Terça-feira, Outubro 25, 2005



REENCONTRO

Tenho uma amiga muito bonita e boa contadora de histórias. É empolgada, conta detalhes e é dona de colocações inteligentes. Seus casos são sempre ricos e bem contados. Além disso, canta maaaaaaravilhosamente bem.
Outro dia, me contou que foi ao dentista. Detalhista que é, fez um relatório completo:
- Além de ser dentista, ele toca muito bem violão, compõe e faz lindos arranjos!
Ao ouvir o nome do versátil cirurgião-dentista, fiquei boquiaberta...
- Com este nome só pode ser meu antigo professor de violão!
Imediatamente soube que se tratava daquele professor tão querido.


O pouco que Adorável e eu tocamos até hoje, devemos a ele. Tínhamos entre doze e catorze anos e cada aula era um evento, pois ele sabia todas as músicas, se não soubesse tinha uma vaga idéia, um ouvido quase que absoluto e assim, "tirava" na hora.
Adorávamos aqueles encontros musicais.
Minha amiga logo disse a ele que era muito amiga daquelas duas meninas que moravam na Rua Doutor Melo Alves, rua onde ele também morou por anos. Lembrou-se de nós.

Resolvi acompanhá-la para fazer um rápido polimento e reencontrar o professor-dentista, para matar as saudades daquele tempo inesquecível.
Foi uma alegria revê-lo, fizemos a maior festa um ao outro.
Ele continua igual, e lá se vão anos. Disse-me o mesmo e ainda me fez alguns elogios.
Tratou rapidamente do dente doente da amiga, não era nada sério, coisa pequena do tipo "obturação caiu" e disse animado:
- Vamos cantar!

Criativo tanto em seus arranjos musicais, como na arrumação do consultório, dividiu sua casa em duas partes. Separou a ante sala e o consultório à direita e à esquerda uma porta dupla e fechada, quando aberta mostra o ambiente delicioso e aconchegante que tem sua casa.
Pegou o violão e minha amiga cantou como um anjo.
Cantamos os três e então ele nos mostrou sua música mais recente.


DE BUBUIA

"Toda a viagem é um risco
E eu desci o São Francisco por desejo de arriscar
Fui até a foz do dito
Só pra ver onde o bonito
Joga suas águas no mar
Me embrenhei num labirinto
Sertão rico e faminto
Que nem Deus sabe explicar
Eu que só vivo o que sinto
Intuo o rumo do instinto e entôo um
La ra ra ia

O vento toca o cocar do coqueiro
No balanço das águas do mar
Meu coração é um velho canoeiro
Que saiu de Juazeiro
Pra ver o Chico desaguar
Que a liberdade só vai de canoa
Apruma à proa e segue ao Deus dará
Vou de bubuia nessa vida boa
Minha benção as Alagoas
E cantos loas pra lá".

Adinho Rodriguez - Jean Garfunkel


Fiquei encantada com a música que completa as palavras e nos dá vontade de descer o São Francisco, de bubuia, como diz a letra.

Mas o que é bom dura pouco. A campainha tocou, como que para nos acordar dessa "viagem".
Era um novo cliente. Um senhor robusto.
Levantamos e nos despedimos. Eu teria ficado por lá mais umas duas horas, no mínimo.
Saímos os três pela porta que dá de frente à sala de espera.
Risos, abraços apertados, beijos e a promessa de levarmos Adorável à próxima consulta.
O tal paciente olhava-nos estático e provavelmente pensou:
- Que será que essas duas fazem na casa do dentista a essas horas?
E como se pensasse alto, ou falasse consigo mesmo disse:
- Por que, meu Deus, não segui os conselhos de mamãe? Por que não fiz Odontologia?

PS.: Beijão, Adinho, obrigada por este especial momento! E sucesso. Muito!


Segunda-feira, Outubro 17, 2005



A ESCOLHA DE LUIZA



Era um fim de tarde, nebuloso, frio e chuvoso.
O casal estava na sala com suas duas filhas, Luiza e Sofia.
A mãe admirava, orgulhosa, as duas mocinhas. Lindas tanto nas feições como na alma.
O pai lia o jornal absorto.
As três praticavam o esporte predileto entre mulheres em geral: falavam... Na verdade matracavam.
O assunto? Todos. Os mais diversos. Iam de política à moda, de cinema ao referendo. Falavam de música.
Ao fundo ouvia-se Fito Paez e Ana Belén:"Un vestido y un amor".

A mãe vinha notando que a filha mais nova, Luiza, andava com o olhar distante, um tanto ausente, distraída...

