NEM TUDO QUE VEM NA REDE É PEIXE
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O ano terminara finalmente.
Ela estava cansada, precisava de um refresco, de ar puro, coqueiros e um marzão besta na frente. Pra ficar olhando com cara de mineira de Alfenas.
Hospedou-se em casa de amigos, uma casa linda, cuja frente dá nas areias do mar, ou melhor, de um rio que se mistura ao mar, propiciando uma paisagem inédita e linda.
A casa de praia é maravilhosa, todo conforto possível, repleta de arranjos arquitetônicos inusitados, disse-me
ela.
Tão inusitados, que na frente de seu quarto, três degraus se apresentavam fora do tamanho padrão.
Muito interessante...
Ela que vive como viveu "Evinha" nos anos 70, "Olhando Para o Céu", tropeçou no primeiro degrau, no primeiro dia de viagem, e se estatelou no chão.
Deve ter sido sério, a dor era medonha.
O amigo parece que tem mais de médico do que de louco, exigiu que
ela colocasse meia hora de gelo três vezes ao dia, fizesse ultra-som (ele tem em casa) e enfiou-lhe um remédio goela abaixo.
Ela melhorou e ficou extremamente grata, pois sabia que se fosse a algum hospital, voltaria engessada, certamente.
Manquitolando, no segundo dia resolveu nadar.
O encontro do rio com o mar faz lembrar dois amantes apaixonados, tamanha a beleza.
Atravessou o rio e nadou, nadou, esqueceu da vida.
Dizem que na volta todo o santo ajuda... ledo engano.
A maré estava vazando, o mar bravio, pois amantes quando brigam perdem a razão, e
ela não conseguiu nadar contra a corrente. Pensou em se entregar e ir parar na cidade mais próxima ou sabe-se lá onde.
Mas não... lutou bravamente e voltou segurando-se nas pedras.
Lindas pedras incrustadas de ostras.
O mar... sempre o mar...
Foi cortada pelas ostras.
Voltou manca e o sangue jorrava. Talhos nas pernas, joelhos, pés e mãos...
Chamaram uma mãe de santo. A criatura precisava de uma "limpeza".
Meu Pai Oxalá!
Ela foi benzida, foi rezada e a mãe de santo, uma santa criatura, deu-lhe um incenso com a seguinte instrução:
"Arrume uma latinha, minha fia, faz uns furinhos, coloque uma alça, bota umas brasas dentro, joga o incenso, passe pela casa, que é pra proteção, visse?"
"Aproveito e compro um queijo coalho"
*, pensou
ela.
Passados dois dias já não suportava ficar parada.
Pegou seu i-pod e foi caminhar na praia, ao som de Chico Buarque e Ana Belén: "La Luna y el Mar".
Eterno mar...
Atravessou o rio e a praia, desta vez na hora propícia e saiu andando pelas areias finas de outra praia outrora deserta. Hoje se vê alguns surfistas, uns poucos banhistas e pescadores...
E foi nesta hora que
ela se deparou com a cena mais surrealista e inédita:
Uma senhora imensa, grávida de uns oito ou nove meses, sentada na areia, em posição ginecológica, soltava uns gritos. Um homem a ajudava, puxava e gritava.
O homem parecia mais histérico que a mulher...
Ela ficou petrificada. Pensou em ajudar, dar a mão para a mulher, dar o i-pod para a dita morder, fazer algo. Voltar correndo, chamar uma ambulância.
A senhora não poderia dar a luz em pleno sol do meio-dia, em plena praia, com um homem, provavelmente desconhecido, a fazer o parto.
O homem estava em estado de "demensiação" a puxar o pobre ser, que chegava ao mundo em circunstância tão sui-generis.
Pudera!
A opulenta senhora, imensamente gorda e ainda em estado interessante, havia se sentado em cima de um peixe e o pescador tentava, a todo custo, salvar seu almoço.
E foi neste exato momento que
ela decidiu:
"Vou passar as próximas férias em Alfenas, Três Corações, Diamantina! Por que não? Tá na moda..."
* Para quem não sabe, nas praias do nordeste usa-se vender queijo coalho, derretido em braseiros como este.
por
Monica às 5:36 PM
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