Quinta-feira, Novembro 30, 2006



O WORKSHOP DE XAMANISMO

por Valdenir Benedetti

Continuação

Quinta Parte - O ENCERRAMENTO DO WORKSHOP



Depois de três dias e noites, inteiros, de muitas vivências e experimentações xamânicas com nossos animais de poder, e depois de muitas viagens ao túnel do inconsciente, quando descobri que algumas daquelas pessoas tinham em seus túneis verdadeiras "Disneyworld" e outras, um shopping center completo com floricultura, área de serviços e lazer e cinco salas de cinema e tudo mais que tinham direito, enquanto meu túnel era sempre pura e simplesmente um túnel, digno de uma simples e prosaica barata, chegou enfim o momento do grande encerramento do nosso workshop de xamanismo.

Até então, o grande momento do workshop, fora o primeiro e emocionante encontro com o animal de poder, foi a experiência de vivenciar a própria morte.
Ficamos todos mortos no caixão, imaginando nossos parentes e amigos se despedindo da gente. Foi muito emocionante. Pena que depois de uns 10 minutinhos de vivência, ou de mortência, Mr. Hi interrompeu as batidas do tambor e conseqüentemente nosso exercício. Tivemos que ressuscitar, todos, rapidinho, porque senão não daria tempo de seguir o programa completo, e ainda estávamos perto da hora do almoço. Uma pena.

Mas voltemos ao "grand finale".


Imagem


Faríamos a dança circular sagrada no estilo escocês, coisa que achei meio estranha pra um curso de xamanismo, mas parece que Mr. Hi tinha um convênio com não sei que instituição da Escócia, e daí era assim que tinha que ser. Ele dançou alguns passos girando e mostrou pra gente como deveríamos dançar.

A dança circular sagrada seria feita em torno da fogueira sagrada, de acordo com o modelo de dança dos pagés e morubixabas de algumas tribos, também comuns em workshops urbanos, segundo ouvi dizer, e que rendem uma boa grana para alguns índios de plantão.

A "dança circular sagrada escocesa em volta da fogueira sagrada kaiakangue" seria feita com a incorporação dos animais sagrados de cada um de nós. Haja sagrado!

Mr. Hi jogou algumas ervas sagradas e alguns pozinhos sagrados para consagrar a fogueira sagrada (ai!) e começou a dança.
Tamborzinho batendo cada vez mais rápido e furioso, conduzindo todos nós para o êxtase apoteótico, como convém a um workshop desse nível.

Dancei até! Cada um fazia o barulho do seu animal de poder. Ouviam-se urros, trinados, estrilos, grunhidos e eu, com minha baratinha, só podia fazer "tlec, tlec, tlec" que é o único barulho que conheço da barata.

Me chamou atenção a dança da Fada Sussurrante, uma mulher pernambucana, esposa de um deputado, que vivia de fazer vivências e workshops por todo país às custas da grana do contribuinte.
Ela era bastante presunçosa e autoritária, não tinha nada de fada e muito menos de sussurrante. Tratava os funcionários da pousada, inclusive Shandranua, como escravos, aos berros, só faltava bater neles.
Foi a que mais reclamou, aliás, reclamou o tempo todo de tudo, do tempo, das instalações, do banheiro, da água, da comida e principalmente do fato do celular não pegar na pousada.
Seu animal de poder era uma serpente que fazia "fizzzzz, fizzzzz, fizzzz" o tempo todo, e ela ficava fazendo com a mãozinha como se fosse uma Cleópatra, ao mesmo tempo em que empurrava as pessoas para longe dela, pois precisava de todo espaço do mundo e dizia "sssai , sssssai, sssai de perto" com sua voz sibilante de jararaca.

Depois de dançarmos um bocado e estarmos todos suados e bem fedidos, teve o tal do abraço ritualístico sagrado final.
Tínhamos que nos abraçar um por um, para consagrar (de novo) o momento, a coisa era mais ou menos assim: cada um ficava parado em frente ao outro, olhava com um olhar bem new age, meio olhar de golfinho misturado com olhar de vaca tonta, daí se aproximavam em câmera lenta um do outro, com um sorriso também new age nos lábios, meio estilo vegetariano, e se abraçavam. Daí um deitava a cabeça no ombro do outro e dava uns dois ou três tapinhas nas costas para consagrar o abraço, quase igual advogado faz quando cumprimenta de algum parente de cliente importante em velório da família. Claro que advogado não deita a cabeça no ombro do colega.


