O WORKSHOP DE XAMANISMO
por Valdenir Benedetti
Continuação
Primeira Parte - A CHEGADA
Bem, antes de falar da chegada, deixa falar da partida.
Rosinha estava orgulhosa. Fazia tempo que eu não a via aprovar nada do que eu fazia. Só reclamava de meus amigos e do futebol no fim de semana, não sei por que ela se incomodava tanto. Era para manter o físico, ué. Afinal a barriguinha já estava ficando proeminente e lá, pelo menos, gastava um pouco da cerveja consumida no happy-hour de sexta feira com os colegas da firma.
As crianças estavam felizes, parece que o contentamento da mãe as contagiou.
Nesse momento eu vi que estava fazendo a coisa certa, até me esqueci da falta que ia fazer a grana que estava gastando e, cheio de orgulho e de vontade, parti para o ponto de encontro para ir ao workshop.
Fomos de "Besta", um grupo de umas 15 pessoas.
O guru americano e as organizadoras (sempre são mulheres, ouvi dizer, sabe Deus porque) foram de carro na frente.
Foi meu primeiro contato com os fazedores de workshop e futuros xamãs.
Coisa interessante, gente de todo tipo, mas ninguém que fosse um auxiliar de contas a pagar como eu. Me senti meio inferiorizado no meio daquele povo, umas gatinhas com cara de inteligentes, uns rapazes cabeludos com cara de "especial". Só gente diferente, tipo meio "cult", dessas que se encontra em festival de cinema europeu e concerto de jazz, e só ai reparei que estava de gravata. Saco! Tentei tirar disfarçado, rapidinho, mas nem sei se consegui. De qualquer forma, todo mundo fez que não viu.
A gravata é tão natural para mim que parece que faz parte de meu corpo. Também, mais de 20 anos de escritório usando esse treco no pescoço, até sinto falta quando estou sem ela. É uma verdadeira amiga que me consola nos momentos de agonia. Fico alisando-a, suave, gostosinha, até sinto falta daquele apertadinho quentinho quando estou sem ela.
Mais tarde aprendi, durante o curso, que a gravata é um objeto de poder pra mim. O americano, que sabia tudo de tudo, que disse; quer dizer, a tradutora que ficava babando e parecia mais importante que ele, me disse que ele disse e eu tive que acreditar, mesmo porque o máximo que eu sei falar de inglês é bigmac e coca-cola.
Mas, quem diria, hein? A prosaica gravata é um objeto de poder! Quando o povo do escritório souber que essa coisa colorida é um objeto de poder vai rachar o bico. Gostei e senti menos vergonha de ter que usar essa coisa todo dia.
Bem, mas vamos falar da chegada propriamente dita.
O lugar, um sitio especialmente preparado para esse tipo de coisas, com chalés e estrutura bem boa, grama linda e árvores.
A dona do lugar, vestida com saias longas, coloridas e manchadas.Cheia de pulseiras, colares e anéis, com um cabelo que era simplesmente indescritível e por isso não vou nem me arriscar a descrevê-lo.
Era uma tal de "Nuvem Púrpura". Bem, ela disse que esse era mesmo o nome dela, Nuvem Púrpura da Silva, e que seu pai era fã apaixonado por um tal de Hendrix, mas que preferia ser chamada de "Shandranua", que é o nome que um guru indiano deu uma vez a ela. Vai entender esse povo, né?
Nuvem Púrpura, quer dizer, Shandranua, recebeu a todos com um sorriso; abraçou cada um de nós, homens e mulheres, com uma certa intensidade e intimidade. Bem apertadinho. Parecia que estava recebendo um amante que tinha saído pra comprar cigarros e voltou uns 15 anos depois.
Fiquei completamente sem graça com aquela dona me apertando, inclusive na parte de baixo, quase um amasso.
Que coisa, meu! Acho esse povo muito estranho, mas vou relaxar porque senão vai ser difícil aceitar isso. Se a Rosinha abraçasse um cara como essa dona me pegou, largava dela na hora.
O povo, depois dessa cumprimentação toda, pegou suas tralhas e cada um foi pro chalé que a dona do "amasso" indicou.
Todo mundo tinha mochila e umas sacolinhas coloridas. Só eu estava com minha mala de viagem chinesa. Ninguém me avisou disso, saco.
Fiquei num quarto com mais três caras.
Um deles, o mais jovem, era filho de um milionário que estava buscando uma alternativa existencial de renovação, a conselho de seu psiquiatra. Esse aí tinha que tomar uns 4 ou 5 comprimidos antes de dormir, e outro tanto durante o dia, mas mesmo assim, de vez em quando, escorria um fino fio de baba do lado esquerdo de sua boca; estranhamente, parece que ninguém reparava nisso, só eu. Será que sou muito babaca, ou muito preconceituoso?
O outro era um executivo que vivia fazendo cursos para encontrar a si mesmo. Já tinha ido até para a Índia e o Nepal; tinha ido para Ilha de Páscoa e Machu Pichu, tudo em busca de si mesmo.
