa ser afinadíssima, ultra musical e não aprender a ler partituras.

Não devemos esquecer que vamos morrer aprendendo...

Todo e qualquer lugar onde nos sintamos felizes, no meu caso, poderia ser minha casa.
Uma nuvem, o céu, o paraíso, qualquer lugar onde possamos ser felizes.

Finalmente volto ao começo: se o indivíduo tem talento e busca um ideal, ele se sente feliz, regozija o viver, não importa onde, ele vive a vida, eternamente em férias!


Terça-feira, Agosto 09, 2005



DOROTHY PARKER


Ah, meu Deus, se existiu alguém no mundo literário que adoraria ter conhecido, esse alguém foi Dorothy Parker.
Implacável, temida, dona de um senso de humor exato, além de uma língua pra lá de ferina. Contudo um ser humano muito sensível.
Como eu gostaria de ter me sentado, Senhor, na "round table" do Hotel Algonquin e participado daquelas conversas... dar palpites, por exemplo, no conto abaixo, escrito por volta de 1930.


Caricatura de Al Hirschfeld
A Round Table do Hotel Algonquin.
No primeiro plano, em sentido horário, Robert Sherwood, Dorothy Parker, Robert Benckey, Alexander Wollcott, Haywood Braun, Marc Conelly, Franklin P. Adans, Edna Ferber e George S. Kaufman.
No segundo plano, da esquerda para direita, os Lunts, Frank Crowninshield e o hoteleiro Frank Case.



UM TELEFONEMA


Ah, Deus, faça com que ele telefone agora. Por favor. Faça-o ligar agora. Nunca mais Lhe pedirei nada, juro. Não estou pedindo muito. Não lhe custaria nada. Uma coisinha de nada. Só queria que ele ligasse agora. Oh, Deus. Por favor, por favor.

Se eu não pensasse no assunto, talvez o telefone tocasse. Às vezes, acontece. Ou se eu pensasse em outra coisa.
Como se pudesse pensar em outra coisa. Talvez se eu contasse até quinhentos, de cinco em cinco, ele tocasse. Prometo contar devagar. Prometo não fazer trapaça. Mesmo que o telefone tocasse quando eu estivesse nos trezentos, eu não pararia de contar. Não atenderia enquanto não chegasse nos quinhentos. Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta...Toque, telefone. Por favor.

É a última vez que olho para o relógio. Não vou olhar de novo. Agora são sete e dez. Ele disse que telefonaria às cinco. "Vou ligar para você às cinco, querida".
Acho que foi quando ele me chamou de "querida". Tenho quase certeza de que ele disse. Sei que ele já me chamou de "querida" duas vezes, e a outra foi quando disse "tchau". "Tchau, querida".
Estava ocupado e não podia falar muito no escritório, mas me chamou de "querida" duas vezes.
Acho que não se importou que eu ligasse para lá. Sei que não se deve ficar telefonando para eles no trabalho - eles não gostam muito. Quando você faz isso, eles sabem que você está pensando neles, e eles odeiam isso.
Mas não falava com ele há três dias - nem uma vez em três dias. E só liguei para perguntar-lhe como ia; qualquer pessoa poderia ligar por esse motivo. Ele não poderia ter se aborrecido com isso. Não poderia pensar que eu estava importunando. "Não, claro que não", disse ele. E disse que iria me telefonar. Não precisava ter prometido. Não lhe pedi para prometer, juro. Tenho certeza de que não pedi. Não acho que ele fosse capaz de dizer que ia me ligar, e depois nunca mais telefonar.
Ah, Deus, não o deixe fazer isso. Por favor.

"Vou ligar pra você às cinco, querida. Tchau, querida."
Estava ocupado e com pressa, e devia haver gente em volta, mas ele me chamou de "querida" duas vezes. Isso ninguém me tira da cabeça, mesmo que nunca o veja de novo. Ah, mas é tão pouco. Não é suficiente. Nada será suficiente se eu não o vir de novo.
Deus, por favor, deixe-me vê-lo de novo. Eu o quero tanto! Quero demais. Prometo ser boazinha, meu Deus. Tentarei ser melhor, se Deus me deixar vê-lo de novo. Faça com que ele telefone agora.