Imagem


O pior é que estávamos todos muito suados e grudentos de tanto dançar a "dança circular sagrada escocesa em volta da fogueira sagrada kaiakangue", e alguns com um cheiro um tanto intenso, talvez por causa do animal de poder. Achei que essa foi a pior parte do workshop, a mais melequenta pelo menos.
Depois de um banho e o inevitável amasso de despedida com a Shandranua, que é da Silva, viemos todos embora.

Enfim, termino aqui o meu relato, o depoimento do momento que transformou minha vida, me incluiu na nova era e me tornou um verdadeiro xamã.
O pessoal lá da firma vai se morder de inveja.

Serei o primeiro auxiliar de contas a pagar xamã do mundo!
E finalmente Rosinha irá me olhar com mais respeito e admiração.
O que a gente não faz pela mulher que ama, hein?


Sexta-feira, Novembro 24, 2006




O WORKSHOP DE XAMANISMO

por Valdenir Benedetti

Continuação

Quarta Parte - ENCONTRO COM MEU ANIMAL DE PODER (finalmente!)



Imagem

Falei que não tinha conseguido encontrar a boca da caverna do inconsciente ou seja lá o que for. Mr. Hi se mostrou preocupado e atento e me mandou deitar no chão e relaxar. Pediu para que todos os outros fizessem um círculo em minha volta e ficassem me mandando sua energia com as mãos.
Disse que o primeiro animal que encontrasse seria meu animal de poder. Garantiu que ele estava esperando por mim em algum ponto do caminho, para não ter medo, para acreditar, etc, etc.

Deitei e vi aquele povo todo com as mãos apontadas para mim tremelicando os dedos. Achei engraçado. Aprendi, acho, que é assim que se faz para passar energia com as mãos. Achei interessante que todos eles já pareciam saber como era isso.
Relaxei o quanto pude, com aquele bando de gente me fazendo cócegas à distância e ouvindo o tam-tam do tambor do xamã.
Me imaginei caminhando pela floresta e realmente encontrei a entrada de um buraco. Entrei e estava tudo escuro. Não tinha flor nem nada.
Fui andando e meus olhos se acostumaram com a escuridão. Parece que andei uma eternidade e nada de animal nenhum aparecer.

Depois do que me pareceu séculos, logo em seguida a uma curva do túnel, que não tinha nada nem de bonito e nem de engraçado, era só um buraco na terra, dei de cara com... bem... vocês não imaginam com o quê!
Uma barata enorme! Daquelas marronzonas e pata cheia de espetinho. Das bitelas, mesmo. Nunca tinha visto uma tão grande.

A barata me olhou... eu olhei para ela. Nem sei se aquilo eram olhos, mas achei que eram. As antenas mexendo de um lado para o outro sem parar. Fiquei com nojo do bicho, fiquei com medo também, mas principalmente, fiquei apavorado de imaginar que aquela coisa era meu animal de poder.

Todo mundo tinha tigre, águia, leopardos, leões, só animais bonitões. Uma barata? Isso já era demais pra mim. Até anta servia. Mas, barata!? Santo Samsa!

Mr. Hi interrompeu o toque do tambor e mandou que eu voltasse.

Saí daquele estado catatônico e fui me sentando.
Todo mundo em volta de mim esperando para saber o que o Bocó tinha a dizer.

Eu não disse nada. Fiquei com a maior vergonha de dizer que meu animal de poder era uma barata! E uma barata que nem falava comigo, só ficava mexendo as anteninhas.

Mr. Hi, com seu olhar penetrante, ficou na expectativa de que eu revelasse o que experimentei em minha jornada.
Observava, aflito, centenas de olhos me investigando, parecia que o mundo inteiro estava à espera da grande revelação de um segredo.
Todos os outros aprendizes de xamã olhavam meio que avidamente, esperando, esperando... e eu ficando agoniado. Uma barata? Que nojo!