Achei muito esquisito esse papo porque não entendi nada. O cara tava ali, na minha frente, e saia pra se procurar do outro lado do mundo? Perguntei se ele tinha se encontrado, e ele disse que estava em processo, estava cada vez mais próximo de si mesmo.
Cara! Que piração. Acho que o cara era doidinho com esse papo. Coisa mais esquizofrênica, sô!
Meu outro companheiro de quarto era um gay assumido. Um intelectual que sabia tudo de candomblé. Acho que o cara era até meio pai de santo, só falava de Ogum, Oxum, Ananaraie não sei o que, e coisas assim.
Ninguém ligava se o cara era viado, porque no meio desse povo que está em busca da "verdade", num curso de final de semana, não cabe preconceito de tipo nenhum. Claro que eu disfarcei e nem tirei um sarro do boiola. Achei melhor fingir que nem ligava de ficar num quarto com um viadinho. Resisti bravamente à tentação de tirar uma com o cara, mas enfim, acho que já comecei a evoluir e entrar na nova era. Deve ser por aí o caminho.
Puxa, o curso já começou a fazer efeito e nem começou de verdade ainda! Que coisa, hein? Tá valendo a grana! Rosinha vai pirar com o novo cara que vai voltar dessa vivência; oooops, desse workshop.
Depois de uma sopa com gosto de incenso e algum negócio natureba, meio gosmento, que prefiro nem saber o que é, fomos dormir.
Aconteceu o seguinte nessa primeira noite: o pai de santo gay falava coisas em africano a noite todinha. Era um tal de "ogunhe salun salamalun poroxotóqui" que não acabava mais.
O rapaz dos comprimidos dava pulos e gritava a noite inteira, igual um desesperado sendo espremido num moedor de cana.
Já o executivo peregrino, gemia muito e no meio dos gemidos gritava "mamy, mamy, não me abandone", com vozinha de criança.
Acho que ninguém se incomodou com meus roncos, se bem que só consegui dormir de madrugada...
por
Monica às 10:16 PM
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O WORKSHOP DE XAMANISMO
por Valdenir Benedetti
Amigo leitor, este conto tem 5 capítulos, ou 6, quem sabe!
Descubram através de mim, quem é Valdenir.
Pensem, votem, escolham:
1- O papa do Xamanismo.
2- O astrólogo das "estrelas".
3- Meu pseudônimo quando quero escrever no masculino.
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Parte I -
INTRODUÇÃO
E lá fui eu no tal de workshop de Xamanismo...
Bom, faz tempo que minha mulher tá insistindo que eu tenho que entrar na nova era, que eu já era, que não tô com nada. Daí li o anúncio do tal de workshop de Xamanismo.
Que coisa, meu! Se tem um nome desses deve ser muito legal.
Workshop... venda de trabalho, né?
Bem, vamos lá. Tá na hora de eu tomar uma atitude na vida mesmo, como vive dizendo a Rosinha todos os dias.
Sei lá como apareceu um folheto em minha mesa, achei até que era gozação dos colegas. O pessoal aqui da firma é muito gozador.
Colorido, bonito, cheio de desenhos de animais, tigres, águias, coisa linda mesmo. O tal papel, anunciava um curso de final de semana, que prometia resgatar nosso poder interior, conectar a gente com a luz (isso me impressionou), resgatar nosso animal de poder, enfim, algumas coisas que eu não fazia a menor idéia do que se tratavam.
O "facilitador" era um gringo bonitão, de rabo de cavalo e olhar penetrante.
Bem, "facilitador" deve ser uma coisa bem moderna, bem nova era.
Liguei para pedir informações, a mocinha que me atendeu foi muito simpática. Só que se espantou um pouco quando eu disse a ela que eu era auxiliar de contas a pagar. O que um auxiliar de contas a pagar vai fazer num trabalho desses? Fiquei imaginando que tipo de pessoas fariam o tal de workshop de Xamanismo, ainda mais com um especialista americano que diziam ser o "ó" no assunto.
Será que auxiliar de contas a pagar não é gente? Não pode querer evoluir e se encontrar, como era prometido no anúncio?
Ta bom, eu não sou uma pessoa lá muito sofisticada. Tive que trabalhar a vida inteira para me sustentar e depois que eu casei então... ficou mais complicado ainda. Hora extra todo fim de semana e algum bico para ajudar nas despesas, tipo fazer imposto de renda do povo no começo do ano, época que faturo um pouquinho mais. Só por isso tinha uma reservinha para fazer o tal do workshop e tentar "dar um salto quântico na minha vida", como dizia o folheto, e seja lá o que for "salto quântico" na vida da gente. Bom, tô imaginando que pelo preço não deve ser algo que doa. Só no bolso, né?
Vou então contar pra vocês a historia desse curso de fim de semana que, por se chamar workshop, custa os olhos da cara.
Esse povo é danado de sabido! Mas também tem uma coisa, agora estou na nova era! Paguei meu pedágio. Se não valeu ainda, só o ano que vem vou poder fazer outro. Dessa vez vai ser de renascimento, vocês vão ver só!!!
Bem... vamos lá!
continua...
por
Monica às 11:02 AM
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