E a linda Luiza, de repente perguntou:
- Mãe, você fala francês, inglês. Por que não fala espanhol?
- Nem sei, minha filha, respondeu a mãe. Talvez porque entenda. Todos os brasileiros lêem em espanhol e na hora de falar há sempre o improviso, o "portunhol". Eu misturo espanhol com italiano e português, me faço entender e deve ficar muito engraçado.
- No és verdad , mama, hablar espanhol perfectamente no es lo mismo, no es como leer. Hay palavras mui distintas. Debrias hacer unas classes... Compreendes la cancion de Fito? "Te vi, juntavas margaridas del mantel"?
- Claro que entendo: "Te vi, juntavas as margaridas da toalha de mesa", que na Argentina em geral "mantel" é a toalha de mesa. E na música, ele se refere àquelas antigas, de plástico, com motivos florais.
- Hummm, fez a filha. É isto mesmo!

Então, Sofia, a filha mais velha, comentou:
- Luiza! Você está fazendo curso de Espanhol? Está falando perfeitamente!
- Não, respondeu a mocinha, sorrindo e corando.
Imediatamente a mãe afirmou.
- Esta namorando um espanhol, estou certa?
A mãe parecia ser aérea; uma mãe um pouco atípica, mais amiga do que mãe, mas tinha sensibilidade.
A menina sorriu e a mãe, acrescentou:
- Então está aprendendo mesmo uma "língua" estrangeira.

As meninas riram gostosamente.

O pai lia o jornal eternamente.
Já havia lido a Folha, Estadão e estava a ler o Financial Times.

Então Luiza confessou:
- Na verdade ele é argentino.

O pai pela primeira vez levantou os olhos.
A mãe achou o máximo!
- Também namorei um argentino, lindíssimo, Jorge. E eu sofria para falar aquele "Rorgê" gutural, mas me saia bem.
Argentina.... Terra de homem bonito!
- Como ele é? É boa pessoa, é bonito, culto?
A mãe bombardeou a menina com perguntas.
- Si, mama, el es mui hermoso, actraente. Le gusta mucho la politica y llamase Rody.

O pai, já com a feição lívida, pigarreou e por fim perguntou:
- Deixe de ser maluca! O que a beleza tem a ver com isso?
E com certa "calma" velada perguntou:
- Para que time ele torce, filha?
- Boca Juniors, Papa!

P.S.: Pelo que me consta, o homem ficou acamado. Melhorou um pouco, mas sofre de pesadelos horríveis e acorda gritando até hoje: - Se ainda fosse River Plate...


Segunda-feira, Outubro 10, 2005




LA VIOLENCIA
Mª Dolores López Alonso


Imagem


Odio toda violencia,
la que brota de la carne
como una mala hierba
y la que exhala el espíritu
como una vaharada infernal.

La violencia de la carne
que conoce la tortura
del látigo del poder y del miedo.
La que espera agazapada
el paso tranquilo de la víctima.

La violencia del espíritu
que no conoce el perdón,
que no reconoce padres,
hermanos, esposos
hijos, amigos.
Que no sabe de lazos de sangre.

La violencia de la carne,
la del corazón-motor
del tanque acorazado
aplastando a tu hermano.
La de manos de pistolero
la de ojos de halcón.

Pero aún temo más la violencia del espíritu
la que nunca se mancha de sangre,
la que afila las palabras-cuchillo,
la que se oculta en un silencio cobarde.

La violencia del espíritu,
la que mira desde las celosías,
la que observa en silencio
el trazo candente de las balas.

La violencia del espíritu,
enmascarada en razones,
en deformes sentimientos.
La que se oculta detrás
de una falsa alegría.

Odio toda violencia:
La violencia ciega,
la violencia sin nombre,
la violencia absoluta,
la violencia sin padre,
la violencia religiosa,
la violencia serpiente,
la violencia cuchillo,
la violencia misil,
la violencia silencio,
la violencia razonable,
la violencia interminable.

La violencia se arrastra
sobre charcos de sangre,
deglute la carne,
no sufre, no descansa,
no espera ni desespera,
no se angustia ni padece,
no tiene frío ni calor.
No come, no bebe,
no nace, no muere.

La que está en todas partes,
la que te alcanza sigilosa,
la que te habla en la noche,
la que rompe tu ventana,
la que quema tu coche,
la que mira con odio
al niño que juega,
la que no respeta al anciano,
la que no responde a tu ruego,
la que se carcajea mientras otros lloran.

En el principio era el silencio,
las tinieblas lo cubrían todo.
La violencia se agazapaba
en el útero de la nada,
fiera y acechante, esperando
el anunciado Apocalipsis.

Cuando al fin la muerte se hizo carne
ella se retiró a su cubil infame.



Segunda-feira, Outubro 03, 2005




ADORÁVEL VAI À DISNEY


A afilhada faria em breve seis aninhos e de presente pediu:
- Quero ir para Disney!
- Está bem, iremos.
- Só que minha madrinha também tem de ir!