Estava tentando me desconcentrar. Só pensava em como desaparecer daquele lugar. Cheguei a me imaginar entrando pelo ralo e sumindo no esgoto, cheguei a pedir socorro pra tal "barata de poder" ou sei lá o que.
Bem, até que fazia sentido, uma barata nessa coisa de sumir pelo buraco escuro da vida... tô até ficando poético, meu Deus!

Neste instante, entre a imagem de uma caminhada pelos túneis do esgoto de mãos dadas com a barata e o sentimento de imensa vergonha de ter um animal de poder que nem ao menos falava comigo como os outros, Mr. Hi me tocou no ombro e disse: "You are with the spiriti of ISHINAYA in yourself!".
Mr. Hi disse ISHINAYA com força e sotaque, fazendo uma espécie de reverência.

Bem, eu só ouvi "ISHINAYA", seja lá que espírito for esse, e na hora, por puro reflexo, gritei: "Saúde"!

Caramba! Acho que não estava nos meus melhores dias. Foi uma gargalhada só. Puxa vida, como é que eu ia saber? Parece que todo mundo sabia o que era ter o espírito da tal Ishnaya, menos eu. Que fora! Mais um.

Fiquei mais enrolado ainda. Mas até que foi bom ter acontecido isso, porque ficou mais fácil no meio das gargalhadas dizer que meu animal de poder era uma barata.

E atendendo ao apelo de Mr. Hi, que estava muito sério e não riu nem um pouco, mesmo porque, acho que não entendeu o meu "SAÚDE", disse novamente "Let's go, Mr. Bocó!", assim, meio seco.

"Uma barata!" falei, quase gritando, quase chorando, e aconteceu algo que não me surpreendeu nem um pouco: outra onda de gargalhadas insuportáveis.
Mr. Hi fingiu que nem ouviu as risadas.
Depois de disfarçar a cara de perplexidade que ficou estampada e que me lembrarei para sempre, começou a falar.
A tradutora teve que engolir o riso e traduzir o que ele dizia, entre um soluço e outro, com lágrimas nos olhos de tanto rir.

"It's a straordinary and powerfull guide. The cockroach!", ou seja, "É um extraordinário e poderoso guia. A barata!", e prosseguiu dizendo que eu era um privilegiado de ter um animal de poder tão raro e especial assim.
Que a barata me conduziria para o mundo subterrâneo sempre que eu precisasse, que com o poder da barata (minha barata!) eu iria a lugares onde nenhum homem foi e mais um monte de coisas especiais e interessantes que faziam valer a pena ter a barata como um animal de poder.

Olhei para o povo só pra ter o gostinho de ver o olhar de inveja deles. Tomaram? Esses abestalhados que se acham melhores que os outros nem sabem o que perderam, ou melhor, sabem agora. Eles só têm águias, leopardos e esses bichos comuns, que só conhecem assistindo o "Mundo Animal" na tv a cabo.
Eu tenho uma barata!

Mr. Hi conhece seu ofício. Me convenceu direitinho que eu levava vantagem em ter uma barata comigo o resto da vida. Fiquei satisfeito e de alma lavada depois de tanta gozação pro meu lado. Esse homem é um sábio!

Será?...

Continua...


Terça-feira, Novembro 14, 2006



O WORKSHOP DE XAMANISMO

por Valdenir Benedetti

Continuação

Terceira Parte - FINALMENTE COMEÇA O WORKSHOP (ufa!)



Imagem


Confesso que estava meio sem graça com aquele povo. Era muito diferente de mim, e apesar de ninguém me olhar de modo esquisito, achei que esse negócio de não olhar com estranheza para os esquisitos (Pra eles eu era o que? Um tremendo esquisito, claro) era um procedimento padrão, afinal, esquisitos é o que não faltavam ali.

O primeiro exercício foi a apresentação de todo mundo. Cada um de nós tinha que escolher um "nome de trabalho" que seria usado durante todo o final de semana, e se a pessoa gostasse do nome, podia adotá-lo para o resto da vida.
Seria nosso "nome de guerreiro".

Graças a Deus que não entrei nessa, e vocês saberão já o por quê.