Ah, Deus, não deixe que minhas preces Lhe pareçam tão insignificantes. O Senhor fica sentado no seu trono, aí em cima, todo velhinho e de branco, cercado de anjos e com uma chuva de estrelas em volta. E eu só Lhe peço um telefonema.
Não ria, meu Deus. O Senhor não sabe o que é isso. O Senhor está seguro aí nas nuvens, com todo aquele azul embaixo.
Nada pode tocá-Lo, ninguém pode fazer gato e sapato do seu coração.
Pois isso é sofrimento, meu Deus, muito sofrimento. Não pode me ajudar? Pelo amor de Seu Filho, me ajude!
O Senhor não disse que faria o que Lhe fosse pedido em nome Dele?
Ah, meu Deus, em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor, faça com que ele me telefone agora.

Preciso parar com isso. Não posso continuar assim. Vejamos. Suponha que um rapaz diga que ele vai telefonar para uma moça, mas aí alguma coisa acontece e ele não liga. Não é terrível, é? Ora, acontece o tempo todo, em qualquer parte do mundo. Bolas, e que me importa o que está acontecendo no resto do mundo? Por que o raio desse telefone não toca? Por quê, por quê?
Por que você não toca, seu chato? Bobo, feio, lindo.
Ia machucá-lo se tocasse? Claro, ia machucá-lo. Pois vou arrancar seus fios da parede e esmagar essa merda de aparelho preto em pedacinhos, seu merda.

Não, não, não. Nada disso.
Preciso pensar em alguma coisa. É o que vou fazer. Vou pôr o relógio no outro quarto. Assim não ficarei olhando para ele. Se tiver que ver as horas, terei que ir até lá, e isso será alguma coisa para fazer. Talvez, antes de eu ver as horas de novo, ele me telefone. Prometo ser doce com ele, se me telefonar. Se disser que não pode me ver esta noite, vou dizer: "Ora, tudo bem, querido, claro que está tudo bem". Serei do mesmo jeito que fui quando o conheci.Talvez ele goste de mim de novo.
Eu era tão doce no começo! Ah, é tão fácil ser doce com uma pessoa antes de você começar a amá-la.

Acho que ele ainda gosta de mim um pouco. Não poderia ter me chamado de "querida" duas vezes, se ainda não gostasse de mim um pouquinho. Nem tudo está perdido se ele ainda gostar de mim, mesmo que seja só um pouquinho, um tiquinho. Está vendo, meu Deus, se o Senhor fizesse com que ele me telefonasse agora, eu não Lhe pediria mais nada. Eu seria doce com ele, seria alegre, seria como era antes e ele me amaria de novo. E eu não teria de Lhe pedir mais nada. Não está vendo, meu Deus? Por favor, faça com que ele me telefone agora, por favor, por favor.

Estou sendo castigada, meu Deus, porque fui má? O Senhor está bravo comigo só por que fiz aquilo?
Mas, ah, meu Deus, há tanta gente ruim no mundo - tenho que pagar por todos os pecados? Não fizemos mal a ninguém, meu Deus. As coisas só são más quando ferem outras pessoas. Não magoamos ninguém, nem eu, nem ele. O Senhor sabe disso, não é, meu Deus? E sabe também que foi gostoso. Por favor, faça com que ele me telefone agora.

Se ele não telefonar saberei que o Senhor está zangado comigo. Vou contar de cinco em cinco até quinhentos e, se ele não tiver ligado até lá, então saberei que o Senhor não irá me ajudar, nunca mais. Será uma espécie de sinal. Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco...
Eu sabia que não ia dar certo.
Está bem, Deus, então me mande para o inferno. Pensa que me assusta com seu inferno, não é? Pois o Seu inferno não chaga aos pés do meu.

Não devo, não devo fazer isso. Suponha que ele apenas tenha se atrasado um pouco para ligar - por que devo ficar histérica? Talvez ele nem pense em ligar e esteja vindo diretamente para cá. Ele vai ficar bravo se desconfiar que estive chorando. Eles não gostam que a gente chore. Ele não chora. Por Deus do céu, gostaria de fazê-lo chorar. Se eu pudesse fazê-lo chorar e se arrastar pelo chão e fazer seu coração ter vontade de explodir, de tão pesado! Ah, como eu adoraria machucá-lo!