Pedido de filho, muitas vezes, torna-se ordem e levar Adorável a Disney soava divertido.

Filha de dez anos, a "afilhada" de seis, o casal e minha irmã, trazendo consigo seu humor, que pode variar de péssimo a ótimo, sua alegria, enfim, sua adorável companhia.
Ela sorriu de orelha a orelha com o convite e toda a família partiu para as terras de Tio Sam.

Adorável começou a "causar" sensação dentro do avião. Com a desculpa de ir ao toalete, pegou o microfone das comissárias e mandou: "It's a Small World".

"It's a world of laughter
A world of tears
It's a world of hopes
And a world of fears
There's so much that we share
That it's time we're aware
It's a small world after all".

"Para ser feliz é preciso crer, neste céu azul, na imensidão...
É fazer das tristezas, estrelas a mais
E do pranto uma canção.
Há um mundo bem melhor, todo feito pra você,
É o mundo pequenino, que a ternura fez".

Cantou em inglês, foi repreendida e sorriu, aquele sorriso cativante que coloca todos no bolso.

Engraçado pensar que ela canta e fala inglês apenas quando lhe apetece. Adora se dizer monogâmica em matéria de língua estrangeira. Mas se esconde, porque se precisar... fala.

Tinha o desplante de dizer:
- Estou morta de sede, peça uma Coca.
Como se pedir "a Coke" fosse deixar a criaturinha sem fôlego.

O PRIMEIRO brinquedo que ela quis ir foi justamente o "It's a Small World".
Nenhum de nós viu nada, pois Adorável se emocionou chegando às lágrimas, soltado gritinhos: - Olhem, a casinha da Minie!!!
Para alegria e divertimento das crianças.

Infringia todas as leis, fumava em lugares proibidos e se alguém reclamasse, respondia prontamente:
- Ai donti ispiqui inglichi, sori, quisees.

Hebefrênica, como gosta de "parecer", comprava toda a sorte de porcarias. Lápis, canetinhas, carimbos, lacres, T I A R A da Minie, chinelos do Pluto, camisolinhas do Pateta, camisetas do Tico e Teco... e por aí afora.
Claro que com todo esse absurdo, ela teve de sentar-se sobre a mala para fechá-la na volta.
Uma mala extra, bem ordinária, que comprou por lá, pois a dela própria, já não cabia mais nada.

Notava com espanto que minhas filhas estavam engordando.
Bem sabemos que a comida americana é um horror, mas elas vinham se alimentando direitinho... Por que seria?
Tempos depois, soube que ao irmos dormir, Adorável dava o grito de guerra:
- FARNELLLLLL, meninas!!!
Descia no hotel e comprava todas as guloseimas, chocolates e doces.
- Algumas bobagens, comidinhas básicas, just in case... as "pequenas" poderiam ter fome lá pelas duas da manhã.

A "fofinha" está sempre um pouco acima do peso. Pois na Disney, foi considerada quase que anoréxica, para seu deleite.

Ir seis vezes à "Kumba", sete à "Space Mountain", era coisa de pouca monta.
Ia várias vezes, em todos os brinquedos. Sem mãos, para maior sensação. Se pudesse iria sem cinto, para dar mau exemplo, para se divertir mais...
Descia e dizia: - Estou enjoada!
E tornava a subir.
Só o "Elevador" conseguiu a proeza de fazer a figura ir apenas três vezes.
Assustou-se e passou 24 horas sem voz.
Parou de cantar "It´s a Small World", felizmente...

Não posso negar que Adorável divertiu muito mais minhas filhas do que a própria Disney.

Nesta última viagem que fiz, ela me mandou ir até "Marais", bemmmmmm pertinho, e pediu uma camiseta da loja "HO!" qualquer coisa.
Nesta camiseta a pessoa digita o que deseja que apareça e vai passando um letreiro animado, como esses informativos, noticiários.
Tem gente que coloca: "Ligue-me" e o número do telefone, outros deixam rodando frases de protesto.
Ela colocou www.garimpandobeleza.blogger.com.br e foi dar uma volta...

E hoje recebo um e-mail dela: "Por favor, em sua próxima viagem, quero ISTO"!

PS: Este post é uma espécie de homenagem, além de uma certa vingança.

Andei danada com ela por causa de um post onde colocou bolsas horrendas de grifes caras, em forma de bolos enjoativos, tendo a petulância de dizer que eu as usaria todas.
Só uso bolsa lisa e não faria propaganda grátis de nenhum estilista.
Gosto de bolos simples, sem muito recheio e salamaleques.

Na verdade, não daria a minha irmã, o apelido que vivo a repetir, se ela assim não fosse.

Não sofre de hebefrenia, de boba não tem nada; é sagaz, sensível, inteligente e culta.

Só quem conhece sabe... ela é mesmo ADORÁVEL!


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