O nome tinha que ser correspondente ao que estava sentindo em relação a si mesmo, e o Mr. Hi insistiu que deveríamos ser verdadeiros, mesmo que o nome fosse uma coisa feia ou meio ridículo.

Bem, estava me sentindo absolutamente ridículo no meio daquilo tudo, e fazendo o maior esforço para não me arrepender de não ter usado aquela grana toda para trocar os pneus do carro da Rosinha (só ela tem carro em casa), que bem que estava precisando...
Mas não era hora de pensar nisso. Era hora de escolher um nome que revelasse meu sentimento sobre mim mesmo naquele instante. "Ridículo" não seria um nome muito apropriado, mesmo porque já não era mais original.
E já que estou na chuva, é pra me molhar. Vou levar este negócio a sério e vou até o fim, doa o quanto doer. Preciso entrar nessa tal de nova era urgente, pra ver se a Rosinha fica mais carinhosa um pouquinho comigo, e para de me criticar, me chamar de quadrado, múmia, e coisas assim.

Escolhi o nome que revelava exatamente como estava me sentindo no meio daquele povo.
Prestei bastante atenção na primeira pessoa que parou na minha frente para nos apresentarmos.
Era uma moça muito bonita, provavelmente daquelas que andam em seus carrinhos que nem relâmpago no trânsito, para desespero dos motoristas de táxi, tipo carinha de estudante de psicologia da PUC, algo assim. O olhar um tanto blasé, mas que era gostosinha, isso lá ela era.
"Sou Morgana, estudante de psicologia" disse me olhando nos olhos (Puxa, adivinhei que ela era estudante de psicologia. Eita workshop danado de bom, esse! Já estou "abrindo os canais", como dizem).
Nossa, que nome legal essa mulher escolheu! Muito criativo e original. Onde será que ela arrumou um nome desses? Fiquei até meio com vergonha de dar o nome que eu tinha pensado, não era tão especial e inédito assim, mas como resolvi assumir a verdade, doesse o quanto doesse, fui em frente e disse: "Sou Bocó, ao seu dispor"!

Que merda! A mulher caiu na gargalhada! Saco, sabia! Bem que sabia que tinha que ter escolhido um nome mais legal! Quis ser honesto e me ferrei. A mocinha não conseguia parar de rir.

Todos os outros ficaram assim, meio sem graças, porque não estavam entendendo o que estava acontecendo, mas quando ela ria histericamente e dizia "Bocó, hahahaha, Bocó, hahahaha", alguém perguntou: "Por que você está agindo assim com o rapaz?" (Eu era o rapaz, claro), e ela só conseguia dizer: "Bocó, hahahaha! Bocó, hahahaha"!
Já estava ficando chato aquilo. Eu estava mais vermelho que um pimentão, como dizem.

De repente alguém entendeu que "Bocó" era o meu apelido nova era (Esqueceram de que era para expressar o sentimento do momento, conforme orientou o Mr. Hi) e todos, um por um, foram caindo na gargalhada e foi o maior tumulto!

A tradutora assistente do Mr. Hi (Será que ele estava comendo ela?) apareceu com um sininho, o qual ela batia histericamente com um pauzinho, tentando acalmar a turma, mas demorou um pouco para as risadas pararem, e mesmo assim, de vez em quando, algum riso meio soluçado escapava de alguém, ameaçando detonar novamente a onda de gargalhadas.
Acho que o povo estava com muita tensão reprimida, por isso riu tanto. Uma psicóloga do grupo me explicou isso mais tarde.
Bem... deve ser, mas que ela riu até precisar ir fazer xixi correndo, riu, que eu vi!

Seja como for, já me tornei de imediato o cara mais popular da turma. Era um tal de Bocó pra cá, Bocó pra lá que não acabava mais. De vez em quando alguém dizia: "Pergunta pro Bocó"!

Oras, acho que era ironia de gente presunçosa, mas prefiro pensar que quem vem buscar auto conhecimento nesses cursos, é gente que, por não ter ainda o auto conhecimento, e por isso mesmo pagou para vir buscar, respeita a falha e deficiência de auto conhecimento dos outros.
Vou pensar assim para não achar meus companheiros de workshop uns metidos a besta. Me recuso a acreditar que gente metida a besta venha fazer esse tipo de trabalho.