Ele não deseja isso para mim. Acho que ele nem sabe como me sinto. Mas gostaria que soubesse, sem que eu tivesse de contar-lhe.
Eles não gostam que você conte que a fizeram chorar. Não gostam que você lhes diga que está infeliz por causa deles. Se você faz isso, eles a consideram possessiva e exigente. E aí a odeiam. Odeiam-na por você dizer o que sente. É preciso estar sempre fingindo.
Ah, pensei que dessa vez não iria precisar; achei que era um amor tão grande que poderia dizer o que quisesse. Mas já vi que não, nunca. Acho que nenhum amor será grande o suficiente para isso.
Ah, se ele ao menos telefonasse, eu não diria que estou triste por causa dele. Eles não gostam de moças tristes. Eu pareceria tão doce e alegre ao telefone que ele não teria como não gostar de mim. Se ele apenas telefonasse.

Talvez seja o que ele está fazendo. Talvez esteja vindo para cá sem telefonar. Talvez já esteja a caminho. Alguma coisa deve ter acontecido. Não, nada lhe poderia ter acontecido. Não consigo imaginar nada lhe acontecendo. Nunca poderia imaginá-lo atropelado. Frio, morto e esticado numa calçada. Queria que ele estivesse morto. Esse desejo é terrível. Uma gostosura de desejo. Se estivesse morto, ele seria meu.
Se estivesse morto, eu não estaria pensando no agora e nas últimas semanas. Iria pensar apenas nos momentos felizes. Seria tão lindo! Gostaria que ele estivesse morto. Morto, morto, morto.

Isto é besteira. É idiotice desejar que as pessoas morram só porque não telefonaram no exato minuto em que prometeram. Talvez ele tenha apenas se atrasado. Qualquer coisa poderia fazê-lo atrasar-se. Talvez tenha ficado até mais tarde no escritório. Talvez tenha ido pra casa, a fim de me ligar de lá, e apareceu alguém. Ele não iria me telefonar na frente de alguém. Talvez esteja um pouco aborrecido, só um pouquinho por me deixar aqui no toco. Pode estar até esperando que eu ligue. Por que não? Por que não telefono?

Não devo. Não devo, não devo.
Ah, meu Deus, não deixe que eu lhe telefone. Por favor, não me deixe fazer isso. Eu sei, meu Deus, e o Senhor também, que se ele estivesse preocupado comigo iria ligar de onde estivesse e com qualquer multidão em volta. Só queria ter certeza disso, meu Deus. Não estou Lhe pedindo para me facilitar as coisas - o Senhor não seria capaz disso, mesmo tendo criado o mundo. Só queria ter certeza.
Não me deixe morrer esperando. Não deixe que eu fique me enganando. Não me deixe esperar, meu Deus. Por favor.

Não vou ligar pra ele. Nunca mais ligarei para ele. Ele que se frite no inferno antes que eu ligue para ele.
Não preciso que o Senhor me dê força, meu Deus; já tenho força que chegue. Se ele me quisesse, me teria. Ele sabe onde me encontrar. Sabe que estou esperando aqui. Acha que estou no papo. Por que será que os homens desprezam uma mulher que eles sabem que está no papo? Para mim seria uma coisa tão doce saber que alguém está no papo!

Seria fácil ligar para ele. Aí eu saberia. Talvez fosse a melhor coisa a fazer. Talvez ele não se importasse com isso. Talvez até gostasse. Talvez ele esteja tentando me ligar. Às vezes, as pessoas tentam e tentam ligar para alguém e dizem que o telefone não responde. Não estou dizendo isso para me consolar; às vezes acontece. O Senhor sabe que acontece, meu Deus.
Ah, meu Deus, me mantenha longe daquele telefone. Bem longe. Deixe-me conservar pelo menos um pouquinho do meu orgulho. Acho que vou precisar. Acho que é só o que vai restar de mim.

Bolas, e para que preciso de orgulho, se não posso suportar a idéia de não falar com ele? Esse tipo de orgulho é uma bobagem esfarrapada. O grande orgulho, o verdadeiro orgulho, está em não ter orgulho. Não estou dizendo isso só porque quero ligar para ele. Não. É verdade. Eu sei que é verdade. Pois vou ser forte. Vou estar acima desses pequenos orgulhos.

Por favor, meu Deus, não deixe que eu ligue para ele, por favor.

Não sei o que o orgulho tem a ver com a história. É uma coisa tão à toa que não sei por que estou fazendo tanto escarcéu, a ponto até de falar em orgulho. Talvez eu não tenha entendido bem o que ele disse. Pode até ter dito para que eu lhe ligasse às cinco. "Me ligue às cinco, querida". Ele pode ter dito isso, perfeitamente. É possível que eu não tenha ouvido direito. "Me ligue às cinco, querida".
Tenho quase certeza de que foi o que ele disse. Meu Deus, não deixe que eu fale assim comigo de novo. Por favor, preciso saber!