Depois dessa interrupção toda, continuaram as apresentações.

Parei em frente à pessoa seguinte, uma mulher com cara de séria, psicóloga já formada na PUC e ela disse: "Feiticeira da Noite, psicóloga".

Ué, Feiticeira da Noite deve ser o que ela estava sentindo quando escolheu esse nome. Que tipo de sentimento é esse não sei... mas, deve ter a ver alguma coisa com a vontade de ser bruxa. Até que, pelo tamanho do nariz, ela não teria muita dificuldade para chegar lá. Já tinha mais de meio caminho andado (Ops! Comporte-se rapaz! Esse tipo de comentário jocoso não é próprio de gente do auto conhecimento).

"Bocó, auxiliar de contas a pagar", disse eu, olhando fixo nos olhos dela.

Bem, ela não caiu na gargalhada, mas acho que teve que fazer tanta força pra segurar a risada, que teve que ir correndo de novo no banheiro, pra soltar o ar reprimido dentro dela. Foi essa mesma quem me fez a análise dos conteúdos reprimidos do povo e tal.

É, acho que vou pular as apresentações que o assunto está entediante.

Entre risadas apertadas e disfarçadas e um monte de Fadas do Entardecer, Guerreiro do Infinito, Raio de Sol, Duende da Harmonia, Liliths e outras combinações disso mais aquilo, todo mundo acabou se apresentando e Mr. Hi, que tinha ficado sentado em uma cadeirona bebendo uma laranjada, enquanto nos submetíamos àquela primeira experiência, levantou-se, pegou um tambor cheio de penas penduradas e disse: "You ta ta ta, ta ta ta, te te te, ay, ay ,ay....", que a tradutora (Graças a Deus) traduziu assim: "Vocês agora vão fazer uma viagem ao túnel do inconsciente para encontrar seu animal de poder!".
(De agora em diante vou pular a fala do Mr. Hi que não entendo patavina de inglês e vou direto pra fala da tradutora).

É o seguinte: tínhamos que relaxar, imaginar-nos entrando em uma floresta e caminhando ao som das batidas do tambor. Caminhar, caminhar até encontrarmos a entrada de uma caverna.
Daí, a gente entrava na caverna e ia andando até encontrar um animal.
Mr. Hi disse que tinha certeza que encontraríamos um animal em nosso caminho. Provavelmente ele se aproximaria da gente e se comunicaria de alguma forma. Deveríamos trazer esse animal conosco no retorno de nossa viagem xamânica, e ele seria um tipo de companheiro para o resto de nossas vidas, e seria o nosso animal de poder, o qual poderíamos recorrer sempre que houvesse necessidade.

Bem, vamos lá né gente?

Deitei no colchonete e fiquei ligado no tambor, fazendo direitinho o que foi falado para fazer.
Caminhei um bocado pela floresta e nada de achar a tal caverna. Saco!
Comecei a ficar meio aflito que não tinha caverna nenhuma. Será que eu não estava fazendo direito?
Abri um olho e dei uma espiada disfarçada pro lado. Todo mundo que vi estava com a maior cara de felicidade, pareciam estar indo para o paraíso.
Saco! Saco! Saco!

Lembrei da grana que tinha pago para fazer esse workshop. Foi dinheiro economizado das horas extras que eu fiz de final de semana. Dinheiro suado, economizado tostão por tostão do que a gente conseguia fazer sobrar comprando carne de segunda, deixando de ir ao cinema e nunca gastando dinheiro e restaurantes. Até pizza a Rosinha fazia em casa pra gente economizar porque na pizzaria fica muito caro e, feita em casa sai bem baratinho. E olha que a pizza da Rosinha é um arraso, especialmente a de catupiri com alho e uma que ela inventou de chicória, alho e erva-doce. Acho que uma pizza assim, meio nova era não é?
Lembrei das crianças e do que poderia ter comprado para elas: o videogame que o Edenilson, o mais velho, tanto queria; a boneca Barbie que era o sonho da Edinalva, a mais novinha. Saco!
E o tambor batendo, e nada de caverna.

Estava pensando na Rosinha. No que eu diria pra ela... Ela estava tão feliz por eu ter, pela primeira vez na vida, ousado fazer alguma coisa diferente. Não podia decepcioná-la, tinha que encontrar meu animal de poder.

Estava imerso nesses pensamentos quando de repente o tambor parou.
Mr. Hi disse para voltarmos lentamente e trazermos em nossa consciência e em nossos corações o animal que tínhamos encontrado na caverna. Esse seria nosso animal de poder.

Bem, não tinha passado nem meia hora. Como esse povo é esperto e rápido hein? Acho que tenho mesmo muito que aprender.

Estava morrendo de vergonha e arrependimento.
Já me sentia ridículo e humilhado por causa do nome de guerreiro que tinha escolhido em minha inocência de querer ser honesto comigo mesmo.
Estava agora, me sentindo mais fraco e ridículo ainda, pois todos foram se levantando com um sorriso vitorioso, provavelmente trazendo seus animais de poder junto, e eu nadica de nada. Saco!
O que eu diria para Rosinha?

"Posso falar?", quase que gritou uma moça.
"Pode sim, Violeta Cósmica", disse o Mr. Hi. "Estamos aqui para compartilhar nossas experiências entre todos".

Gente, realmente a voz de "new age" do Mr. Hi era demais! Passava uma serenidade e sabedoria de arrepiar, mesmo pra quem não sabia falar inglês como eu. Além do mais, o cara lembrava o nome de todo mundo. Que memória!
Tudo bem que "Violeta Cósmica" é de lascar, até eu lembrava esse, e lembro inclusive, que fiquei um tempão pensando em como essa figura foi encontrar um nome desses. Que coisa!

"Encontrei a caverna", disse ela com a voz meio tipo daquelas moças que anunciam a chegada e partida de aviões no aeroporto, onde aliás, as crianças adoram ir aos domingos ver avião subindo e descendo. "E fui escorregando para dentro dela até que ficou plano e cheguei em um caminho cheio de flores, lindas e perfumadas, todas branquinhas", prosseguiu a moça.

A essa altura eu já estava com a maior inveja da Violeta.
Além de eu não ter encontrado porcaria de caverna nenhuma, a dela ainda tinha arranjo de flores. Pode uma coisa dessas? Imaginei até a igreja no dia do meu casamento: tinha flores brancas em todo o caminho até o altar, exigência da Rosinha (Lembro que custou uma nota esse capricho, ainda bem que o tio rico dela pagou tudo). Ela ia adorar a viagem xamânica da Violeta Cósmica.

"Depois de muito caminhar por essa trilha linda e suave, saltar alguns regatos de águas cristalinas e puras..."
Bem, daí acho que ela estava exagerando um pouco. Como podia saber que as águas dos tais regatos eram puras? É, acho que um riacho dentro de uma caverna xamânica só pode ter água pura, tem lógica.
Então ela prosseguiu: "vi uma sombra se movendo por traz das touceiras de flores. Levei um susto e quase voltei pra consciência. A sombra ia e vinha, não dava para ver direito o que era, passava por traz das árvores, até que, de repente, deu um salto e caiu em pé na minha frente. Era um gorila enorme. Preto, imenso! Com braços enormes e musculosos, e um peitão incrível. Seus dentes eram muito brancos e assustadores, mas eu não tive medo. Ele me olhou com muita ternura e me pegou em seus braços..."

Oops, meu Deus! Eu nessa hora não resisti de ter um pensamento bem safado sobre as preferências sexuais da moça, mas escondi rapidinho o pensamento que afinal de contas estávamos em um grupo xamânico em busca do auto conhecimento e não era lugar de ficar pensando safadezas.

""Então", disse Violeta, "ele me trouxe de volta para a superfície, para a floresta e veio comigo. Sinto ele dentro de mim. Sinto o poder do gorila dentro de meu ser..."

Nesse instante, Mr. Hi, que estava ouvindo tudo pela boca da tradutora, que pensando bem, era bem interessante e parecia muito íntima dele... Mr. Hi interrompeu a história da Violeta Cósmica e disse: "Muito bem, você encontrou teu animal de poder. É um animal poderoso que vai te proteger e cuidar de ti. Nenhum mal pode te acontecer com esse gorila junto de você. Ele lhe dará força e sabedoria".