Vou pensar em alguma outra coisa. Vou ficar sentada quietinha. Se ao menos pudesse ficar quietinha! Ou ler um pouco.
Mas todos os livros só falam de pessoas que se amam de verdade, com ternura.
Por que vivem escrevendo sobre isso? Não sabem que é mentira? Uma merda duma mentira? Por que escrevem sobre isso, quando sabem que machuca? Merda, merda, merda.

Não vou ler. Vou ficar quieta. Afinal, qual é o problema? Vamos ver. Suponha que fosse uma outra moça. Bastaria que eu passasse a mão no telefone e dissesse: "Puxa, o que aconteceu com você"?
Pois é o que eu faria, com a maior naturalidade do mundo. Por que não posso fazer o mesmo? Só porque o amo? E se puder? Pois eu posso. Sinceramente. Vou ligar para ele, como quem não está nem aí. Não me deixe fazer isso, meu Deus. Não deixe, não deixe, não deixe.

Meu Deus, o Senhor não vai fazê-lo ligar para mim? Tem certeza, meu Deus? Não tem piedade de mim? A mínima? Nem Lhe peço para que ele me telefone neste minuto, mas daqui a pouco. Vou contar de cinco em cinco até quinhentos. Bem devagar e sem pular um número. Se ele não me telefonar até lá, eu ligo para ele. Vou, sim. Ah, por favor, meu Deus, meu querido Deus, meu pai que está nos céus, faça com que ele me telefone antes disso.

Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco...

Título do original: "A TELEPHONE CALL".
Tradução: Ruy Castro



Terça-feira, Agosto 02, 2005




QUESTIONÁRIO



O que uma mãe não faz por uma filha (tudo bem... se dei um mau passo, ainda que virtual, aos quinze anos, agora assumo).

1. Qual personagem habita seu Blog quando menos se espera?

O Pequeno Príncipe, a Mary Poppins e a fadinha Tilintin, que tem gente ignorante que chama de Sininho ou Sineta. É Tilintin... muito mais sonoro.

2. Que post ficou na espera, o bonde passou e você não publicou?

A vida sexual e secreta de Barbie e Bob.

3. Quando a imagem foi maior que o texto?

Ai, querida, essa tá difícil... Xouver... num sei. Não entro no editor do blogger, não sei postar. Quem se ocupa disso é a Adorável. Vou perguntar pra ela e depois te digo.

4. Muitos blogueiros de carne e osso, ou apenas virtuais?

Conheço bem os virtuais, adoraria conhecer melhor os de carne e osso. Com mais carne do que osso.

5. Se um novo batizado fosse possível, que nome escolheria para o seu Blog?

Mônica, "sem" Crônicas...daria menos trabalho. A não ser que eu trocasse e escrevesse "sem" com "C" (coisa muito possível de acontecer), então teria de escrever 100 crônicas e ficaria doida.

6. Quando é que dá vontade de eliminar o sistema de comentários?

Nunquinha!! Tá louca? Adoro comentários, bate-papos, conversê. Spams? Adoro também. A gente se sente tãoooooooo popular, aquele mundaréu de comentários. Nossa! Quem faz isso é um doce. Coloca milhões de vezes coisas carinhosas. Que trabalho deve dar! Sou muito agradecida ao moço ou moça chamada Spam. Deve ser americano, né?

7. Que Blog ou Blogueiro "presente ou ausente" às vezes te traz saudades?

Todos que se foram. Sinto saudades da Lady Di! Comprava Magesty toda semana pra ler as fofocas da família real. Depois que ela parou o blog e partiu, perdeu a graça. Gostava de ler os textos (curtos) de Machado, Quintana e Lispector, mas sumiram da Net também.
8. Para quem passar o bastão?

Não consigo pensar em ninguém, querida. Minha cabecinha anda oca, oca. Tenho três Elles e duas Vogues para ler, ou mesmo ver. Sem contar a Caras, que tem duas semanas que não recebo. Fico por fora das novidades e acontecimentos e fico assim, sem idéias.

Amigaaaaaaaaaaaaa, não passe questionários para ex-misses e nem para loiras. Elas demoram demais para responder!

Beijokas


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