Meu Deus! Como eu posso viver sem um animal de poder, pensei eu.
Como pude viver até agora sem a proteção de um animal para cuidar de mim e me guiar? Acho que é por isso que minha vida tem sido tão difícil. Preciso encontrar a tal caverna, preciso muito!
Já me sentia quase desesperado. Rosinha tinha razão: precisava entrar na tal de nova era, pra descobrir essa lacuna na minha vida, e porque me sentia tantas vezes tão vazio e sem sentido.

Nesse instante o pai de santo gay levantou a mão e pediu licença para falar.

"Quero contar minha jornada ao túnel do inconsciente", disse com força na voz.
Bem, ele não tinha voz assim efeminada, pelo contrário, tinha uma voz forte bem de macho. Fazia lembrar a voz da Ana Carolina, vai entender.
"Entrei no túnel e logo veio um leão se aproximando. O leão era enorme, com sua juba dourada pelos raios do sol. Chegou perto de mim e disse: sou o leão que te acompanha, sempre lutarei por você contra seus inimigos, sempre o deixarei forte e poderoso. Agradeci a ele por ser meu companheiro e lhe perguntei o nome. Buguiu N'agun Dalelê", disse ele, "que quer dizer Poderoso Rei das Savanas".

Agora foi demais! O cara é o maior viadinho. Mesmo com essa aparência de macho e esse cavanhaquinho de personagem de novela, não engana ninguém. Pô, o animal do cara é um baita leãozão! Como pode?

Eu, que sigo minha vida direitinho, respeito minha Rosinha, cuido dos meus filhos, trabalho feito uma mula para dar de comer a eles, nem perto do tal do túnel cheguei? Caramba, tá me dando a maior frustração essa situação.
Será que por não ser sofisticado como esse povo todo eu não mereço encontrar meu animalzinho? O do cara é um leão que fala e até tem nome! Porra!

Nesse instante o Mr. Hi interrompeu minhas lamentações mentais dizendo: "Meu caro Querubim, que belo animal você tem! Ele te protegerá e te acompanhará em sua caminhada pelas savanas da vida".

E eu pensei: Ahhhhhh... Querubim?! Vê se pode. O nome de guerreiro do cara é nome de anjinho. Ah, que esse não engana ninguém. Se o pessoal da firma estivesse aqui, ia cair matando, tirando o sarro dele. Viado eles não perdoam...."A Bicha e o Leão". Parece filme.

Então, depois de mais umas 3 ou 4 jornadas maravilhosas por lugares fantásticos e, que nem se fosse para imaginar o tempo que tivemos daria, o Mr. Hi virou-se pra mim e disse: "And You, Mr. Bocó?" e mais uns trecos que a tradutora traduziu sobre eu contar minha jornada.

Fiquei entre mentir e inventar uma história bem mirabolante como as que tinha ouvido, ou dizer a verdade. Então, achei melhor dizer a verdade, pois se eu não tinha conseguido nem achar a caverna, talvez a incompetência não fosse só minha. Talvez o tempo tenha sido curto demais, ou talvez ele não tenha batido direitinho no tambor, quem sabe?

Continua


Terça-feira, Novembro 07, 2006



O WORKSHOP DE XAMANISMO

por Valdenir Benedetti

Continuação

Segunda Parte - ACHO QUE VAI COMEÇAR O WORKSHOP


Gosto de todo tipo de música, do bolero ao samba canção, do rock ao axé, e por isso não estou muito acostumado com esse tipo de música que é um tal de: nhénnnn nhénnnn nhénnnn, que não acaba mais, e que de vez em quanto toca um sininho no meio. Ficava esperando a hora do sininho para tentar ficar acordado e me distrair um pouco. E olha que tocava o dia todo, quase não dava para perceber quando mudava de uma música para outra. Chegou uma hora que eu nem escutava mais, ainda bem, senão seria um sono só. Que chatura aquilo!

E foi com uma música dessas, tocada a todo volume, que acordaram a gente.

No começo eu não sabia que aquilo era música, demorei pra entender o negócio. Um gemido sem fim, com umas batidinhas no meio, e o inevitável sininho que fazia "pin". Só que demorava pra caramba esse "pin".
No início, ainda meio sonado, achei que era parte dos roncos ou da sinfonia de gemidos daquele povo. Por fim acabei sacando que aquilo era a música de workshop. Parece que são todas mais ou menos assim, ouvi dizer.

Ah, saudades do Zeca Pagodinho, Luis Airão, Reginaldo Rossi. As calcinhas do Wando, as olheiras da Gretchen, Sidney Magal Remix....

Eram seis da matina e tivemos que pular da cama, principalmente na hora que a Shandranua entrou no quarto e com sua voz "new age" (sim, por incrível que pareça existe isso. Todo mundo aprende falar com voz new age nesses workshops) e foi, meio ronronante, meio sussurrante dizendo: "Bom dia meus irmãozinhos. Está um lindo dia! O pai sol está sorrindo para nós. Vamos todos despertar para a vida. O céu está azul radiante! Os passáros estão cantando sua sinfonia!" e mais uma seqüência de frases do tipo que dava mesmo era vontade de continuar dormindo.


Imagem

Fomos todos para o salão de refeições.
Todo mundo com cheiro de banho tomado e xampu de flores silvestres, prontos para começar nossa aventura do auto-conhecimento.

O café da manhã foi muito bom: pão integral feito em casa, leite tirado diretamente da vaquinha da casa, queijo feito em casa, ovos das galinhas da casa, café plantado e colhido em casa, manteiga feita em casa, geléia feita em casa. Tudo natural e bom, e se eu encontrar vendendo dessa marca por aí, vou comprar pra levar pra Rosinha. Ela vai gostar.

Shandranua, nossa anfitriã, não parava de elogiar as coisas "feitas em casa" dela. E todo mundo concordava para ver se ela parava um pouco de falar, mas não funcionou muito.

O nosso "faciltador", que chamarei de Mr. Hi (porque é assim que o pessoal o chamava) tomou café da manhã junto com todo mundo, quer dizer, em uma mesa tomada pelas suas fãs.
O cara é mesmo um gostosão, mas acho que vou me controlar nesses meus comentários senão vão pensar que eu estava com inveja. Vai que o cara é bichona, né? (Oops, gay é o correto - oops 2: Olha a inveja, rapaz!). Já me sinto, de fato, "new age".

Quando todo mundo terminou de encher a pança, Mr. Hi se levantou e foi para o pátio onde aconteceriam os trabalhos. Todos se levantaram e seguiram Mr. Hi...

Continua


.
. .
Você é o visitante


on-line




Arquivos






Como comprar: cronicasmonica@hotmail.com


CERTIFICADO CRONICAS MONICA








Blogs

A Barca Do Arquimimo
A Estante Mágica De Ana
Afrodite Sem Olimpo
Allons, enfants!
Ar de Amor
Bailar das Letras
Bailar das Letras II
Banana & Etc
Basilides
߈ÅMÅÑÎÅ
Café d'Avó
Casa de Contos
Chico Sena
clandestina ane aguirre
Confiteor
Corra Alcira, Corra
Deu Nisso
Diversão e Artes
Em Busca Da Felicidade...
Engolimos A Bolinha Do Mouse
Entre Outras Mil
Erga Omnes
Espelho Feminino
Fabrício Carpinejar
Felicity Craft
Garimpando Beleza
Horizonte Geométrico
Infinito Positivo
Interlóquio
Leilaeme
Lixo Tipo Especial
Língua de Mariposa
Mafalda Crescida
Maré
Milton Ribeiro
Não Discuto
Natural
No Limite Da Razão
Notas do Velho Safado
Novesfora
O Blog da Gisa
O Pastim
Palavra & Tal
Pedra Brasileira
Pensar Enlouquece. Pense Nisto
Plastic Guy
Polly
Post Scriptum
Quando, Onde e Como
(Re)Aprendendo a Caminhar
Retalhos D'Alma
Rosa Choque
Senso Incomum
Sesmarias
Síndico
Stormy Angel
Sub Rosa
Teoria do Conceito
Todos os Sentidos
Umbigo do Sonho
Um Novo Bater de Asas
Vadiando
Wumanity
Zadig







Blogger Brasil



design de
Rossana Fischer